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05/09/2020 04:00 -03 | Atualizado 23/09/2020 15:26 -03

O que são eventos de supertransmissão e como evitá-los?

Determinadas condições podem reforçar a propagação do coronavírus. Você pode evitar essas situações se mantiver em mente três orientações básicas.

Esta semana uma leitora do HuffPost UK, Leanne, perguntou: “O que é um evento de supertransmissão? Como posso fugir esses eventos?”

“Supertransmissores” não é um termo científico. Mas é usado para descrever pessoas que acabam acidentalmente contaminando muito mais pessoas do que seria de se esperar – e, neste caso, estamos falando em contaminar pessoas com a covid-19.

Portanto, um evento de supertransmissão é aquele em que esta pessoa transmite o vírus para muitas pessoas de uma só vez. Normalmente podemos prever que uma pessoa com covid-19 transmita o vírus para uma ou duas outras pessoas. Mas, em um evento de supertransmissão, ela pode contagiar dez ou mais pessoas.

Eventos de supertransmissão já ocorreram até agora em vários tipos de locais, incluindo fábricas de processamento de carne, prisões, boates e bares – basicamente, qualquer espaço em que as pessoas ficam em proximidade estreita, a ventilação é escassa e o vírus tem a oportunidade de se espalhar muito rapidamente.

Para evitar atribuir culpa a pessoas, os cientistas querem que se enfoquem menos as pessoas (os supertransmissores) que atuam como a fonte de contágio e mais as circunstâncias em que a supertransmissão se deu. Dizem que essa mudança de enfoque pode ajudar a evitar que situações desse tipo se repitam.

DKOSIG VIA GETTY IMAGES

O modo mais provável de se contrair a covid-19 parece ser as transmissões domésticas, mas uma análise realizada pela London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM) concluiu que casas de repouso, bares, ambientes religiosos e locais de trabalho estão associados a mais casos de covid. Também houve incidentes desse tipo em casamentos, eventos esportivos e conferências, depois dos quais muitas pessoas adoeceram.

Quentin Leclerc, pesquisador doutor em modelagem matemática de doenças infecciosas, que participou da análise feita pela LSHTM, diz que, em vez de focar no tipo de local em que o vírus se espalha (por exemplo uma boate ou um salão de festas usado em casamentos), precisamos prestar atenção às condições ambientais que parecem alimentar os eventos de supertransmissão.

“Muitas pessoas perguntam: quais são os ambientes de mais alto risco? Como podemos classificar esses ambientes em um ranking de risco?”, diz Leclerc. “Mas não faz muito sentido falar do problema nesses termos. O que é interessante é dizer que, quando vemos eventos de supertransmissão, as circunstâncias têm essas ou aquelas características – logo, são esses os fatores que facilitam eventos de supertransmissão.”

Leclerc destaca que ambientes fechados, pessoas em proximidade estreita, má ventilação e ambientes relativamente frios (como é o caso de fábricas de processamento de alimentos) – esses fatores parecem facilitar uma transmissão maior do vírus. Isso em comparação com um espaço ao ar livre, por exemplo, que seja maior, e onde as pessoas possam manter distância social umas das outras.

É o que explica porque corais (onde a proximidade estreita entre os cantores, o ato de cantar e coisas como beijos e abraços trocados entre os cantores) teriam alimentado a transmissão do vírus, além de fábricas e unidades de processamento de carne, ambientes geralmente frios e onde muitas pessoas ficam em proximidade estreita. Entre quatro fábricas de alimentos na Inglaterra e no País de Gales, mais de 450 trabalhadores testaram positivo para a Covid-19 em junho. Houve 200 casos em apenas uma dessas fábricas, situada em Anglesey (País de Gales).

Outro fator a levar em conta é se as pessoas em proximidade estreita com uma pessoa infectada têm sistema imunológico debilitado ou problemas de saúde preexistentes. Quando esse é o caso, elas podem ser mais suscetíveis aos efeitos do vírus. Isso pode ajudar a explicar por que o vírus tem tido impacto tão devastador sobre casas de repouso.

O professor da Universidade de Edinburgh Rowland Kao, especialista em epidemiologia veterinária e ciência de dados, diz que muitos exemplos de transmissão de covid-19 se devem a pessoas que têm mais contato com outras do que a média.

Isso pode ocorrer, por exemplo, se uma pessoa contaminada faz visitas frequentes a locais fechados onde fica em proximidade estreita com outras pessoas. “Esse foi o fator responsável pela notória situação de supertransmissão vista em Seul em maio, que levou ao rastreamento de contatos de milhares de pessoas e a mais de cem casos de covid”, ele comentou.

O evento em questão ocorreu quando um homem de 29 anos foi a cinco clubes e bares em Seul, Coreia do Sul. Mais tarde esse homem testou positivo para a covid-19, e bares e clubes em Seul foram obrigados a fechar as portas. Pelo menos 101 casos de Covid foram vinculados ao evento, e mais de 7.000 pessoas foram testadas para evitar que o vírus se propagasse ainda mais.

O professor Kao destaca que 10% das pessoas foram vistas como responsáveis por 80% dos novos casos no início da pandemia. Quando o lockdown foi imposto, esse tipo de transmissão foi freado. Mas, com as restrições sendo levantadas e a normalidade voltando, em certa medida, teme-se que essa volta à vida normal possa novamente deslanchar eventos de supertransmissão do vírus.

Então como podemos evitar esses eventos? Leclerc diz que no Japão são destacados três fatores: evitar espaços fechados e mal ventilados, evitar espaços superlotados, com muitas pessoas por perto, e evitar situações em que você converse em proximidade estreita com outras pessoas. Quem quiser evitar eventos de supertransmissão precisa manter essas recomendações em mente.

Os cientistas ainda estão aprendendo sobre a covid-19. A informação contida neste artigo é o que era sabido ou estava disponível quando o texto foi publicado, mas as orientações podem mudar à medida que cientistas descobrirem mais sobre o vírus.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e trauduzido do inglês.

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