ENTRETENIMENTO
04/08/2019 00:00 -03

‘O Rei Leão’ era um 'plano B' que deu muito certo. Hoje, é apenas mais um produto

O clássico da Disney ajudou a criar o padrão ‘enxaguar e reciclar’ novas produções -- algo que prevalece na Hollywood de hoje.

Quando a Disneycomeçou o projeto de O Rei Leão, em 1988, logo ficou claro que não havia muita fé no projeto. A maioria dos animadores do estúdio acabaram optando por trabalhar em Pocahontas, achando que era um trabalho mais promissor. Executivos e artistas estavam convencidos de que a história de Jamestown, que parecia tradicional na comparação – Pocahontas é um romance de princesa com uma protagonista estabelecida, afinal de contas – seria um hit garantido. Mas aquele filme com os gatos shakespearianos? Não era tão certo assim.

Em 1991, quando começou a produção, Pocahontas era o filme “A”, e O Rei Leão, o “B”. Jeffrey Katzenberg, que era o presidente do estúdio na época, disse que, se o filme arrecadasse 50 milhões de dólares, seria um sucesso tão grande que ele se ajoelharia.

Illustration: Chris McGonigal/HuffPost; Photos: Disney, Alamy
O Rei Leão apresentou novos visuais e enfatizou a ingenuidade. Não dá para dizer o mesmo do remake atual.

O filme estreou em junho de 1994 e foi um sucesso imediato. O Rei Leão tornou-se a propriedade mais valiosa da Disney desde Branca de Neve e os Sete Anões colocar a animação no mapa, 60 anos antes. A esperança de Katzenberg se realizou, multiplicada por seis vezes.

O filme ficou em cartaz até o ano seguinte, arrecadando 311,3 milhões de dólares só nos Estados Unidos, mais que sucessos anteriores como A Pequena Sereia, A Bela e a Fera e Alladin. As resenhas foram altamente favoráveis, e alguns anos depois O Rei Leão já tinha rendido estimado 1 bilhão de dólares em merchandising. A adaptação para os palcos, lançada em 1997, é o musical da Broadway mais lucrativo de todos os tempos. O lançamento em vídeo também bateu recordes.

Quanto a Pocahontas, bem, a expectativa não se confirmou. Os números foram mornos, na melhor das avaliações. Lançado no verão seguinte, o filme arrecadou menos da metade de O Rei Leão, decepcionando os que esperavam uma mina de ouro.

Hoje, nenhum dos produtos da Disney – certamente nenhum que não esteja afiliado a Pixar, Marvel ou Lucasfilm – é tão amado quanto aquela história do filhote de leão que não vê a hora de virar rei. Além disso, a ideia de que um filme caríssimo possa ser um hit certo é suficiente para colocar Hollywood em crise existencial.

Yahoo! Movies
A versão animada de O Rei Leão foi um sucesso imediato em 1994.

Dado o padrão “enxaguar e reciclar” que domina Hollywood no século 21, o legado de O Rei Leão representa um candidato óbvio para um remake. Desta vez, ninguém vai ficar surpreso quando Simba e companhia gerarem um gazilhão de dólares em lucros, reforçando o bastião da Disney na indústria.

O que é tão lucrativo quanto leões desenhados à mão recriando Hamlet na savana? Leões fotorrealistas recriado Hamlet na savana, é claro. Nesta última década, em especial, o ecossistema de Hollywood treinou o público mainstream a assistir apenas a filmes como O Rei Leão – espetáculos de computação gráfica que seguem fórmulas e custa, neste caso, inacreditáveis 260 milhões de dólares (ou mais) e parecem o mais próximo que podemos chegar de eventos monoculturais.

Mas, enquanto o público curte essa nostalgia insaciável, outra coisa nunca mais será a mesma: o senso de descoberta. A Disney no passado estava comprometida a apresentar verdades duras do mundo às crianças. Nas últimas duas décadas, porém, essas ideias estão basicamente relegadas à Pixar. A geração que cresceu assistindo Dumbo sendo separado da mãe, a morte da mãe de Bambi e do pai de Simba, Mulan forjando sua identidade agora assiste... (A Disney ainda tem de aprovar um remake de Bambi, mas a tecnologia usada para fazer o novo Rei Leão certamente deve funcionar). Moana, um conceito que revitalizou os clichês das princesas da Disney, é uma exceção.

Mesmo com a adição de piadas, uma nova música de Beyoncé e uma paleta que lembra o documentário da BBC Planet Earth, o novo filme não dá o mesmo senso de maravilhamento do original. A obsessão por remakes em forma de filme, que não parece perder fôlego, é cautelosa a ponto de ser frustrante. As histórias não são reimaginadas – são apenas uma reprodução dos hits antigos. Só algo novo pode deslumbrar, e não é o caso de leões inexpressivos cantando músicas de 20 anos atrás. “É, gostei” é o máximo que se pode dizer do novo Rei Leão.

Disney
O remake de 2019 de O Rei Leão tem leões inexpressivos cantando músicas de 20 anos atrás.

Como chegamos até aqui é um estudo de caso complexo da evolução de Hollywood. O Rei Leão é um daqueles filmes que viraram um produto destinado a render infinitamente. Em outras palavras, os filmes viraram marcas. Se Guerra nas Estrelas deu início a esse modelo, os anos 1980, sob a presidência de Ronald Reagan, o cristalizaram.

Caçadores da Arca Perdida (1981), E.T. (1982), Batman (1989), Parque dos Dinossauros (1993) e os musicais mencionados do chamado “renascimento da Disney”(1989-1999) criaram uma cultura de bonequinhos, parques temáticos, promoções em restaurantes de fast food, DVDs e Blu-rays, tudo parte das planilhas dos executivos. Mas esses filmes não eram somente oportunidades de marketing; eles enfatizavam ingenuidade, apresentavam novos visuais e levavam adiante a arte do cinema escapista.

O mesmo não pode ser dito da nova versão de O Rei Leão nem de vários outros remakes da Disney. Dirigido por Jon Favreau – responsável por hits como Homem de Ferro e a versão computadorizada de Mogli – O Menino Lobo ―, essa nova visita à savana é redundante.

Tecnicamente não se trata de uma reprodução cena por cena, mas bem que poderia ser, já que o novo filme é uma cópia fiel dos visuais originais. Rafiki erguendo o recém-nascido Simba? Sim. Simba crescendo ao som de Hakuna Matata, sob o brilho da lua? Sim. Timão e Pumba comendo? Sim. O espectro de Mufasa visitando Simba em meio a nuvens púrpura? Sim. Simba rugindo triunfalmente no alto do penhasco? Sim. (Quando ao “sexo” no céu, você decide.)

Que curiosa essa ideia de que esse tipo de iconografia fosse considerada arriscada. Mas é verdade, se acreditarmos que o primeiro filme fosse uma grande aposta. Elton John, por exemplo, jamais tinha composto um musical. Além disso, o filme era uma ópera filosófica que mirava na grandiosidade de Lawrence da Arábia e não tinha uma heroína em busca do amor. Depois do fracasso de público de O Caldeirão Mágico e das críticas negativas a Oliver e seus Companheiros, tudo era uma aposta. (Se quiser saber mais, procure o fascinante documentário Waking Sleeping Beauty, que trata do renascimento da Disney). Hoje em dia, não poderia ser menos arriscado.

Disney
No remake de “O Rei Leão”, Scar é reduzido a apenas mais um leão malvado.

Até mesmo nos momentos mais empolgantes, é difícil não classificar esta nova versão como um atraso para o cinema moderno. Que pessoa em posse de suas faculdades mentais pediu uma edição na qual os leões pareçam reais? Será que não entenderam que a expressões dos leões de verdade quase não muda e, portanto, é difícil perceber suas emoções?

E tem algo mais esquisito no tratamento dado aos vilões homens desses remakes. Amados por sua grandiosidade teatral, canalhas como Jafar (interpretado por Marwan Kenzari em Aladdin) e Scar (dublado aqui por Chiwetel Ejiofor) foram reduzidos a machões sem graça. O estúdio parece desesperado a evitar acusações de longa data de que os vilões exagerados são arquétipos gays.

Em vez de criar um Scar gay (já pensou?) ou procurar algum ângulo único, ele é reduzido a apenas mais um leão malvado. Até mesmo seu grito de guerra é diminuído. O roteiro, creditado a Jeff Nathanson (Prenda-me Se For Capaz), inclui um detalhe que deixa claro que Scar é heterossexual; ele tinha competido com Mufasa por uma leoa, como se precisássemos dessa informação. Tudo isso resulta num filme desdentado, uma recusa de permitir que os vilões sejam qualquer coisa além do óbvio numa época em que eles estão na Casa Branca e outros lugares.

É claro que os cinemas estarão cheios de gente que vai adorar esse Rei Leão. Mas a Disney simplesmente presume – com a exceção de Meu Amigo, o Dragão ― que o público não mudou nestes anos todos, que só queremos que a cultura pop cale a boca e toque os hits. O que acontece quando houver remakes de todos os filmes? Teremos remakes dos remakes? Será que a cultura americana do entretenimento vai continuar cavando esse buraco de tédio hipercapitalista?

Se este é o círculo da vida ao nos aproximarmos do fim da década, talvez seja a hora de procurar outro formato.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.