O que é positividade tóxica – e por que ela pode ser prejudicial?

Esta é para você que vive dizendo para si mesmo que tudo vai ficar bem e só se concentra em emoções positivas ou felizes.

“Vai ficar tudo bem.” “Vai passar.” “Mantenha o pensamento positivo! Poderia ser pior.”

Se você já passou por um período difícil (fim de relacionamento, demissão), provavelmente já ouviu algumas dessas frases até cansar. A intenção sempre é boa; as pessoas estão apenas tentando te ajudar a ser um pouco otimista nesse momento difícil que você está passando. “As coisas vão melhorar, seja otimista.”

Mas se frases desse tipo são tudo o que você ouve de seus amigos e parentes, esse excesso de positividade pode ser... negativo.

Esse tipo de incentivo e é tão comum que os especialistas em saúde mental têm um nome para ele: positividade tóxica.

“Positividade tóxica é a ideia segundo a qual devemos nos concentrar apenas nas emoções positivas e nos aspectos positivos da vida”, diz Heather Monroe, assistente social e diretora de desenvolvimento de programas do Newport Institute. “É acreditar que, se ignorarmos as emoções difíceis e as partes de nossa vida que não vão bem, seremos muito mais felizes.”

O problema é que a positividade tóxica simplifica demais o cérebro humano e a maneira como processamos as emoções, e isso pode ser prejudicial à nossa saúde mental, afirma Monroe.

“Você pode combater a positividade tóxica reconhecendo que diversas emoções complexas podem existir ao mesmo tempo dentro de você.”

- Jenny Maenpaa, terapeuta

“A positividade tóxica pode ter efeitos de longo prazo, incluindo incentivar a pessoa a permanecer calada sobre suas dificuldades”, afirma Monroe. “Sentir-se conectado e ouvido pelos outros é um dos antídotos mais poderosos contra a depressão e a ansiedade. Já o isolamento alimenta esses problemas emocionais. Muitas vezes, tentar esconder ou negar sentimentos pode levar a mais estresse no corpo e maior dificuldade em evitar emoções difíceis.”

O otimismo exagerado e a tentativa de abafar os sentimentos negativos não os faz desaparecer; pelo contrário, eles podem se exacerbar.

Impulso da positividade tóxica causado pela pandemia

Dado o trauma coletivo que todos estamos enfrentando com a pandemia de coronavírus, a positividade tóxica é um conceito especialmente relevante no momento.

Os posts no Instagram dizendo que precisamos aproveitar as oportunidades apresentadas por esse momento, curtir mais tempo com a nossa família, entrar em forma, adquirir um novo hobby, aprender um novo idioma, finalmente escrever um romance? Isso é positividade tóxica, diz Noel McDermott, psicoterapeuta de Londres.

“Um dos maiores exemplos de positividade tóxica é a negação da natureza traumática da pandemia”, afirma McDermott. “Você vê isso quando as pessoas promovem somente o lado positivo do isolamento, suas jornadas de autodesenvolvimento, aprendendo a viver em paz com seu mundo interior.”

Ele acrescenta: “mesmo em tempos normais, concentrar-se no seu eu interior é sempre um desafio, pois todos temos nossos demônios”.

Sutilmente ― ou nem tanto, como mostra o tweet viral abaixo – a positividade tóxica sugere que, se você não se mantiver positivo sobre a pandemia, está com a cabeça no lugar errado.

Ela deslegitima as preocupações reais que as pessoas têm com sua saúde, com a família, com os amigos, com a capacidade de colocar comida na mesa se perderem o emprego.

Na pandemia, a sobrevivência é mentalmente exaustiva; ninguém pensa em fazer bicos ou aprender uma segunda língua enquanto se preocupa com suas famílias e se despedem de pessoas queridos, às vezes em funerais via Zoom.

Se você não sair dessa com uma nova habilidade, uma ideia de um novo negócio ou mais conhecimento, É PERFEITAMENTE NORMAL. Não estamos em férias de verão, é uma pandemia. Isso é o mais puro lixo.

Se você não sair dessa quarentena com:

1.) Uma nova habilidade

2.) Começar algo que você vinha adiando, como um novo negócio

3.) Mais conhecimento

Não te faltou tempo, faltou disciplina

Como respondeu um sujeito ao tweet acima: “a maioria de nós ficará mais do que satisfeita se passarmos isso sem perder nenhum parente”.

Obviamente, também podemos ser vítimas de nossa própria positividade tóxica. Pense na sua perspectiva atual: você está se forçando a ser positivo durante a pandemia? Você já se permitiu analisar sua dor e inquietação? Ou você afasta esses pensamentos o mais rápido possível para se concentrar em permanecer positivo e grato pelo que tem?

Obviamente, não há nada errado em reconhecer o lado bom das coisas durante um período tão sombrio. Mas você pode fazê-lo e ainda assim admitir sua inquietação, diz a terapeuta Jenny Maenpaa, de Nova York.

“Você pode combater a positividade tóxica reconhecendo que diversas emoções complexas podem existir ao mesmo tempo dentro em você”, afirma Maenpaa. “Você pode ficar arrasado com as mortes causadas pela Covid-19 e aproveitar o conforto de casa durante a quarentena.”

A positividade tóxica também pode ser aplicada ao racismo sistêmico

A positividade tóxica também pode afetar a maneira como as pessoas enxergam e respondem os pedidos de justiça racial.

Quem fica defendendo a positividade tóxica pode ouvir uma histórias pessoal de racismo e fazer pouco do relato. Eles podem oferecer algumas platitudes sobre a necessidade de paz, amor e pensamento positivo. Eles certamente não querem insistir no negativo, como apontou recentemente no Instagram Jacquelyn Ogorchukwu Iyamah.

Eles podem dizer que focar em raça é um obstáculo ao nosso progresso e que “evitar toda e qualquer conversa sobre opressão é uma maneira mais gratificante e positiva de viver a vida”, explica Iyamah.

O mito: Evitar toda e qualquer conversa sobre opressão é uma maneira mais gratificante e positiva de viver a vida.

A realidade: Conversar sobre opressão pode ser positivo porque a justiça sempre teve a ver com amor.

É claro que os negros americanos e outras minorias sabem que a positividade sozinha não vai acabar com o racismo sistêmico.

“É problemático afirmar que os danos causados por essas realidades sociais só pode ser tratado no nível da psicologia individual”, diz McDermott.

O terapeuta usou o exemplo de uma mulher em um relacionamento abusivo para ilustrar o argumento.

“Uma mulher que sofre abuso doméstico não pode ser aconselhada a aprender ótimas ferramentas de psicologia positiva como uma maneira de gerenciar o abuso e permanecer numa situação de abuso”, afirma McDermott. “Ela deve ser aconselhada a tomar medidas para ter a segurança física e também a tomar medidas psicológicas para se recuperar do abuso.”

O mesmo princípio vale para o racismo. É preciso agir socialmente para corrigir injustiças sociais e desmantelar o supremacismo branco. Colocar o fardo nas costas de uma pessoa negra para “manter-se positivo” é um insulto à experiência de vida daquela pessoa e um exemplo de complacência branca.

“A ação psicológica sozinha nunca será suficiente nestes casos”, diz McDermott.

Então, agora que sabemos que forçar a positividade não é o caminho para enfrentar esses tempos difíceis, o que fazer? Veja o que dizem os especialistas:

1. Permita-se ter emoções negativas e positivas

Lembre que você é capaz de manter várias perspectivas sobre situações incertas ou preocupantes, mesmo quando está diretamente envolvido. Aproveite o lado positivo e o negativo. Seja realista.

“Seja grato pelo que você tem, mas também seja sincero e expresse o que está incomodando, como comemorações perdidas ou preocupações com o futuro por causa da pandemia”, afirma Monroe.

2. Analise mais profundamente sua ansiedade escrevendo um diário ou fazendo exercícios mentais

Existem estratégias para examinar nossas próprias ansiedades e administrá-las, diz Maenpaa. Técnicas de respiração profunda, juntamente com meditações guiadas que identificam e reconhecem o medo e geralmente são úteis.

“Outra estratégia é escrever um diário antes de dormir ou nos momentos em que você se sentir sobrecarregado, porque nosso cérebro pode conter muitos pensamentos de curto prazo ao mesmo tempo, caso precisemos deles a qualquer momento”, afirma ela.

“Isso significa que, quando pensamos em nossos medos ou ansiedades, nosso cérebro os codifica como importantes e os mantém em primeiro plano”, explica Maenpaa. “Ao anotar esses medos e ansiedades, mesmo que não possamos fazer nada a respeito deles, estamos dizendo ao nosso cérebro que não há problema em afastá-los, porque cuidaremos deles em algum momento.”

Quando Maenpaa está passando por situações desse tipo, ela usa o velho truque das comédias de improviso: “Sim e...?”

“Por exemplo: ‘sou muita grato por ter um teto e odeio o trabalho que me permite continuar tendo um abrigo’ ou ’Tenho medo do futuro e fico empolgada com a esperança de que as coisas mudem para melhor.”

“Quando nos permitimos ter várias verdades aparentemente conflitantes em nossas mentes ao mesmo tempo, eliminamos a tensão entre elas e damos espaço a todas as nossas emoções, positivas e negativas”, explica Maenpaa.

3. Depois de explorar o que está causando a ansiedade, faça um esforço extra para cuidar de si mesmo

A positividade tóxica não traz consigo conselhos práticos. É apenas um “aguente aí, uma hora as coisas vão melhorar!”

Algo que você pode fazer na prática para lidar com a incerteza? Simplesmente cuidar de si mesmo. Você está passando por muita coisa agora, e bajular-se um pouco não é má ideia.

“Isso significa prestar atenção à sua higiene do sono, exercitar-se regularmente, comer bem e manter uma rotina saudável de refeições, cuidar da hidratação e falar mais sobre suas preocupações com as pessoas queridas”, diz McDermott. “Você também pode criar hábitos mentais que lhe ajudem a dar sentido à dificuldade, seja através da religião, prática espiritual ou se abraçando causas maiores.”

Se você seguir esse conselho, estará se tornando agente. A positividade tóxica oferece apenas platitudes que soam bem, mas são vazias.

A positividade tóxica “quer que neguemos os sinais psicológicos de angústia que nos avisam para tomar cuidado”, diz McDermott. “Numa época como a atual, temos de cuidar de nós mesmos.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.