O primeiro ano da quarentena é o mais difícil?

É importante seguir atento para a saúde física e mental pois tudo indica que completaremos pelo menos um ano vivendo com algum tipo isolamento social.

Quando o isolamento social começou em março de 2020 (sim, foi neste ano, embora pareça que tenha sido há muito mais tempo) algumas pessoas acreditavam que tudo passaria em questão de poucos meses, os mais otimistas pensavam em poucas semanas.

Chegamos em setembro e uma das perguntas que não querem calar é: quando isso vai passar? Quando a quarentena vai terminar? Quando vai chegar a vacina? A angústia e a ansiedade tomam conta de milhões de mentes e lares que seguem confinados em suas casas.

Pior ainda para quem tem de sair de casa para trabalhar todos os dias sem outra escolha e assim, além de tudo, tem de lidar com o medo e a desconfiança permanente.

Apesar de a população brasileira estar afrouxando cada vez mais esse isolamento — milhares lotaram praias no Rio, São Paulo e Nordeste no feriado de 7 de Setembro, para muita gente, sobretudo quem é de grupo de risco ou divide casa com alguém de grupo de risco, voltar à “normalidade” não é opção.

Infelizmente, respostas certeiras para as perguntas sobre um horizonte para o fim deste cenário distópico ainda não existem.

“O coronavírus é um vírus novo que veio para ficar, ele não vai embora. O que nós vamos encontrar são formas de amenizar a propagação e o impacto dele”, explica o sociólogo Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação do Instituto de Estudos Avançados da USP e coordenador da Rede de Pesquisa Solidária, um grupo de cientistas que voluntariamente trabalha para estudar políticas de combate à pandemia.

“Claro que a ciência e a medicina procuram formas de controlar o vírus, para evitar que ele continue com o grau de letalidade que tem apresentado - e o grau de rapidez que ele tem se propagado”, completa.

Quando questionado se vamos precisar de muito mais tempo de algum tipo de isolamento social, o professor é categórico em dizer que “a gente vai ficar em casa até ter uma forma mais eficiente de controlar o vírus e a sua propagação e mesmo de impedir que ele seja tão mortal quanto ele está se mostrando”. Arbix ainda lembra que países que supostamente controlaram o vírus acabaram sofrendo uma nova onda de casos da doença que acabou obrigando as autoridades a tomarem novas medidas de isolamento, como a Nova Zelândia, Cingapura, Áustria, Alemanha e Espanha.

Países que passam por uma nova onda de casos de covid-19 voltaram às medidas de isolamento social.
Países que passam por uma nova onda de casos de covid-19 voltaram às medidas de isolamento social.

O professor e neurocientista Miguel Nicolelis, um dos coordenadores do Projeto Mandacaru, plataforma de cientistas que dão suporte ao Comitê Científico de Combate ao Coronavírus no Nordeste, ressalta que no Brasil nós não fizemos nenhum tipo de lockdown nacional, nem local, com raríssimas exceções. Com isso, houve uma grande propagação da covid-19.

“Nós tivemos este isolamento social à brasileira de 6 meses que vai ter de continuar. Nós não fizemos nada direito aqui no Brasil apesar de sabermos o que era para ser feito.” Ele dá o exemplo do estado de São Paulo, que segue com um número alto de mortes por covid-19 “porque nunca fechou direito, nunca fez um lockdown, nunca fechou as estradas e nunca permitiu que se fosse feito o manejo correto pois outros fatores sempre interferiram”.

Até o dia 31 de maio o estado tinha registrado 7.615 mortos. Só no mês de junho foram registrados 7.148 mortes; em julho 8.234 novas mortes; em agosto mais 7.017 vidas perdidas. Em todo o estado, são mais de 31 mil mortos. Os dados são do Conselho Nacional das Secretarias de Saúde.

“Criou-se a mitologia que se podia abrir, que estávamos funcionando, e agora estamos criando a mitologia de que a vacina vai salvar a todos sendo que a gente nem tem a vacina.”

- Miguel Nicolelis, professor e neurocientista

“O tempo médio para uma vacina ser trazida para a população em geral é de 10 anos. A vacina mais rápida que nós conhecemos foi [produzida] por volta de 4 anos. Nós estamos com menos de um ano e ninguém sabe o que pode acontecer. Tem muitas variáveis que ainda não foram testadas e existem várias questões sobre se as vacinas vão ser seguras ou eficazes”, alerta Nicolelis.

Mesmo com a aprovação e a vacinação da população, não será recomendável sair completamente do estado de isolamento social como a vida era antes da pandemia, pois vai ser preciso entender o comportamento do vírus.

A espera pela vacina contra o novo coronavírus pode frustrar as pessoas, pois o desenvolvimento de imunizantes dura em média 10 anos, segundo especialista.
A espera pela vacina contra o novo coronavírus pode frustrar as pessoas, pois o desenvolvimento de imunizantes dura em média 10 anos, segundo especialista.

“A gente não sabe se vai precisar de uma dose, duas doses, se a gente fica imune pela vida inteira, se vamos precisar tomar de vez em quando”, acrescenta Arbix. “[A resposta da vacina] Vai estar muito ligada à capacidade que ela efetivamente tem de gerar um sistema imunológico que seja impenetrável. Diante dessa ausência a gente tem que trabalhar com isolamento, máscara, um sistema pesado de testagem permanente.”

Ou seja, eu, você, sua família, seus amigos, todos nós vamos precisar ter muita paciência se quisermos seguir bem e imunes ao vírus. Recentemente, um tuíte com mais de 90 mil curtidas e 16 mil retuítes resumiu: “o primeiro ano da quarentena é o mais difícil”.

Será que faz sentido? O professor Miguel Nicolelis não sabe se vamos precisar de mais de um ano de isolamento social. “Não tenho condição de fazer uma previsão confiável, é muito tempo no futuro.” Porém, ele confirma que vamos precisar ficar pelo menos este ano inteiro isolados.

“Posso te dizer quase com certeza absoluta que até o final do ano eu pelo menos sinto que não vou conseguir sair de casa. Eu tenho uma mãe no grupo de risco e se ela me perguntar quando vai poder sair de casa eu digo ‘mãe, não antes de março do ano que vem’. É isso que eu diria, com tranquilidade total.”

De acordo com o neurocientista, estudos apontam que o Brasil deve passar o número de 200 mil mortos até novembro deste ano. “É assustador porque, se isso continuar, a gente do Brasil passar os EUA é bem real”, afirma.

Nicolelis também lembra que o Brasil não soube aproveitar da estrutura do SUS nesse ranking infeliz de países com mais mortos pela doença. “Infelizmente nós não tiramos vantagem e proveito da nossa vantagem inicial [sistema público de saúde]. Isso é outra prova de como essa pandemia foi mal gerenciada no Brasil. Nós tivemos dois meses para nos preparar e nós fizemos foi nada do ponto de vista do governo federal, pelo contrário.”

Ficar em casa ainda é a melhor solução, mas os transtornos psíquicos e sociais já são uma realidade

O mais prudente é ficarmos em casa e mantermos algum tipo de isolamento social significativo até março de 2021. Isso significa sair apenas para o necessário (mesmo que no seu caso seja trabalhar e usar o transporte público). Sem ver amigos, parentes, colegas, evitando ao máximo se aglomerar com todas as medidas necessárias. Naturalmente isso não incluiria viagens nos feriados ou passear na praia, como milhares de brasileiros dizeram no feriado.

A ceia de Natal não deverá ser um grande encontro com seus parentes. O Réveillon não será como aquelas grandes festas com multidão — tanto que eventos da virada na Avenida Paulista e na Praia de Copacabana estão oficialmente cancelados. A maior parte das festas de aniversário nos próximos 6 meses se resumirá a reuniões virtuais. Você se considera uma pessoa preparada para isso?

“Se eu fico em casa eu vou ter um tipo de sofrimento psíquico”, reflete o professor Glauco Arbix. Ele afirma que a Rede de Pesquisa Solidária da USP vem estudando o impacto do isolamento social desde o começo da pandemia no Brasil e como as sequelas na saúde mental já podem ser consideradas um sério problema social.

“Nós já ouvimos pessoas falando ‘perdi a vontade de procurar emprego’, ‘de viver’, ‘estou sem esperança’. Isso acabou gerando uma situação muito difícil que perdura, é muito presente em todas as faixas da população.”

- Glauco Arbix, professor e sociólogo

Ele destaca que os jovens são a faixa da população que mais sofre. “A meninada de 18, 19 anos, no auge do vigor da juventude, não consegue ficar em casa o dia inteiro trancada no quarto com o pai e a mãe em casa, com uma série de obstáculos.” E quando o cenário que se desenha é de pessoas mais pobres, que vivem em situação precária, a coisa complica ainda mais.

“Há aqueles que não conseguem ficar em casa pois vivem em uma casa de um cômodo, dois cômodos com oito pessoas lá dentro, com idosos e mais jovens. Ficar em casa às vezes é um tormento pois a pessoa às vezes tem que enfrentar uma pessoa explosiva, que não tolera uma orientação diferente, por exemplo. É uma situação muito difícil”, pontua Arbix.

Problemas de convivência entre quem divide a casa comprometem a saúde mental durante a quarentena.
Problemas de convivência entre quem divide a casa comprometem a saúde mental durante a quarentena.

O professor Miguel Nicolelis mostra muita preocupação com a questão da saúde mental dos brasileiros com tanto tempo de isolamento social. “Os distúrbios mentais são tão incapacitantes ou mais do que qualquer outra doença que a gente conhece no resto do corpo. Essas sequelas psiquiátricas vão causar um efeito a longo prazo muito grande e é algo que não está no radar”, prevê.

Ele, que está lançando no Brasil seu livro O verdadeiro criador de tudo: Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos, encontra nos estudos da neurociência relação com o que estamos vivendo agora com a pandemia. Como o tipo de vida que temos atualmente está contribuindo para uma série de modificações no nosso cérebro e na forma como vivemos.

“O cérebro está sendo esculpido pela nossa imersão digital, pela nossa falta de vida social. Tudo isso está gerando modificações na configuração do cérebro e na forma como a gente age. A pandemia agrava isso pois primeiro ela cria todo esse medo coletivo, esse pânico, força as pessoas a se isolarem. Eu estou em casa há quase seis meses, numa situação de extrema tensão”, detalha. Ele explica que isso também atinge quem não pode se isolar e quem já foi infectado pelo vírus.

“Mesmo as pessoas que não podem ficar em casa por uma série de razões passam a viver numa tensão completa de pegar ou não o vírus. Isso tudo está contribuindo para um aumento de distúrbios emocionais e psíquicos e também existe a complicação extra. As pessoas que tiveram o vírus e se recuperaram têm um alto grau de sintoma psiquiátrico como ansiedade, pânico, depressão, estresse pós-traumático. Tudo isso mostra um acréscimo dos distúrbios psiquiátricos e uma queda na saúde mental.”

O livro, que terminou de ser escrito em 2018, bem antes da pandemia do coronavírus, aponta como o uso indiscriminado de mídias digitais pode aumentar a ansiedade e a dificuldade de relacionamentos sociais offline. “E, com a pandemia, nós aumentamos drasticamente o uso das mídias digitais para nos comunicarmos e nos mantermos em contato. Essa simulação que eu previ no meu livro está acontecendo em massa no mundo inteiro”, conclui.