OPINIÃO
29/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 29/03/2020 03:00 -03

O capitalismo selvagem nunca foi tão literal quanto em 'O Poço'

Produção espanhola da Netflix é o típico caso de filme certo na hora certa ao traduzir o sentimento de horror que o mundo vive hoje.

De uns anos para cá, a Netflix vem divulgando muito o cinema espanhol. Uma breve pesquisa em seu catálogo logo revela uma quantidade significativa de produções daquele país. Em sua grande maioria, filmes de terror, suspense e policiais.

Isso mostra que a escolha da gigante das plataformas de streaming não é por acaso. A produção cinematográfica da Espanha é muito mais identificada com o cinema de gênero do que com os filmes mais “autorais”, como, por exemplo, os de Pedro Almodóvar, de longe o cineasta espanhol mais famoso do mundo.

Nomes como Jaume Balagueró (REC, Enquanto Você Dorme), Oriol Paulo (O Corpo, Um Contratempo, Durante a Tormenta) e Raúl Arévalo (Pecados Antigos, Longas Sombras) podem não ser tão conhecidos do público em geral, mas seus filmes são bem populares. Não apenas em sua terra natal. E graças à Netflix, o nome de Galder Gaztelu-Urrutia tem tudo para entrar nessa lista.

Isso porque o filme de estreia do cineasta basco está causando um grande alarde na plataforma. Claramente inspirado no cult Cubo (1997), do italiano Vincenzo Natali, o terror/sci-fi gore O Poço não sai da lista dos Top 10 da Netflix. 

Mas por quê?

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Os atores Ivan Massagué e Zorion Eguileor em cena de "O Poço".

Claro que o gênero horror - que vem ganhando cada vez mais adeptos ultimamente - possui uma fiel base de fãs que, por si só, já garante uma boa exposição. Além disso, jogam a favor de O Poço sua história extremamente simples e direta, e, principalmente, o fato de que o filme capta com precisão o acirramento das tensões entre classes sociais que outras produções como Parasita (o grande vencedor do Oscar 2020) já representaram tão bem. É o capitalismo selvagem em sua forma mais literal.

No entanto, o filme de Gaztelu-Urrutia conseguiu algo a mais. O ambiente claustrofóbico e extremamente opressor da trama traz consigo uma imensa identificação com esse período da pandemia do coronavírus. É o clássico caso do filme certo na hora certa.

Tanto que O Poço não é uma produção que tipicamente sai muito de seu nicho. É um filme de terror com muito gore, ou seja, sanguinolento e que abusa de momentos que causam asco no espectador. Mas sua história, mesmo que fantástica, se encaixa tão bem ao momento atual que vem ganhando cada vez mais público no boca a boca mesmo.

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Alexandra Masangkay é Miharu, uma mãe desesperada por encontrar seu filho no poço, e que vai fazer absolutamente tudo para alcançar seu objetivo.

Na trama, Goreng (Ivan Massagué) acorda em uma cela com um estanho chamado Trimagasi (Zorion Eguileor). O lugar é um tipo de prisão vertical que ninguém sabe ao certo quantos andares possui. No centro de todas as celas há um buraco. Por ele passa uma plataforma que para em cada um desses andares por um tempo determinado trazendo a única refeição do dia.

Quem está no primeiro andar tem um verdadeiro banquete a sua disposição, mas a comida vai minguando enquanto vai descendo, até que nas celas inferiores não recebam mais nenhuma comida, obrigando as pessoas a comer seus companheiros de cela para sobreviver.

Não é lá a melhor pedida para pessoas de estômago mais sensível e quem quer ver algo bem leve para desopilar nessa quarentena, mas O Poço se destaca por não ser apenas um filme de terror com bastante sangue e entranhas. Ele é alegoria do que nós mesmo estamos presenciando em tempos de pandemia: que o ser humano é capaz de fazer coisas mais vis para salvar sua pele, mas que também há, sim, esperança mesmo quando se está no inferno.