Odeio meu corpo, mas não quero que meu filho tenha problemas com a autoimagem

Um papo com mães e especialistas para entender os caminhos de uma educação segura e responsável sobre a autoestima.
A insatisfação com nossos corpos se torna, cada dia mais, uma questão de nossos tempos.
A insatisfação com nossos corpos se torna, cada dia mais, uma questão de nossos tempos.

“Sempre me enxerguei com muito menos generosidade do que eu merecia. Esse comportamento foi aprendido dentro de casa e reforçado na rua.”

A frase acima é da diretora de arte Carol Burgo, no auge dos seus 34 anos, mas poderia ter saído da boca de diversas outras mulheres, e em qualquer outra faixa etária.

Grávida da sua primeira filha, a pequena Olívia, a designer experimenta os dilemas da maternidade e esbarra naquele que talvez seja um dos mais complexos: como ajudar as nossas meninas — e meninos — a construírem a sua autoestima?

Carol Burgo entende que a sua relação com o corpo é um herança social e familiar. “Minha mãe sempre foi muito crítica em relação à própria beleza. Acho que nunca a vi tecer um elogio a si mesma. Ela sempre foi muito exigente e eu acabei herdando isso, absorvendo esse comportamento pra mim”, conta ao HuffPost.

E essa insatisfação se torna, cada dia mais, uma questão de nossos tempos. A dificuldade em enxergar novas possibilidades de corpos para além dos padrões estéticos estampados nas capas de revista, agora, são intensificados com a massificação do uso das redes sociais e uma espécie de supervalorização, quando não uma obsessão, em torno de nossas próprias imagens e selfies.

Mas como quebrar esse ciclo? O que fazer quando eu simplesmente odeio meu corpo, mas não quero transferir esse sentimento aos meus filhos?

De acordo com a educadora parental e especialista emocional Lua Barros, essa é uma busca que começa principalmente na forma como enxergamos a nós mesmos.

“Adoraria dizer que tenho uma relação tranquila com o meu corpo, que me aceito, me amo e me acho linda, mas a verdade é que meu olhar é sempre muito crítico, severo e injusto”, compartilha Barros, 38 anos e mãe de 4, em entrevista ao HuffPost.

″É sempre um olhar de escassez, de quem vê o que está faltando e o que precisa ser melhorado. Não acho que fui ensinada a apreciar e ser grata pelo meu corpo, mas sim a me cobrar. Hoje tento praticar esse olhar de respeito e gratidão comigo mesma”, analisa.

Os dilemas relacionados ao corpo se tornam latentes ainda na infância e podem ser um reflexo do que é aprendido em casa. “Eu sou filha de uma mulher negra muito bonita, que sempre reafirmou a beleza como sendo algo muito importante. Eu nunca ouvi dela que eu era feia ou gorda, mas sempre era aquele sentimento de que eu poderia estar sempre melhor”, relembra a educadora parental.

Hoje, mergulhada na educação de seus filhos, Lua Barros entende que não é o seu papel como mãe protegê-los ou afastá-los desses dilemas, mas sim procurar criar um ambiente para que as crianças compreendam que elas são inteiras por serem quem elas são.

“O que eu quero é que quando essa cobrança chegar, meus filhos, principalmente as meninas, não precisem se enquadrar em nenhum padrão que não sejam os deles mesmos. A vida para agradar o outro é muito opressora e no final a gente passa a agradar todo mundo, menos a gente. Quero que os meus filhos consigam entender que quem eles são é mais importante do que o formato de seus corpos”, diz.

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O Mito de Deméter e Perséfone Segundo a mitologia grega, Deméter era uma deusa que cuidava da fertilidade da terra, do plantio e da colheita, junto com sua filha Perséfone. Um dia Hades, deus do mundo inferior, raptou Perséfone para o seu mundo e deu-lhe uma romã para comer. Deméter então vagou por dias à procura de sua filha e, em desespero, não conseguiu mais trazer fertilidade à terra, provocando escassez de alimentos. Foi então que Zeus ordenou que Hades devolvesse Perséfone aos braços de sua mãe, para que ambas pudessem cultivar e fertilizar a terra juntas novamente. Hades concordou, desde que Perséfone pudesse ficar com ele ao menos um terço do ano. A este terço do ano sem cultivo, sem fertilidade, chamamos de inverno. E é bem nesse inverno onde tudo cessa, tudo morre, para que seja possível a terra descansar e renascer. . O mito de Perséfone apareceu numa das minhas sessões de terapia. A relação de interdependência entre mãe e filha presentes no mito, serviram de pano de fundo para eu analisar a construção da minha própria relação com a minha mãe. Mas mais do que a cumplicidade frutífera de ambas, foi interessante constatar a importância de Perséfone ter sido “raptada” para um mundo inferior. Esse mundo inferior, pessoal, profundo, é onde Perséfone se alimenta de suas paixões e fecunda, dentro de si, as sementes para o próximo plantio. O mito acabou servindo de inspiração para o primeiro quadro que eu consegui pintar em anos e que celebra a chegada de Olívia à minha vida. No quadro está Deméter (mamãe), vestida de verde e decorada com um trigo de ouro no peito, com seus olhos fechados em descanso pela missão cumprida do plantio. Está também Perséfone (eu), de olhos abertos e conscientes voltados para o presente. Aquela que desceu ao mundo inferior e encontrou um alimento doce e fértil com o qual ela emerge à terra para plantar. E por fim está o fruto dessa tríade, ainda adormecido e idealizado, mas dando continuidade a um processo ancestral que se inicia na Grande Mãe, aquela que gesta e pare o alimento, o tempo, o amor e a história.

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As expectativas familiares como embrião das frustrações

A autoimagem de uma criança é sempre uma construção. Desde o primeiro dia de vida, o bebê começa a estabelecer relações com o próprio corpo.

Com o tempo, acompanhamos o crescimento e o amadurecimento emocional da criança. Questões de linguagem, principalmente da compreensão do que os adultos estão falando ao seu redor, ganham cada vez mais espaço.

E é nesse movimento que a criança vai se inserindo na cultura daquele ambiente e passa a criar as suas referências do que é valorizado ou não naquele lugar.

“Se a criança está em uma casa em que seus pais estão insatisfeitos com eles mesmos e falam a todo momento em como não se sentem bem, com frases como ‘estou gorda, velha, feia e odeio meu corpo’, essa relação é absorvida. Ou seja, a criança fica com uma base instável para construir sua autoestima e entende que as relações com o corpo são difíceis e conturbadas”, explica Juliana Breschigliari, psicóloga especializada em desenvolvimento infantil.

Ela ressalta que as crianças tendem a querer corresponder sempre às expectativas dos adultos. E o resultado disso é uma relação de dependência que faz que os pequenos busquem a aceitação e a proteção da família.

“Por isso é muito importante que os pais tenham consciência das expectativas que eles projetam sobre os filhos”, sinaliza a psicóloga.

“Se a projeção é de que ele precisa ser um gênio ou o mais bonito da classe, a criança tem grandes chances de ficar escravizada por essa busca, tendo dificuldade em viver por ela mesma e não conseguindo entender o que gosta ou precisa.”

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Existe uma relação direta entre comportamento e autoestima: suas atitudes revelam como você se sente. E aí, a gente pensa na vida adulta, nas relações amorosas, de trabalho ou mesmo com amigos e esquecemos que isso vale para as crianças. Na verdade, isso fica evidente nos pequenos. Uma criança, independente da idade, que se comporta mal como um padrão ou que não consegue estabelecer diálogo, ela não se vê. Quando nossos filhos passam a acreditar nos rótulos que eles recebem, é como se eles encontrassem um lugar de reconhecimento. E uma vez que ele ou ela é reconhecido por aquele traço de sua personalidade, não existe motivação para explorar as tantas outras possibilidades, já que ninguém é uma coisa só. Precisamos entender a importância de olhar para nossos filhos e valorizar quem eles são em primeiro lugar, para só depois reconhecer o que eles fazem. Mas nós invertemos essa lógica e assim, não ensinamos sobre processos. Como seres complexos, é muito irritante ser percebido apenas por uma parte do que temos. Será que você, ainda hoje, acredita que é o que sempre te disseram que você era? Qual foi o seu rótulo e quanto dele você ainda carrega? Por aqui, fui a menina precoce, a responsável, boa aluna, que me virava. Uma autossuficiência que me fez endurecer e demorar muito tempo para reconhecer a importância da fragilidade. Hoje, faço o esforço diário de reconhecer meus filhos e me orgulhar de ser a mãe das crianças que tive e não das que eu gostaria de ter tido. E o engraçado é que essas crianças nos aceitam e nos amam com todos nossos defeitos, mas a gente falha muito com eles no sentido contrário. Cobramos uma perfeição irreal e pesada que diz muito sobre a gente e não sobre eles. Desfazer esse ciclo demanda esforço, mas a minha maior recomendação é para que a gente olhe o afeto como sendo a melhor e mais potente arma contra a dureza das palavras ditas e não ditas. Vamos? 📷 @pedrinhofonseca

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Educar é resolver os próprios conflitos

Talvez um dos momentos em que mais entendemos sobre responsabilidade é quando nos tornamos uma referência para alguém. No caso das crianças, o adulto de referência (que não é necessariamente somente o pai ou a mãe) tem papel ativo no que é transmitido e absorvido por elas.

“É difícil compreender a própria experiência, mas é necessário saber que palavras vazias não carregam um verdadeiro significado. Não existe algo que uma mãe ou um pai possam dizer para um filho em termos de ele ser feliz com ele mesmo se aquele adulto não está vivendo isso. Antes de tudo, a gente precisa se compreender e estarmos ok com isso”, explica Breschigliari.

Parece fácil compreender tudo isso na teoria, mas é quando vamos analisar a prática dessas relações que percebemos o quanto a nossa autoestima é afetada por padrões que atravessam gerações. É como um ciclo vicioso, e o que costumamos fazer é repassar aquilo que recebemos. Por isso, algumas rupturas, ou melhor, tomadas de consciência, às vezes são dolorosas, mas necessárias.

A psicóloga Patrícia Gipsztejn Jacobsohn exemplifica como alguns hábitos, além dos discursos, podem ser poderosos gatilhos. É o caso das dietas.

“É muito frequente que as mulheres principalmente embarquem na lógica das dietas e das restrições. É muito complicado quando mães se relacionam com a comida como vilãs e querem que seus filhos tenham hábitos mais saudáveis”, pontua a especialista.

Para Jacobsohn, a questão central está em como nós passamos a enxergar o nosso corpo como a totalidade de algo por meio da idealização de uma imagem, e não um veículo, um abrigo, uma ferramenta (seja lá como você quiser nomear) para que possamos experimentar momentos e sensações.

“Vivemos o mito da beleza de que só são felizes as pessoas bonitas ou magras e essa é uma falácia que a gente ouve em casa, na mídia e no papo com as amigas. O impacto nas crianças é muito grande, não à toa, esses dias uma criança me disse que estava brincando de fazer regime. Então a gente percebe que essa relação já faz parte cada vez mais do imaginário infantil”, explica.

A importância de ressignificar as pequenas atitudes

Faltam alguns meses para a Olívia, filha da Carol Burgo, nascer, mas ela já se preocupa em transferir para sua filha questões com sua autoimagem.

“Vou ser mãe de uma menina e não quero repetir na frente dela nada que deprecie meu próprio corpo, para que ela não cresça se comparando com os outros ou criando padrões irreais de beleza”, compartilha. “Espero conseguir que a minha filha seja uma mulher segura o suficiente para abraçar seu corpo e transitar pelo mundo reverenciando o que ele representa.”

Mãe de Irene, 7 anos, e Teresa, 6 anos, Lua Barros afirma que seu receio com o tema também é um trabalho diário.

“Como mãe, a minha preocupação é que isso não seja um assunto. Tento estimular minhas filhas a estarem confortáveis no corpo que elas têm. Elas me perguntavam com muita frequência se estavam bonitas e eu sempre dizia: ‘filha, você é bonita’. Isso se tornou um mantra para a gente e elas já falam isso muito naturalmente entre elas”, conta.

Já com os meninos, João, 11 anos, e Joaquim, 2 anos, a abordagem de Lua é um tanto diferente. “Temos que ter muito cuidado para não inviabilizar as inseguranças deles, sabe? Para minhas filhas a construção é para que o olhar delas seja o soberano sobre elas mesmas. Para os meninos, a condução é para que o olhar deles seja mais empático com eles e com os outros”, pontua.

A tarefa de fazer do mundo um lugar mais confortável para o debate da autoestima e autoimagem, no entanto, não é limitado apenas aos pais. “Nisso, até quem não tem filho tem um papel social muito importante. É preciso estar atento aos elogios”, explica Jacobsohn.

Isso porque acolher uma criança, muitas vezes, é mais valioso do que elogiá-la. É preciso ter respeito com seus interesses, competências e histórias individuais.

De acordo com a psicóloga, elogiar ajuda a valorizar os pontos positivos da criança, mas, por outro lado, pode pautar uma relação em que a criança só faz algo na expectativa de receber um feedback positivo. Por isso, é importante estimular os pequenos a entenderem a importância de suas ações independentemente do que vão receber por elas. E na hora de elogiar, outro ponto de atenção é não colocar o corpo e a imagem em uma posição central.

“Troque o lindo por inteligente, esperto, criativo e perspicaz. Diga que a criança fez uma boa pergunta. Olhe para a criança de forma mais global”, completa a especialista.

No fim do dia, é tudo uma questão de voltar o olhar um pouco para a nossa própria experiência, buscar elaborar tudo o que foi vivido e nos tornarmos mais livres das nossas próprias cobranças. Daquelas que nos prendem e daquelas que podem impactar os nossos filhos.