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25/08/2020 19:41 -03 | Atualizado 26/08/2020 08:57 -03

Os 11 denunciados e o que se sabe sobre a dinâmica da família de Flordelis

‘Não se trata de uma família, mas de uma organização criminosa’, diz o delegado que investiga o caso.

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Flordelis e Anderson começaram a namorar em 1991, ele tinha 14 anos e ela, 30 anos.

A deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ) e outras 10 pessoas são apontadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como autores do assassinato do marido da parlamentar, o pastor Anderson do Carmo, 42 anos, no ano passado. O que tem chamado atenção na história é o fato de que quase todos os envolvidos são da mesma família — Flordelis tem 55 filhos, apenas 4 são biológicos — e a relação entre eles.

Antes de casar, por exemplo, Anderson teve um relacionamento com uma das filhas de Flordelis. De acordo com a mãe do pastor, Maria Edna do Carmo, Anderson se relacionou com Simone dos Santos na adolescência. Quando Flordelis e Anderson começaram a namorar, ele tinha 14 anos e ela, 30 anos. Isso foi em 1991. Ele havia se encantado com a mulher que adotava crianças.

Simone é uma das denunciadas pelo MP pelo assassinato do pastor. Em agosto do ano passado, um homem que teve um relacionamento extraconjugal com Simone afirmou que ela havia confidenciado a ele que gostaria de matar o padrasto. O amante, Rogério dos Santos, chegou a se oferecer para executar o crime, mas Simone teria declinado e afirmado que ele não teria coragem. Para ele, ela teria dito: “Vou matar esse demônio, a gente não aguenta mais. Minha mãe não aguenta mais”.

Segundo o MP, Simone e os irmãos adotivos Marzy Teixeira da Silva e André Luiz de Oliveira aturaram juntos na tentativa de envenenar o pai. “O envenenamento foi feito de forma gradual, sucessiva. O arsênico era posto na comida do pastor de forma dissimulada”, afirmou o promotor Sérgio Luiz Lopes Pereira, do Grupo de Atuação Especializada e Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público.

André foi flagrado em troca de mensagens com a mãe, na qual ela pede ajuda. “André, pelo amor de Deus, vamos pôr um fim nisso. Me ajuda. Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio?”, diz. Em outra mensagem, ela diz: ‘Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus’.

André, pelo amor de Deus, vamos pôr um fim nisso. Me ajuda. Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio?
Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus.

Uma imagem que teve grande repercussão nesta terça foi a das buscas feitas por Marzy na internet.

Marzy é apontada como a responsável por cooptar outro irmão para o esquema, Lucas Cezar dos Santos. Ela teria oferecido R$ 10 mil para ele executar o crime. Lucas não é tido como autor dos disparo, mas teria ajudado Flávio, filho biológico de Flordelis, na compra da arma usada no assassinato. Flávio que teria atirado contra o pastor. Ele foi preso no dia do velório de Anderson, mas pela acusação de ter ameaçado a ex-mulher no início do ano.

Carlos Ubiraci Francisco da Silva, filho adotivo, é acusado de ter participado do planejamento do homicídio; Adriano dos Santos, filho biológico, teria auxiliado em uma tentativa de obstruir as investigações, e a neta, Rayane dos Santos Oliveira, teria ajudado na busca por alguém para executar o crime. Também foram denunciados o ex-policial Marco Siqueira e a esposa dele, Andreia Santos Maia, por terem auxiliado no crime.

Todo esse emaranhado fez o delegado Allan Duarte apontar Flordelis como a mentora do plano. “Não se trata bem de uma família, mas de uma organização criminosa. Descobrimos que toda aquela imagem altruísta, de decência, era apenas um enredo para ela alcançar objetivos financeiros e a projeção política”, disse ele.

De acordo com apuração do Jornal Nacional, os filhos eram tratados de maneira diferente. Os filhos biológicos e os primeiros a serem adotados tinham benefícios, como melhor acesso a comida e quartos de melhor qualidade. A estrutura da casa e como a família se organizava dentro dela facilitava essas divisões. Esses detalhes têm como base o depoimento dos filhos adotivos prestados à polícia do Rio de Janeiro. Pelos depoimentos, há mágoa entre os filhos e em relação à deputada. Após a morte de Anderson, houve um racha na família.

Há ainda outros detalhes que atraem holofotes para esse caso. A polícia ainda não descobriu o que o casal fez na madrugada do crime. A suspeita é de que tenha ido à casa de swing.

A defesa da deputada diz que ela é inocente e que o caso está sendo espetacularizado. Todos os denunciados estão presos, com exceção de Flordelis. Ela tem imunidade prisional, por ser parlamentar. Só poderia ser presa em flagrante de um crime inafiançável. Ela está impedida de deixar o País e de ter contato com testemunhas do caso.