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04/11/2019 04:00 -03 | Atualizado 05/11/2019 09:49 -03

Sem saber destino do óleo, Marinha faz busca cega em estuários

Mergulhadores tentam retirar petróleo que chegou a rios e se instalou no fundo, mas sem informações precisas, são obrigados a se valer praticamente da sorte.

Cabo de Santo Agostinho (PE) — Sobram perguntas sem respostas a respeito do óleo que atingiu os nove estados do Nordeste. Após mais de dois meses, o desastre ambiental ainda não tem origem certa e pior: ninguém é capaz de afirmar se ainda há mais petróleo por vir, onde ele pode estar, e para onde ele já está indo. Do que já se viu, pelas características do produto, também há dificuldade em saber com exatidão regiões que ainda estão afetadas pelo produto — por exemplo, nos rios, onde o material muda de densidade e afunda.

A Marinha tem atuado numa tentativa de controlar e retirar o que se pode do mar e dos rios. Mas, sem informações precisas, ela depende da parceria com os órgãos oficiais e tem se valido de denúncias de pessoas que encontraram manchas e da ajuda de moradores das localidades afetadas que podem auxiliar em buscas. 

Foi o que aconteceu neste domingo (3), em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, um dos cartões postais do estado e um dos locais bastante atingidos pelo óleo — com os resquícios visíveis de óleo, nas praias, já recolhidos. O HuffPost acompanhou o dia da equipe da Marinha que foi procurar por manchas entre o rio Massangana e a Bacia do Porto de Suape. Por cerca de cinco horas, em cinco mergulhos, em cinco pontos diferentes, mergulhadores procuraram - e não encontraram - petróleo por ali. 

Marinha do Brasil
Equipe da Marinha recolhe óleo no rio Persinunga, Pernambuco, no sábado, dia 2 de novembro de 2019.

 

Mas como garantir que não há óleo no estuário se — e esta é uma das poucas respostas que já se tem — a densidade do petróleo não permite que ele boie e seja visto da superfície? E ele nem é sensível aos aparelhos utilizados pela Marinha para encontrar, por exemplo, objetos afundados? 

“Escolhemos uma área pré-limitada e usamos algumas técnicas de busca. Aqui [no rio Massangana] estamos usando o modelo circular. A partir de um ponto focal, a gente desce com um cabo, fixa em um ponto, ou fica um mergulhador em uma ponta, e o outro vai fazendo uma trajetória circular em torno daquele ponto ali, e aí vai aumentando o raio. Se eu colocar um cabo de 50 metros, no fim das contas, terei 100 metros de raio em torno do qual conseguirei fazer a busca. É bem confiável”, explicou ao HuffPost o capitão de corveta Hugo Leonardo, chefe das equipes de mergulho em Pernambuco. 

Óleo no mangue

Embora no estuário do Massangana a Marinha não tenha encontrado nada, o óleo chegou ao manguezal que sobe pelo rio. Já teve o grosso, visível, retirado antes dessa ação. Mas as raízes das árvores seguem impregnadas de petróleo, relatou ao HuffPost Vandécio Santana, 36 anos. Morador da comunidade local, ele também acompanhou a operação de domingo, mas para ajudar as equipes a encontrar os melhores locais para descer, onde poderiam encontrar, porventura, algum vestígio, de acordo com as correntes, o vento e a maré. 

“Tudo influencia. Quando o óleo chegou aqui com força, o vento estava na direção norte. Agora está soprando leste. Se uma madrugada dessas ele virar de novo e ainda tiver óleo lá no oceano aqui na altura de Pernambuco — o que ninguém sabe se ainda tem —, pode voltar a chegar mais óleo por aqui, sim”, afirmou o pescador, um conhecedor nato dos mares da região. 

O chefe dos mergulhadores endossou a presença de Vandécio e o auxílio da população local. “Como ele navega por esta área aqui, morador da região, e trabalha por aqui desde pequeno, ele pode ajudar muito. Se fosse uma área que não tivéssemos informação nenhuma, pegaríamos uma carta náutica com um pedido de observação de correntes de maré que existe em cada porto. Como aqui é Suape, com certeza tem um estudo que mostra qual é o histórico das correntes daqui, a tendência de maré”, completou o capitão de corveta Hugo Leonardo. 

Antes da operação em Massangana, as equipes da Marinha passaram dias no estuário do Persinunga, na divisa de Pernambuco com Alagoas, onde recolheram mais de 400 quilos de petróleo no fundo do rio.

Marinha do Brasil
Marinha usa guindaste para recolher petróleo em alto mar.

Há busca por óleo também em alto mar. Ao longo das últimas semanas, navios da Marinha foram utilizados para recolher quase três toneladas do material. Em uma das buscas de mergulhadores, foi preciso até guindaste para retirar óleo da água e depois uma madrugada inteira para cortá-lo e guardar em barris para armazená-lo. Das quatro ações no Nordeste, três foram na área marítima de Pernambuco. 

Mas além das ações em regiões pernambucanas, a Marinha tem atuado também nos demais estados atingidos, em especial na Bahia, onde o óleo chegou no sábado (2) ao Parque Nacional de Abrolhos. Equipes já retiraram pequenos fragmentos. Segundo o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, após sobrevoo pela região na tarde de domingo, a situação foi controlada e não houve novas ocorrências.

A reserva, porém, segue em alerta e monitorada por navios, helicópteros e reforços em terra. Abrolhos é a primeira unidade de conservação marinha do Atlântico Sul, considerada um dos principais berços da biodiversidade. 

Maior desastre ambiental do mundo

Há potencial para que o desastre ambiental se torne o maior do mundo em extensão territorial, já que ele pode chegar em breve ao Espírito Santo e ao Rio de Janeiro. 

O último balanço do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), de sábado, mostra um total de 314 áreas atingidas em 110 municípios, 114 praias limpas e ainda 179 localidades com vestígios esparsos (até 10% de contaminação). 

Até a noite de domingo, a Marinha informou que ainda havia vestígios de óleo visíveis em: Maragogi, Japaratinga, Barra de São Miguel, Coruripe, Feliz Deserto e Piaçabuçu, em Alagoas; Sarney, Atalaia, Artistas, Náufragos, Abaís e Aruana, em Sergipe; Quartel, Rio Vermelho, Pituaçu, Stella Maris, Flamengo, Cairu, Busca Vida, Jauá-Japonês, na Bahia.

A Polícia Federal estima que 2,5 mil toneladas de óleo foram derramadas no oceano pelo navio Bouboulina, o petroleiro de bandeira grega que, segundo procuradores da República, teria derramado o petróleo a cerca de 700 km da costa do Brasil entre 28 e 29 de julho, depois de ser abastecido com óleo da Venezuela.

Mais de 4 mil toneladas de óleo já foram recolhidas em todos os locais afetados, entre praias, mangues e rios até o momento. Isso porque, explicou a Marinha ao HuffPost, assim que despejado no oceano, o óleo já muda de densidade, o que altera o peso. Além disso, em contato com a areia, grãos também acabam recolhidos e pesam mais.