ENTRETENIMENTO
23/07/2020 09:35 -03 | Atualizado 23/07/2020 09:35 -03

Depravado? Sádico? Não me importo com a opinião das pessoas, diz o diretor de 'O Pássaro Pintado'

Em papo exclusivo com o HuffPost, Václav Marhoul fala sobre seu polêmico filme, que estreia em streaming no Brasil nesta quinta (23).

Quando foi exibido pela primeira vez, na competição da última edição do Festival de Veneza, em agosto de 2019, O Pássaro Pintado causou alvoroço. Ser o centro das atenções em meio às polêmicas de Coringa (que acabou sendo o grande vencedor) e da possibilidade de se premiar o cancelado Roman Polanski é para poucos.

Motivos não faltavam, pois o filme de Václav Marhoul é baseado em um livro cercado de controvérsias. Quando foi lançado, em 1965, O Pássaro Pintado, um estrondoso sucesso de crítica e vendas, era “vendido” por seu autor, o polonês naturalizado americano Jerzy Kosiński, como autobiográfico, baseado em sua experiência real quando criança na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, com o passar dos anos, o autor, que acumulava acusações de plágio, foi desmascarado e caiu em desgraça nos círculos literários americanos. Algo que o afetou tanto que ele acabou tirando a própria vida em 1991, aos 57 anos. Fora o fato de O Pássaro Pintado ter se transformado em um livro “maldito”, a própria história em si já é recheada de tabus.

Nela, um menino judeu (Petr Kotlár) é mandado para a casa de uma tia no interior de um país do leste europeu não identificado para fugir dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e acaba vagando pela floresta depois que a mulher morre subitamente.

Narrada por meio de pequenos encontros do garoto em sua jornada para encontrar seus pais, a história de O Pássaro Pintado funciona como um tratado sobre a maldade humana. Todo tipo de atrocidade acontece na tela. Violência extrema contra pessoas e animais, abuso sexual, incesto, bestialidade... Tudo o que há de mais vil acontece com o menino, que muito raramente encontra alguma alma boa que o acolha.

Divulgação
O menino Petr Kotlár em cena de "O Pássaro Pintado".

Mesmo concordando que a trama de O Pássaro Pintado é dolorosa demais para algumas pessoas, Marhoul discorda de algumas críticas que recebeu em Veneza, acusando seu filme de ser depravado e sádico.

”Problema deles. Isso é o que eles acham e eu não me importo nem um pouco com isso. O Pássaro Pintado é uma história atemporal sobre os problemas que encaramos todos os dias em nossas vidas. A luz só é visível na escuridão”, desabafa o diretor em uma conversa exclusiva com o HuffPost.

Realmente, não há crítica que possa abater Marhoul, pois certamente não há ninguém mais apaixonado pelo livro de Kosiński do que ele, que levou praticamente 11 anos para concluir o projeto de seus sonhos.

“Fui a primeira pessoa a conseguir os direitos de filmagem por amar tanto esse livro, compreendê-lo e ser comprometimento com sua mensagem”, explica Marhoul, que reclama: “Coringa é um filme muito mais violento que o meu. Ele é muito mais explícito em relação à violência. Mas é um filme de fantasia. De super-herói. O meu trata de realidade”.

O Pássaro Pintado estreia no Cinema Virtual, uma plataforma de streaming desenvolvida em parceria com redes de salas cinemas que lançam filmes inéditos em meio à pandemia do coronavírus, nesta quinta (23). 

Para comprar seu ingresso, que custa R$ 24,90, entre no site do Cinema Virtual. O filme fica disponível para você assistir em casa por 72 horas (3 dias).

Veja aqui como foi o nosso papo completo com o cineasta Václav Marhoul:

Divulgação
O cineasta theco Václav Marhoul durante as filmagens de "O Pássaro Pintado".

HuffPost Brasil: Por que você quis filmar um livro tão controverso como O Pássaro Pintado? Foram 11 anos para concluir esse projeto, não?

Václav Marhoul: Sim. Quase 11 anos. Os dois primeiros anos foram só para conseguir os direitos para filmar o livro, três anos trabalhando no roteiro, escrevi 17 versões, quatro anos vivendo um verdadeiro pesadelo para financiá-lo, um ano e meio só para acertar a fotografia e o resto na filmagem e pós-produção. Mas acho que foi por amar tanto esse livro e ter esse nível de comprometimento que eu fui a primeira pessoa a conseguir os direitos de filmagem. 

Quando eu fui à Chicago para uma reunião no Spertus Institute (que detém os direitos autorais de todos os livros de Jerzy Kosiński), eles me fizeram a mesma pergunta que você acabou de fazer e eu respondi: ‘Essa história é sobre as três coisas mais importantes na vida: bondade, humor e esperança’. Eles ficaram chocados, porque para muitas pessoas é apenas uma história sobre brutalidade, mas não para mim.

Esse livro mostra exatamente o quanto essas três coisas são importantes, porque ele conta uma história em que essas três coisas estão faltando. A luz só é visível na escuridão. Para mim, O Pássaro Pintado não é um drama de guerra ou um filme sobre o holocausto. É uma história atemporal em que o garoto é um símbolo da raça humana, de todos os problemas que encaramos todos os dias em nossas vidas.

Além disso, esse livro me fez tantas perguntas... E eu tento achar as respostas a todas essas perguntas há anos. Por isso, desde que o li, eu quis transportar esse filme para a tela. 

Compreendo os seus motivos, mas ao assistir O Pássaro Pintado a impressão que fica é que o ser humano é inerentemente mal. Você concorda com isso?

Sim, com certeza. Porque essa é a mais pura verdade. Me preparei muito na fase pouco antes de iniciar as filmagens. Li muito histórias similares à de O Pássaro Pintado, pois o que acontece no livro acontece a muitas pessoas na vida real. Um amigo meu, Ben Barenholtz, um produtor americano que produziu os filmes de estreia de David Lynch e dos irmãos Coen, quando era um garoto na Bielorrússia [hoje Belarus], viu praticamente todos os moradores de seu vilarejo serem assassinados pelo exército alemão. E ele vagou pela floresta para salvar sua vida. Ele era apenas um menino. Isso aconteceu com milhares de crianças durante a guerra. Mesmo que a história do livro seja ficção, não importa.

Eu entendo que a história seja dolorosa demais para muitas pessoas, mas essa é a realidade. Não acho que eles não estão entendendo a mensagem. Não é isso. Acho que eles preferem a cegueira. É tão melhor viver a vida em uma zona de conforto, não é? E esse livro traz tantas questões incômodas, dolorosas, que muita gente prefere ignorá-las. Se recusam a encarar a realidade, sentir essa dor e refletir sobre ela. Neste mesmo segundo em que estamos conversando, milhões de crianças no mundo inteiro estão sendo abusadas, torturadas, assassinadas. E não apenas em zonas de guerra.  

*Nota de esclarecimento. Ben Barenholtz (que morreu em junho de 2019, aos 83 anos) era, na verdade, ucraniano, e revelou seu passado durante a Segunda Guerra Mundial apenas em 2010. Em seu blog, ele contou que escapou de um campo de concentração junto com 11 pessoas quando tinha apenas 8 anos de idade, e teve de sobreviver com aquele grupo escondido em uma floresta na Polônia. 

Divulgação
Harvey Keitel é creditado no filme apenas como "o padre".

Interessante você mencionar a Bielorrússia, porque é naquele país que se passa a história de um filme icônico que foi a sua principal fonte de inspiração: Vá e Veja (1985). Tanto que você escalou Aleksey Kravchenko no papel do comandante soviético que é uma das pouquíssimas pessoas na jornada do garoto Joska que o acolhe com carinho.

Sim, com certeza. Vá e Veja é um dos melhores filmes de todos os tempos. Uma obra-prima de Elem Klimov. Pensei em Aleksey assim que escrevi o papel de Gavrila porque Joska é uma outra versão de Flyora [protagonista de Vá e Veja]. Foi incrível poder contar com Aleksey.

Mas outros dois filmes foram muito importantes para mim na construção de O Pássaro Pintado. Um é bem conhecido: Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky. O outro, Marketa Lazarová [de Frantisek Vlácil], você não deve conhecer porque não é um filme tão famoso como Andrei Rublev e Vá e Veja. Eu amo esses três filmes e eles foram muito importantes no processo de construção de O Pássaro Pintado

Como você reponde às pessoas que acusam o seu filme de ser pervertido e sádico?

Problema delas. Isso é o que elas acham e eu não me importo nem um pouco com isso. Meu filme não mostra nenhuma cena violenta de forma frontal. A cena dos olhos, por exemplo [cena em que Miller, personagem de Udo Kier, arranca os olhos do amante de seu esposa com uma colher], nunca é mostrada de frente. Todas essas cenas mais violentas eu deixo para a imaginação do público. Talvez seja por isso que algumas pessoas tenham achado brutal demais. Elas estão imaginando aquele ato violento.

Divulgação
O ator alemão Udo Kier é o ciumento camponês Miller.

Há relatos que muitas pessoas saíram antes do fim das sessões no Festival de Veneza por não aguentar tanta crueldade, mas, ao mesmo tempo, o grande vencedor do festival foi Coringa.

Exatamente! Coringa é um filme muito mais violento que o meu. Ele é muito mais explícito em relação à violência. Mas é um filme de fantasia. De super-herói. O meu trata de realidade, de situações que aconteceram na vida real. Por isso algumas pessoas podem ter ficado impressionadas por isso. É muito mais fácil encarar a fantasia, não a realidade. 

Como foi dirigir uma criança como Petr Kotlár em uma história com tanta violência contra seres humanos e animais, abuso sexual, incesto, bestialidade...?

Eu sempre deixei Petr alheio a qualquer situação de pressão ou estresse e ele respondeu muito bem. Ele tem uma família amorosa e é uma criança muito feliz. Ele não sabia exatamente o que ele estava fazendo em muitas cenas. Às vezes eu usava o cachorro dele, que ele ama muito, para explicar alguma expressão que ele deveria fazer, principalmente com seus olhos. Falava para ele algo como: ‘Petr, imagine que você está passeando com seu cachorro e alguém rouba o seu cachorro. Você não sabe onde está o seu cachorro e talvez ele esteja passando fome.’ Como ele é uma criança muito sensível, ele logo começava a chorar. 

Um exemplo de uma cena propriamente dita: quando ele está na casa de 
Labina (Julia Valentova) e ela começa a se masturbar. A câmera pega os dois atores, Petr está de costas para Julia e eu peço a ela, antes de filmar a cena, que simule estar se masturbando, mas silenciosamente. Antes também conversei com Petr e expliquei que seu personagem está passando a primeira noite na casa de Labina e que ela está roncando muito alto atrás de você. Então você olha para a cama achando aquilo estranho, como se não estivesse entendendo o que está acontecendo. Para Petr, ele imaginava o personagem de Julia roncando.

Divulgação
Barry Pepper como o sniper soviético Mitka.

Como você conseguiu reunir tantos astros internacionais, como Harvey Keitel, Stellan Skarsgård, Udo Kier, Julian Sands? Aliás, você escalou Barry Pepper como um sniper de propósito mesmo, para lembrar do personagem dele em O Resgate do Soldado Ryan (1998)?

Sim, com certeza. Deixo isso bem claro. Eu adoro o personagem dele em O Resgate do Soldado Ryan e ele foi a primeira pessoa que eu pensei para interpretar o papel do sniper soviético, Mitka. O rosto dele é tão marcante. Barry é um ator tão bom! Eu adoro a cena dele com Petr na árvore, quando Mitka se vinga dos aldeões que mataram seus companheiros.

Eu tinha algumas vantagens para conseguir reunir esses atores. Eu já conhecia Stellan, por exemplo, mas a principal vantagem era que todos tinham lido o livro em algum momento de suas vidas e adorado. Eles sabiam exatamente sobre o que é O Pássaro Pintado. Por isso todos eles ficaram muito curiosos quando receberam o convite para participar do filme. Eles queriam saber como seria possível filmar aquele livro. Eles estavam muito receptivos com a ideia de ler o roteiro, o que é raro, pois esses atores recebem uma enxurrada de roteiros para ler, e isso me ajudou muito.