COMPORTAMENTO
19/10/2019 02:00 -03

Pare de dizer que alguém é 'bipolar' apenas porque seu humor muda

As pessoas costumam equiparar o transtorno a situações que qualquer um pode viver no cotidiano. Isso acaba por simplificar um problema muito sério.

akindo via Getty Images

Nos últimos anos, temas relacionados à saúde mental têm sido discutido mais abertamente, em especial os transtornos bipolar e a depressão. Algumas figuras públicas foram sinceras sobre sua experiência com a doença, como Demi Lovato, Mariah Carey, Russell Brand e Catherine Zeta-Jones. 

Isso é muito bom porque ajuda na conscientização do problema. O transtorno bipolar é uma das condições de saúde mental mais comuns, e muita gente convive com isso sem ao menos entender o seu diagnóstico. 

O transtorno bipolar, também chamado de transtorno maníaco-depressivo, leva a pessoa a ter altos e baixos em seu humor. Mas isso não quer dizer que a pessoa muda rapidamente de emoção ou de decisão. 

Chamar alguém de bipolar só porque ela mudou de ideia ou humor é errado e banaliza o problema. Entenda o motivo.

“Eu sinto falta do meu cabelo preto, eu sou tão bipolar.”

 

O que é o transtorno bipolar

Muitas pessoas acham que o transtorno bipolar é uma mudança rápida e intensa de emoções e comportamentos. Embora essa característica possa estar presente no distúrbio, a tal mudança geralmente ocorre mais lentamente e não é de uma hora para outra.

“Quando as pessoas pensam no transtorno bipolar, geralmente pensam no bipolar I”, disse Sophie Lazarus, professora assistente de psiquiatria e saúde comportamental na Faculdade de Medicina do Estado de Ohio. “Para um diagnóstico de bipolar I, um indivíduo deve experimentar um episódio maníaco”.

Um episódio maníaco é caracterizado por “um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e atividade ou energia anormal e persistentemente aumentada que duram pelo menos uma semana e presentes a maior parte do dia, quase todos os dias”, explicou Lazarus.

“A grande maioria dos indivíduos - cerca de 90% - também experimenta um episódio depressivo”, acrescentou.

Em um episódio maníaco, disse Lazarus, o paciente deve exibir três dos seguintes itens:

Auto-estima inflada
Necessidade reduzida de sono
Maior capacidade de conversação
Fuga de idéias
Distração muito fácil
Aumento da atividade ou movimentos agitados
Comportamentos de risco 

O principal sintoma do bipolar II é a depressão. Para serem diagnosticados, os pacientes devem ter um episódio depressivo ao longo da vida.

“Os hipomaníacos são episódios de humor semelhantes às manias, pois envolvem desinibição, euforia e comportamentos que são visivelmente diferentes dos comportamentos usuais de uma pessoa, mas não causam o acentuado comprometimento funcional observado em episódios maníacos completos”, explicou John Beyer, psiquiatra da Departamento de psiquiatria e ciências comportamentais do Duke University Medical Center.

Beyer acrescentou que os episódios depressivos “são 17 vezes mais prováveis ​​de ocorrer, em média” do que os episódios hipomaníacos no bipolar II.

Beyer disse que os sentimentos em um episódio maníaco são frequentemente descritos como “eufóricos”, “excessivamente alegres”, “altos” ou até “irritáveis”. As mudanças comportamentais incluem fala rápida, pensamentos confusos ou “maior busca por atividades de alto risco”.

Em um episódio depressivo, aqueles com transtorno bipolar relatam sentir-se “deprimidos” e podem experimentar “baixa energia, choro, falta de interesse na vida ou até pensamentos de morte”, segundo Beyer.

Em comparação, na nossa rotina é comum que a gente se sinta ora muito alegre, ora decepcionado. Acontece quando a gente perde um prazo importante no trabalho ou quando a gente briga com o nosso parceiro.

Se sentir triste faz parte da vida. Porém, os episódios maníacos ou depressivos geralmente duram semanas e prejudicam a vida diária de uma pessoa - pense como é viver sem conseguir sair da cama.

Os gatilhos para episódios de transtorno bipolar podem variar. Eles vão desde o estresse até a privação de sono, ou ainda o excesso de informações sensoriais ou situações que interrompam uma rotina. As pessoas geralmente começam a sentir os sintomas na idade adulta.

“A idade média de início dos transtornos bipolares I e II varia de 17 a 31, mas o distúrbio também pode ocorrer em adolescentes e crianças”, disse Lazarus. “Ao contrário da depressão, que é mais comum em mulheres, o transtorno bipolar afeta homens e mulheres igualmente.”

Também existem outros diferenciais para o transtorno bipolar, mesmo que haja sobreposição com outras condições de saúde mental.

“Os episódios depressivos estão presentes tanto no transtorno depressivo quanto no transtorno bipolar, e esses episódios geralmente se parecem”, disse Beyer. “No entanto, na depressão, a pessoa não tem episódios de mania.”

Beyer acrescentou que o transtorno bipolar também está associado à ansiedade - geralmente chamada de “transtorno bipolar com angústia ansiosa” - mas, diferentemente da crise de pânico ou da crise de ansiedade, a ansiedade no transtorno bipolar geralmente desaparece quando um episódio termina.

Beyer disse que cerca de 40% dos pacientes com transtorno bipolar podem em algum momento experimentar pensamentos psicóticos, como paranóia ou alucinações, durante um episódio.

“Isso não significa que eles tenham esquizofrenia”, disse ele. “Pacientes com esquizofrenia também podem ter problemas de humor, como depressão, mas os sintomas psicóticos persistirão após a resolução desses episódios. Em pacientes bipolares, os sintomas psicóticos ocorrerão apenas durante um episódio agudo.”

Se você ou alguém que você conhece estão apresentando sintomas de depressão, ansiedade, mania ou outros problemas de saúde mental, é importante visitar seu médico ou outro profissional de saúde mental para obter um diagnóstico preciso.

Como é o tratamento do transtorno bipolar

Existem muitas opções disponíveis de tratamento, mas em geral eles envolvem três elementos principais.

Primeiro, os medicamentos são o “padrão” em qualquer tratamento.

Estabilizadores de humor, anticonvulsivantes e antipsicóticos são extremamente benéficos para muitos pacientes, explicou Lazarus.

“Além de controlar episódios agudos, esses medicamentos também podem ajudar a prevenir episódios futuros ou minimizar sua intensidade e duração”, disse.

Recentemente, o estilo de vida também foi colocado como peça importante do tratamento. “Há um reconhecimento crescente de que fatores como sono, estresse e uso de substâncias afetam o distúrbio”, disse Lazarus

A terapia também ajuda os pacientes a gerenciar a condição.

“Os tratamentos mais estudados são de terapia cognitivo-comportamental”, disse.

Agora entendemos melhor as causas dos episódios bipolares e como o estresse da vida pode exacerbar os problemas; por causa disso e do tratamento, as pessoas podem aprender a gerenciar sua doença.John Beyer, psiquiatra

Lazarus também enfatizou a necessidade de os pacientes se tornarem mais instruídos sobre a própria condição.

“Esses tratamentos têm forte apoio à pesquisa e têm valor comprovado para acelerar a recuperação, reduzir os episódios, melhorar a adesão aos medicamentos, o funcionamento e a qualidade de vida”, disse ela.

A adesão ao tratamento é uma necessidade contínua de pacientes com transtorno bipolar. “90% das pessoas que têm um episódio terão pelo menos mais uma crise, ou várias, durante a vida”, disse Beyer. 

Dito isto, com o tratamento correto, as pessoas que vivem com transtorno bipolar têm uma boa qualidade de vida.

“Agora entendemos melhor as causas dos episódios bipolares e como o estresse na vida pode exacerbar os problemas; por causa disso e do tratamento, as pessoas podem aprender a controlar sua doença”, explicou Beyer.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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