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24/11/2019 05:00 -03

Consequências de óleo precisam ser monitoradas por até 20 anos, alertam especialistas

Oceanógrafo adverte que petróleo bruto está grudado nas raízes dos manguezais e já entrou na cadeia alimentar.

MATEUS MORBECK via Getty Images
Voluntários tentam remover mancha de óleo da praia de Pocas, no município de Conde, na Bahia.

O óleo que está quase no Rio de Janeiro, após passar por 10 estados, percorreu um longo caminho no oceano. Além de chegar à costa, alcançou os estuários, rios e mangues brasileiros. Altamente tóxico, com substâncias cancerígenas, o óleo não deixou de causar estragos à vida aquática em qualquer etapa. Enquanto qualquer gotícula dele permanecer oculta, o que é uma característica do próprio, há alto risco para o meio ambiente em geral, mas também para a saúde humana.

Por isso, pesquisadores alertam que, mais do que os cuidados imediatos, será necessário um monitoramento do mar e dos locais atingidos por até 20 anos. As consequências não imediatas, como reações na pele das pessoas, ainda precisam ser acompanhadas devido ao alto teor de toxicidade do petróleo. 

“Não podemos esquecer que esse óleo tem hidrocarbonetos patogênicos, e patogênicos no sentido tóxico. É um material que altera toda a cadeia alimentar próxima. É um processo que vai ter que ser acompanhado durante muitos anos, cerca de duas décadas; monitoramento de organismos, da qualidade da água do mar e dos rios”, disse ao HuffPost o oceanógrafo Moacyr Cunha, vice-reitor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

O professor explicou que os peixes se reproduzem em estuários e mangues, atingidos pelo óleo, e depois voltam ao oceano. “Por maior que seja a nossa capacidade tecnológica de remover esse óleo, ele está grudado nas raízes dos manguezais e já entrou na cadeia alimentar. Será necessário um plano para acompanhar isso por muitos anos.”

Quem também destacou a importância de se manter a atenção pelos próximos anos foi o porta-voz de clima e energia do Greenpeace, Davi Martins. Ele alerta que a mancha de óleo, invisível, que fica submersa e está se desfazendo no oceano, tem o mesmo impacto independentemente do tamanho. 

As pequenas partículas que estão chegando às praias e mangues são tão ou mais impactantes, com potencial de serem mais, porque você não vê e não consegue tirar. O grosso foi retirado, mas tem parte que não tem como retirar. Tem parte enrustida nos mangues, afetando raízes das árvores, no lodo do mangue e aí tem a vida afetada.Davi Martins

Ele exemplificou ainda como, sutilmente, dá-se a entrada do petróleo na cadeia alimentar, mesmo que ele não esteja visível: “Há pequenos crustáceos com manchas de óleo e eles são os primeiros animais comidos por aves, peixes etc. O petróleo contém material pesado, é bioacumulativo, ou seja, nenhum organismo vivo consegue expelir esse material. O crustáceo está carregado disso, o peixe come, e o peixe, quando entrar na cadeia alimentar, vai carregar isso daí, e quando a gente comer, será afetado e não expele. A vida, nesses estuários, arrecifes, já está impactada. Tanto faz se é uma grande mancha ou se são pequenas partículas que estão chegando; já está afetada para o resto da vida.”

Atenção em saúde 

Como tantos outros estudiosos e autoridades que acompanham a situação do óleo no Nordeste, Moacyr Cunha classificou como “uma grande catástrofe ambiental” e “um caso de saúde pública”. Pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia) corroboram com esses entendimentos e, inclusive, divulgaram uma nota em que falam na necessidade de decretar estado de emergência em saúde.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, contudo, não vê o caso com essa gravidade. Procurado pelo HuffPost, o Ministério da Saúde disse considerar “que o risco seja baixo para a saúde pública, até o momento”, mesmo sabendo dos prejuízos à saúde de produtos como o benzeno — substância contida no petróleo altamente cancerígena. “[O ministério] Reforça que sua concentração no petróleo bruto como encontrado neste momento pode variar de menos de 0,5% a 4% do total, dependendo da origem do produto... Até o momento, [a pasta] não recebeu nenhum estudo que corrobore com essa fala de que há risco para a saúde pública”, informou o Ministério da Saúde na resposta ao HuffPost.

No dia 7 de novembro, o próprio ministério divulgou o registro de 70 casos de intoxicação por contato com petróleo no Nordeste: 66 em Pernambuco, 3 na Bahia, e 1 no Ceará. De acordo com o boletim epidemiológico, 57% dos afetados são homens com idade média de 28 anos, e 27% trabalharam como voluntários na remoção do óleo nas regiões afetadas.

Como mostrou o HuffPost, o governo tenta passar uma imagem de normalidade. No dia 11 de novembro, o Ministério da Agricultura (Mapa) divulgou uma nota em que garante a qualidade dos pescados de áreas atingidas. Porém, a reportagem entrou em contato com o professor Renato Carreira, do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que liderou os testes encomendados pelo Mapa, e ele refutou a pasta, alertando que as análises se deram apenas com amostras industriais, não artesanais. 

NELSON ALMEIDA via Getty Images

Monitoramento

O governo diz que esteve atuando desde o início da chegada do óleo na costa nordestina — as primeiras manchas foram registradas ainda no fim de agosto, no litoral da Paraíba. O esforço conjunto, porém, só foi montado quando o óleo já estava em sete estados e já passavam de 200 os locais atingidos pelo petróleo.  

Foi montado um comitê de crise com Marinha, ANP (Agência Nacional do Petróleo) e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) que atuam em conjunto, até o momento, na tentativa de limpeza das regiões atingidas. 

Teve início, porém, a elaboração de uma parte estratégica para tentar se antecipar ao óleo. Ainda com muitas perguntas sem resposta, sabe-se que o óleo, após entrar em contato com a água, passa por um processo de evaporação e busca uma densidade semelhante e, por isso, fica submerso, sendo impossível sua visualização. Isso tem dificultado a localização e o trabalho. 

Nesse sentido, há algumas frentes de trabalho em ação. Uma delas, é o grupo G1, coordenado pelo pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Paulo Nobre, que está estudando uma forma de detectar e prever o alcance das manchas de óleo. ”É algo de muita importância e precisamos de uma resposta para ontem, mas não tenho como prever quando teremos uma resposta. Estamos usando as estratégias de que o Inpe já dispõe para ajudar nessa crise”, disse ao HuffPost. 

Há também um navio da Marinha no meio do oceano há cerca de dois meses, segundo informou o almirante Ilques Barbosa, comandante da Marinha. Integrantes da Marinha nessa embarcação estudam a maré, os ventos e as correntes e tentam prever, a partir de onde as manchas de óleo foram vistas pela primeira vez e de onde já foram encontradas, para onde elas podem seguir nas marés altas que se seguirão, que é quando se espera que o petróleo chegue com mais intensidade à costa, se assim for. A próxima maré alta é dia 26 de novembro.