COMPORTAMENTO
24/07/2019 07:42 -03 | Atualizado 24/07/2019 10:19 -03

A falácia que me contaram sobre a construção do autocuidado

Inicialmente, falar de autocuidado mudou a minha vida. Mas, de uns tempos para cá, eu percebi que tinha chegado ao meu limite nessa conversa.

Yulia Lisitsa via Getty Images
O rolinho massageador facial de quartzo rosa, usado para o cuidado com a pele, chega a custar R$99,00. 

Não é por mero acaso que o autocuidado se tornou uma das conversas mais populares na internet nos últimos anos. O mercado de wellness cresce a níveis frenéticos e, só no Instagram, a hashtag #selfcare tem mais de 17 milhões de posts (sem contar as diversas variáveis sobre o mesmo tema). Isso faz todo o sentido, já que convivemos com uma verdadeira epidemia de distúrbios provocados pelo estresse, como a ansiedade e a depressão.

Inicialmente, falar de autocuidado mudou a minha vida. Mas, de uns tempos para cá, eu percebi que tinha chegado ao meu limite nessa conversa.

Em todos os lugares em que circulava parecia sempre dar de cara com um novo app de meditação, uma nova máscara facial ou um novo cristal que eu simplesmente precisava para reequilibrar as minhas energias. E me parecia que se eu não montasse uma rotina impecável de autocuidado, eu seria a única responsável pela minha derrota cotidiana.

Foi aí que eu comecei a pensar o que, de fato, significava cuidar de mim.

Como a ideia da palavra ainda estava em uma zona cinzenta nas minhas percepções, fiz uma enquete para saber o que se passava na cabeça das pessoas quando pensavam no termo “autocuidado”.

Eis as respostas condensadas em três ideias:

“Tirar um tempo para cuidar da pele, do cabelo e do corpo.”
“Se colocar em primeiro lugar.”
“Ter a consciência de que precisamos fazer uma pausa.”

Ao refletir sobre elas, comecei a perceber que, na realidade, o que eu vinha praticando na minha rotina não necessariamente estava atrelado ao autocuidado que eu precisava.

Na realidade, as minhas escolhas estavam muito mais próximas da autoindulgência.

No dicionário informal da vida, ser autoindulgente é saber se perdoar. É ter paciência com os nossos erros e os nossos defeitos. E isso é lindo, não fosse a linha tênue que o hábito carrega também com a ideia de autocompensação, ou, em outras palavras, de passar pano para nós mesmos.

Não raro, eu me pego confundindo autocuidado com relaxantes e prazerosas (mas não tão saudáveis assim) indulgências que me afastam daquilo que eu realmente acredito me fazer bem.

Tive um dia difícil no trabalho... Por que não comprar uma pizza? Estou ansiosa com os boletos? Mas tá tudo bem, trabalho para isso mesmo, por que não me presentear com um vestidinho novo da Zara? Realmente não sei qual o passo seguinte da minha carreira? Mas quem se importa, não é preciso pensar muito sobre isso, afinal, basta “entregar e confiar no destino”.

São exemplos banais para retratar uma situação em que a autoindulgência pode se tornar tão perigosa quanto a autossabotagem.

Mas o fato é que a linha que separa a indulgência do cuidado é muito importante para simplesmente deixarmos assim, tão indefinida. Construir esse filtro perpassa, sobretudo, por um caminho não tão óbvio assim de que tudo está atrelado ao PORQUÊ das coisas.

Longe de mim querer ser fiscal das rotinas de skincare alheias. Só uma mulher com pele extremamente seca sabe a paz no coração de estar com a cútis confortável durante o inverno.

Mas, talvez, a chave entre o autocuidado e a autoindulgência seja mesmo o autoconhecimento. E é por isso que precisamos ter em mente que a autoindulgência é necessária em quantidades apropriadas.

Precisamos aceitar que não podemos estar “ligados” aos nossos problemas o tempo todo. Precisamos aceitar que há momentos em que a autoindulgência é a coisa tão certa a ser feita que ela se torna o autocuidado. Mas ela tem um limite, e, para mim, esse limite esbarra nos meus ganhos e impactos a longo prazo.

O autocuidado me deixa com uma sensação boa de que o que eu estou construindo ali está me fortalecendo, eu estou me enxergando, estou me entendendo.

Sim, pode ser praticar a meditação da moda ou fazer um ritual perfeito de hidratação do corpo. Mas também pode ser algo tão simples quanto manter a minha casa arrumada, me alimentar de maneira equilibrada e estar com os meus checkups médicos em dia. Ou ainda, algo tão necessário quanto silenciar um pouco as influencers good vibes do Instagram e procurar realmente fazer terapia com um profissional.

Nos espaços terapêuticos, por exemplo, a palavra autocuidado é historicamente usada para mostrar como os próprios pacientes podem se apropriar da sua saúde e da sua recuperação, seja se vestindo adequadamente ou pensando com mais profundidade sobre construir limites diante de relacionamentos tóxicos.

(Aqui, um parênteses bem importante. Para quem lida com a depressão, por exemplo, manter a rotina de higiene pessoal já é um autocuidado. Daqueles assim sem qualquer glamour, mas que colabora na construção da ideia de que todos merecemos ser seres humanos completos.)

Enquanto isso, a autoindulgência é muito boa no seu imediatismo. Melhora a autoestima, preenche um desejo ou simplesmente adia tarefas que eu considero chatas demais para realizar naquele momento. No entanto, as indulgências ainda se apresentam para mim combinadas com a sensação horrorosa de culpa. 

Dito tudo isso, se você, assim como eu, andou um pouco cansada da cultura construída no entorno do autocuidado, talvez você só esteja esmagada pelas imagens superpadronizadas que as redes criaram para nós do que seria olhar para nós mesmos, enquanto isso deveria ser um movimento individual.

E quando a gente compara o que realmente pode nos fazer bem com a versão apresentada pelas redes sociais, é muito mais fácil identificar as diferenças (e raramente elas custam mais dinheiro).

É por isso que me propus o desafio: tentar colocar em poucas palavras o que é o autocuidado para mim. Faça o mesmo.

Escreva no celular, no papel ou apenas pense sobre isso. A partir daí, tenha sempre essas palavrinhas como um norte de como você pode ser gentil consigo mesmo, mas sem abrir mão de quem você ainda quer se tornar.