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06/06/2020 01:08 -03 | Atualizado 06/06/2020 01:09 -03

O que americanos estão fazendo diante da violência racista além de dizer 'isso precisa acabar'

'Quando é questão de contestar a violência policial, o objetivo é ouvir pessoas negras, seguir seu exemplo e assumir responsabilidade pelo impacto do nosso comportamento.'

Vamos encarar a verdade: nos Estados Unidos a reação à violência policial contra a comunidade negra voltou à rotina após o assassinato de George Floyd. A indignação também é declarada na internet. A frase “Vidas Negras Importam” e o movimento #BlackoutTuesday inundaram as redes sociais também no Brasil, principalmente após as mortes de João Pedro e Miguel Otávio.

Não adianta muito ironizar os “ativistas de sofá” ou discutir o que significa ser um verdadeiro aliado da luta contra o racismo e suas manifestações. Postar conteúdos nas redes sociais provoca um debate, e isso é inegável.

Conscientizar seus amigos e familiares brancos de problemas que eles talvez desconheçam e compartilhar organizações antirracistas para as quais eles podem fazer contribuições é também necessário neste momento.

Mas para compartilhar o fardo desta luta e transformar a situação, pessoas brancas não podem ficar apenas nisso. A seguir, ativistas da comunidade negra e aliados compartilham como pessoas brancas podem e estão convertendo empatia em ação e marcando posição contra a brutalidade policial nos EUA.

Não é preciso ser um aliado perfeito para levantar a voz

O desejo de ser um aliado “perfeito” muitas vezes impede as pessoas de dizer o que pensam ou tomar alguma atitude. Às vezes ficamos calados, não querendo desagradar as pessoas ou ser vistos nas redes sociais como “politizados demais”. Esse silêncio faz parte da cultura da supremacia branca.

É bom lembrar que se manifestar contra violações dos direitos humanos é a atitude menos arriscada a se tomar para quem está preocupado em não parecer “politizado demais”.

Não deixe esse tipo de receio te impedir de participar. Mesmo que no passado você tenha hesitado em se envolver, agora, mais que nunca, é hora de tomar uma atitude em apoio às pessoas negras, indígenas e não brancas.

“Não existem aliados perfeitos”, disse Fizz Perkal, organizadora da filial em Albuquerque, nos Estados Unidos, da rede ativista Showing Up for Racial Justice (SURJ). “Quando é questão de contestar a violência policial, o objetivo é ouvir pessoas negras, seguir seu exemplo e assumir responsabilidade pelo impacto que nosso comportamento tem sobre elas.”

O começo pode ser observar o que organizações negras estão fazendo e seguir o exemplo delas. “Preste contas a elas e descubra como apoiar o trabalho delas.”

A entidade com a qual ela trabalha, Showing Up for Racial Justice, é um exemplo perfeito disso: é uma ONG que trabalha para aumentar a participação de pessoas e comunidades brancas em movimentos multirraciais e antirracistas por justiça.

“Apoiar essas entidades pode ser participar de um protesto do movimento Black Lives Matters, ou pode ser ficar na periferia dos protestos, criando uma barreira física entre manifestantes negros e a polícia”, diz.

No Brasil, algumas ONGs e organizações realizam trabalho semelhante. Entre elas, Criola, Uneafro, Movimento Negro Unificado, Coalizão Negra por Direitos, ID-BR, Anistia Internacional, Human Rights Watch.

KEREM YUCEL via Getty Images
Um homem ergue cartaz pedindo “Parem de Matar Pessoas Negras”. 26 de maio de 2020, perto do local onde policiais de Minneapolis mataram George Floyd. 

Ao ver um ato de brutalidade policial acontecendo, fale alguma coisa, sem se colocar em risco

Faça algumas perguntas hipotéticas e incômodas: o que você faria se estivesse caminhando em Staten Island e tivesse visto um policial estrangulando Eric Garner? O que você teria feito se tivesse testemunhado um policial posicionar seu joelho sobre o pescoço de George Floyd e fazer pressão? Você teria seguido adiante, de carro ou a pé, nervoso mas sem fazer nada, ou teria erguido a voz para defender a pessoa sendo oprimida? 

“As pessoas precisam deixar de ser meras espectadoras quando testemunham uma injustiça”, disse o ativista e escritor Frederick Joseph. “Por exemplo, se uma pessoa está sendo parada e revistada pela polícia, você tem o direito de dizer aos policiais que vai acompanhar a situação e certificar-se que a pessoa está sendo tratada corretamente.”

“Sua presença ali, responsabilizando os policiais pelo que estão fazendo, pode representar a diferença entre vida e morte”, ele acrescenta.

Informe-se por conta própria, sem esperar que pessoas negras sejam suas professoras

Como é o caso com qualquer movimento de direitos civis, não espere que os oprimidos se encarreguem de todo o trabalho de te educar, explicando a você como o sistema está falido e o que você pode fazer para mudar essa situação.

Use o Google. Dê uma folga a seu amigo negro. Quando seu amigo comenta que fica desanimado diante de um incidente após outro de brutalidade policial, em vez de dizer “o que a gente deve fazer?”, procure as respostas, você mesmo. Leia livros, ouça podcasts e palestras do TED, siga ativistas no Twitter. Como criadores negros já disponibilizaram uma abundância de materiais, não é preciso onerar os negros em sua vida, obrigando-os a te educar.

Agarre sua coragem com as duas mãos e lance a cautela ao vento, porque quando aliados são cautelosos, isso não beneficia a ninguém.Minda Harts, escritora e pesquisadora

“Não é justo esperar que afroamericanos façam o papel de professores e passem lição de casa para os aliados”, diz Minda Harts, autora de “The Memo: What Women of Color Need To Know To Secure A Seat At The Table” (“O memorando: O que as mulheres negras precisam saber para garantir um assento à mesa”)

“Se determinados grupos quiserem aprender, que comecem a aprender. Uma vez que tenhamos visto que eles já deram alguns passos iniciais básicos, eu, pessoalmente, gosto de me engajar com eles. Mas não posso fazer todo o trabalho eu mesma: vocês precisam fazer sua parte. Se você quer aprender a ser antirracista, comece com os materiais que estão disponíveis.”

Se você é branco ou goza dos privilégios brancos, dê uma olhada nesta lista de materiais de antirracismo para brancos que está circulando nas redes sociais. 

Discuta com pessoas racistas que você conhece. E discuta também com seus amigos não negros que guardam silêncio sobre o racismo

Não basta você silenciar seu tio no Facebook quando ele posta alguma coisa racista. Critique-o, peça que ele se explique. E aproveite para fazer o mesmo com seus amigos progressistas que amam a cultura negra, mas se calam quando crimes são cometidos contra pessoas negras.

Pergunte a eles o porquê disso. Lembre a eles que somos todos humanos. Desafie-os a explicitar narrativas racistas. Inclua-os nesta luta. Para começar, você poderia lhes mostrar este vídeo com a educadora antirracista Jane Elliott. No vídeo, ela faz uma pergunta muito simples a uma plateia composta principalmente por brancos: você gostaria de ser tratado como um negro na América? (Ninguém na sala se levanta quando a pergunta é colocada.)

“Isso revela muito claramente que vocês sabem o que está acontecendo”, fala Elliott. “Vocês sabem que não desejo isso para vocês. Mas quero saber por que vocês se dispõem a aceitar ou permitir que aconteça com outras pessoas.”

Ligue para autoridades públicas locais. Compareça a reuniões na Prefeitura e na Câmara de Vereadores

Há coisas que você pode fazer imediatamente após incidentes de brutalidade policial, como assinar petições, mandar mensagens ou fazer telefonemas para pressionar os promotores públicos locais para que levem à justiça os policiais envolvidos em violência.

Mas não fique inativo depois que os incidentes deixarem de ser notícia. Escreva artigos de opinião. Compartilhe links. Leve sua insatisfação e suas preocupações para reuniões na Prefeitura e na Câmara Municipal, sugere Harts, quando uma notícia deixou de ser destaque dos jornais.

“Você pode ir à delegacia de polícia e comunicar ao chefe de polícia que está indignado com o tratamento dado a pessoas negras”, ela prossegue. “Eu adoraria ver nossos aliados entrarem em ação. Não aguento mais aliados que não são ativos. Agarre sua coragem com as duas mãos e lance sua cautela ao vento, porque quando aliados são cautelosos, isso não beneficia a ninguém.”

Se você se sente inseguro em erguer sua voz sozinho, engaje-se com entidades como a Showing Up for Racial Justice ou os outros que citamos acima.

MediaNews Group/Pasadena Star-News via Getty Images via Getty Images
Manifestante protesta contra a morte de George Floyd. Los Angeles, 28 de maio de 2020.

Preste muita atenção ao funcionamento do departamento de polícia de sua cidade

Cobre a responsabilidade policial. Os policiais da sua cidade participam de treinamentos de atenuação da violência? Exija uma força policial que é digna da confiança da comunidade.

Se a corrupção e violência correm soltas na polícia de sua cidade, fale sobre quando você souber que ela está recebendo mais recursos que normal, verbas essas que poderiam ser redistribuídas para programas que constroem comunidades mais fortes, mais sadias, mais seguras.

Como o site The Appeal já noticiou, esse tipo de abordagem de desinvestimento/reinvestimento vem ganhando espaço em cidades de todos os Estados Unidos, entre jovens e organizações de base.

Em 2012 a Youth Justice Coalition, de Los Angeles, criou uma campanha intitulada “LA for Youth” (Los Angeles para os jovens) para exigir que as autoridades municipais redirecionassem US$ 100 milhões (cerca de 1% do orçamento da polícia) para programas para jovens.

Vote com a consciência. Se o diretor da promotoria pública em sua cidade não estiver fazendo nada, vote contra ele, para que perca seu cargo.

“As pessoas brancas precisam eleger líderes que se comprometam com uma visão que valoriza as pessoas, mais que o policiamento”, disse a escritora e ativista Charlene A. Carruthers.

“Sofrer desconforto, desaprender ideias que você antes tinha como certas, doar seu tempo e dinheiro – as pessoas brancas que querem participar da luta precisam fazer tudo isso.”

Leve a luta para seu local de trabalho

Quer saber de outra coisa que você pode fazer quando as manchetes sumirem? Se você se beneficia dos privilégios dados a brancos, aproveite-os para se manifestar publicamente em apoio a pessoas negras em seu local de trabalho. Se você observar que pessoas qualificadas não brancas estão sendo deixadas de lado em promoções para cargos superiores, leve o problema para a direção da empresa ou para o RH.

“Questione as pessoas em cargos de direção. Cobre a responsabilidade das pessoas e dos sistemas para que criem ambientes de trabalho mais equitativos”, disse Joseph. “Pergunte à direção de sua empresa por que não há mais pessoas negras na empresa ou por que não há negros em cargos de liderança.”

Proponha soluções também. Se há poucas pessoas negras em seu trabalho, incentive os gerentes da empresa a buscar candidatos potenciais em faculdades e universidades historicamente negras.

Ouça mais, fale menos. Quando seus amigos negros lhe dão feedback construtivo, aceite-o com boa vontade. 

Você não será um aliado perfeito. Talvez você fale algo equivocado. Talvez você queira falar mais alto que vozes marginalizadas, talvez tente contar histórias que não te pertencem, quando na realidade deveria estar passando o microfone para outra pessoa. Talvez você faça silêncio num momento em que seu apoio é crucial. Se uma pessoa negra lhe der feedback crítico sobre qualquer coisa desse tipo, afirmou Perkal, encare isso como algo positivo, não como um castigo.

“Se alguém, especialmente uma pessoa negra, indígena ou não branca, lhe disser como uma atitude ou palavra sua a prejudicou ou impactou, encare isso como uma dádiva”, disse Perkal.

“É uma chance de refletir sobre como nós carregamos a supremacia branca em nossos corpos e nossos atos e de poder fazer melhor da próxima vez. Responsabilize-se pelo modo como você, conscientemente ou não, leva a supremacia branca para os espaços de ativismo. Aumente sua resiliência para poder se beneficiar ao máximo dos feedbacks críticos.”

A beleza do antirracismo é que você não precisa ser livre de racismo para ser antirracista. Antirracismo é você se comprometer a combater o racismo onde quer que o encontre, incluindo em você mesmo. E é o único caminho para avançarmos.

Não pense que você está liberado de qualquer responsabilidade pelo fato de também fazer parte de uma minoria

O fato de um dos outros policiais que ficou parado assistindo enquanto Derek Chauvin apertava o joelho sobre o pescoço de George Floyd ser de origem asiática desencadeou uma discussão acirrada na comunidade asiático-americana.

As perguntas que estão sendo colocadas no Twitter e em outros fóruns são relevantes a todas as comunidades minoritárias: você abre a boca quando alguém de sua comunidade expressa sentimentos “antinegros”? Você compete na “Olimpíada da opressão”?

Sim, o preconceito enfrentado por muitos grupos minoritários é inaceitável, mas nenhum outro grupo na América enfrenta a mesma discriminação múltipla que a comunidade negra. Como você se beneficia de sua proximidade com a comunidade branca?

Não se trata de um simples problema do tipo “caras pessoas brancas”: é igualmente importante que asiáticos, latinos, indígenas americanos e outros se manifestem contra o racismo fenomenal direcionado contra americanos negros, diz Michelle Kim, CEO da Awaken, empresa que promove workshops sobre diversidade e inclusão em locais de trabalho. Kim também escreveu um ótimo artigo no Medium sobre maneiras como asiático-americanos podem apoiar seus pares negros.

“Em nossa luta pela sobrevivência, alguns de nós talvez tenhamos feito força para ficar mais parecidos com os brancos – tão bem-sucedidos quanto brancos, tão enquadrados no contexto, tão assimilados quanto os brancos, tão merecedores de dignidade e respeito quanto são as pessoas brancas”, ela disse. “E ao longo desse caminho, consciente ou subconscientemente, podemos ter adotado o discurso e as crenças da supremacia branca ou da antinegritude.”

Se você é asiático e diz que “não reconhece” aquele tira asiático, é melhor desdizer. Você VAI reconhecê-lo. Você vai reconhecer que a comunidade asiática também está cheia de racismo intenso. Distanciar-se daquele policial não ajuda em nada, você só está se colocando numa máquina de abraços.

Doe para entidades que combatem o racismo.

Traduza seu discurso em atos, doando para entidades antirracistas como Plano de Menina, Criola, Uneafro, Movimento Negro Unificado, Geledés, Coalizão Negra por Direitos, ID_BR, Anistia Internacional, Human Rights Watch.

Cheque seus próprios comportamentos de patrulhamento de pessoas negras em seu cotidiano

Conscientize-se de seus próprios vieses implícitos. Como disse Padma Lakshmi, “o racismo é um espectro que abrange graus diversos de comportamentos inconscientes e aprendidos que são reforçados diariamente pela sociedade. Não é um caso de ‘ou você é racista ou não é’. É o grau em que você tem preconceito, contra quem e por quê.”

Se ser antirracista é um projeto em andamento, sua primeira lição de casa é questionar seus próprios comportamentos e seu próprio sistema de crenças. Para isso, cada um de nós precisa refletir sobre como talvez ande patrulhando pessoas negras em nosso cotidiano.

“Estudos revelam que as pessoas negras são excessivamente fiscalizadas no trabalho e em lojas, que são punidas com frequência e severidade desproporcional nas escolas e que as pessoas não acreditam delas quando falam do mal que sofrem (enquanto acreditam em mulheres brancas que fazem acusações falsas contra elas)”, diz Lakshmi.

“Antes de fazermos qualquer progresso, teremos que reconhecer que somos cúmplices do policiamento das pessoas negras em nossa sociedade”, conclui. “Precisamos examinar nosso próprio comportamento primeiro.”

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.