ENTRETENIMENTO
10/05/2019 08:26 -03

Antes imaculado, Moro não é poupado de críticas na 2ª temporada de 'O Mecanismo'

O diretor da série, José Padilha, diz que se decepcionou com atual ministro da Justiça e que Bolsonaro está mais para "Tropa de Elite 2".

Bruna Prado/Divulgação
José Padilha não fugiu das polêmicas ao falar de sua série, O Mecanismo, cuja 2ª temporada estreia na Netflix nesta sexta (10).

“O Bolsonaro está usando o Moro como moeda de troca. Ele saiu de herói nacional para salame fatiado e entregue em pedaços para o Centrão aprovar a reforma da Previdência. Se ele for inteligente, deve estar extremamente arrependido das escolhas que fez.” Assim José Padilha começou a coletiva de lançamento da 2ª temporada da série O Mecanismo, que trata da Operação Lava Jato e estreia na Netflix nesta sexta-feira (10).

Se havia alguma dúvida da imprensa com relação ao teor do encontro, ela acabou assim que o diretor abriu a boca para defender sua contestada série. “Eu não sou anti-esquerda, sou anti-petista. Mas também sou anti-psdbista e anti-emedebista. Ninguém reclama do meu anti-psdbismo ou do meu anti-emedebismo. Só lembram do meu anti-petismo. Por quê? Porque existe sim a ideia de que ideologia justifica corrupção. Em todos os artigos que eu escrevi sobre O Mecanismo, eu sempre falei que no mecanismo estão todos.”

Quem também deixou claro suas posições assim que chamado a responder uma pergunta foi o ator Enrique Diaz, que na série interpreta o doleiro Roberto Ibrahim (uma alusão a Alberto Youssef), que logo emendou: “Abaixo o desmonte da educação pública. Fora milícias. Fora milicianos. Fora a ‘familícia’ e Lula livre!”

Bruna Prado/Divulgação
Emilio Orciollo Netto, José Padilha, Selton Mello, Jonathan Haagensen, Caroline Abras e Enrique Diaz na coletiva de apresentação da 2ª temporada de O Mecanismo.

Padilha não deixou o clima de contestação cair: “Eu pergunto para vocês aqui. Alguém acha que o Palocci não roubou? Ele foi o ministro da economia do Lula. O Dirceu não roubou? Quem acha que o Palocci não roubou? Ele [olhando para Enrique Diaz] sabe que o Palocci roubou. Ele sabe que o Dirceu roubou. Todos os atores que reclamaram da série sabem que o Palocci e que o Dirceu roubaram. Pelo que eu saiba, o Lula não escreveu O Capital. Ele não inventou a esquerda. Ele não é o Karl Marx. Na minha opinião ele traiu a esquerda radicalmente.”

É verdade que ninguém discutiu com ninguém. Todos tiveram espaço para emitir suas opiniões políticas, mesmo que conflitantes. E foi aí que Selton Mello resolveu falar sobre duas questões que geraram muitas críticas após a exibição da 1ª temporada da série: a narração dele em off que ninguém conseguiu escutar direito e as críticas por parte de muitos de seus colegas atores, que acusaram a série de tomar partido contra Lula.

“Eu não acho que eu falo baixo, eu acho que as outras pessoas é que falam alto demais [risos]. O que aconteceu na 1ª temporada não foi um problema meu. Mixaram errado e por isso as pessoas não me entendiam. Agora mixaram certo e as pessoas vão me entender”, explicou Selton.

“Os atores foram atacados e essa é uma chance boa de defender aqui todos os meus colegas. Esse é o nosso trabalho. A liberdade de expressão não é seletiva. Muita gente que levanta o punho e defende a liberdade de expressão bateu na gente. Que liberdade de expressão é essa? Quero fazer qualquer coisa que eu quiser. Achei um pouco triste e patético outros atores nos criticarem. Esse é o nosso trabalho”, completou.   

A 2ª temporada pega mais leve?

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A delegada Verena em mais uma tentativa de prender o empreiteiro Ricardo Brecht.

A julgar pela apresentação, a 2ª temporada de O Mecanismo podia ser até mais impactante que a 1ª, pois agora o recado fica claro até antes de um episódio começar... Ao som de Se Gritar Pega Ladrão, de Bezerra da Silva, vários políticos brasileiros, de partidos diferentes, são representados com tarjas nos olhos, como criminosos.  

“Essa é a abertura que eu queria ter colocado antes. Ela está pronta desde a 1ª temporada. Ela não foi ao ar naquela época por dúvidas relacionados ao jurídico. Como não sofremos um milhão de processos depois da 1ª temporada, perdemos essa preocupação com essa apresentação e resolvemos usá-la”, revelou Padilha.

Mas a série, antes apontada de pender claramente para um dos lados do espectro da política brasileira, mudou um pouco de tom, acrescentando ações duvidosas da própria Lava Jato. O juiz Rigo (representação de Sérgio Moro), por exemplo, antes visto como um imaculado paladino da justiça, agora é criticado por ter vazado o famoso áudio entre Lula e Dilma; na série, Gino (Arthur Kohl) e Janete (Sura Berditchevsky).

O próprio Padilha escreveu 2 artigos no jornal Folha de São Paulo dizendo-se decepcionado com Moro e explica: “Eu escrevi sobre a burrice do Sérgio Moro de se associar ao atual presidente do Brasil. A história do Moro, eu tenho a impressão olhando agora, é uma história que vai se revelar trágica”, disse o diretor, que acrescentou: “Eu acho que essa temporada é menos polêmica que a primeira, porque na época da 1ª temporada existia uma esperança de que o Lula continuasse na política, mas hoje não tem mais isso. Ele está condenado”.

Aliás, falando em Lula… Um dos momentos mais polêmicos da 1ª temporada foi Gino/Lula dizendo a frase do “estancar a sangria”, que ficou famosa na boca do agora ex-senador Romero Jucá, do MDB. Padilha se defende do jeito que gosta, no contra-ataque: “Muitas pessoas na História do Brasil falaram em ‘estancar a sangria’. O Jucá não criou essa expressão. O Jucá usou e o personagem que representa o Lula também usou. Mas nessa temporada nós colocamos essa expressão na boca do Aécio e eu quero ver alguém reclamar. Ainda estou esperando. Quero ver alguém dizendo: ‘Mas o Aécio não falou isso!’.”

Seguindo os acontecimentos retratados na 1ª, a 2ª temporada acontece após as eleições presidenciais de 2014, quando a força-tarefa liderada pela delegada Verena (Caroline Abras) prendeu 12 dos 13 principais empreiteiros do Brasil. Menos um: Ricardo Brecht (Emilio Orciollo Netto). Com a ajuda de Guilhome (Osvaldo Mil) e Vander (Jonathan Haagensen) ela segue no encalço do empreiteiro. Enquanto isso, o ex-delegado Ruffo (Selton Mello) ainda está agindo fora da lei, perseguindo Roberto Ibrahim (Enrique Diaz), doleiro que pode levar à prisão de Ricardo. Mesmo que isso cause a total separação de sua esposa Regina (Susana Ribeiro) e sua filha Beta (Julia Svaccinna). E esses acontecimentos acabam desembocando em uma gravação que pode causar o Impeachment da presidente Janete.

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Ruffo em sua busca implacável pelo doleiro Roberto Ibrahim.

Porém, se de um lado está o sempre ativista Padilha, do outro está Selton, que mesmo interpretando o protagonista e narrador da série, diz detestar política e afirmar que o processo de participar de O Mecanismo foi dolorido e até desagradável.

“O que essa série me deu foi uma libertação de ser quem eu sou. Eu não preciso fazer um personagem aqui e agora. Eu não entendo de política. Eu não gosto de política. Não sou um ativista político. Não me sinto representado por nenhuma linhas partidária [‘eu também não’, interrompe Padilha aos risos]. Não gosto desse universo. Não gosto de nada disso. Quis o destino que caísse na minha mão um José Padilha com uma série de alto teor político”, desabafou o ator.

“Meu primeiro movimento foi dizer: ‘não vou fazer isso. Isso não tem nada a ver com o meu mundo’, mas aí eu pensei: ‘Eu vou fazer. É uma chance de mexer em lugares que eu desconheço. Sair de minha zona de conforto’. Eu prometi ao Padilha que iria falar isso na frente dos jornalistas e vou falar agora. Essa série foi um crescimento para mim. Foi um trabalho muito doloroso. Muito desconfortável e desagradável. Mas foi assim que eu construí o Ruffo. Nesse estado eu fiz o Ruffo. E eu agradeci o Padilha por isso. Experimentei uma coisa diferente e ganhei mais casca. A minha casca deu uma engrossada”, completou.

Bolsonaro faz parte do “mecanismo”?

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Para Padilha, atual presidente do Brasil está mais próximos dos personagens de Tropa de Elite 2 (foto) do que de O Mecanismo.

Com uma “participação especial”, Bolsonaro aparece na série, mesmo que rapidamente, em uma reprodução de seu voto a favor do impeachment de Dilma. Mas segundo Padilha, ele e a roteirista Elena Soarez não imaginavam no tamanho que o ex-deputado federal ganharia depois daquele momento.

“Quando colocamos o Bolsonaro na série, nem imaginávamos que ele seria candidato a presidente. Fizemos aquele comentário de que talvez o vazio seja preenchido por uma coisa menor, e foi. Essa é uma série sobre a Lava Jato, e o Bolsonaro nunca foi politicamente capaz de participar de roubalheiras do tamanho das que são investigadas na Lava Jato. Do que temos indícios são o Queiroz depositando R$ 1,2 milhão em uma conta. Nem chega perto dos bilhões envolvidos na Lava Jato. Isso não o exime de nada, mas ele não tinha poder para chegar no PT e dizer: ‘Quero indicar tal ou tal para um cargo na Petrobras’ e o PT concordava”, comenta Padilha, que conclui lamentando o atual momento político brasileiro sem deixar de lado sua sempre mordaz ironia.

“O Bolsonaro é um cara ligado a polícia do Rio de Janeiro. Dá para acreditar? É quase um ‘Tropa de Elite 2 - A milícia chegou a Brasília’. Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas aconteceu. Você olha para as conexões dele e vê o tal do Adriano [o PM Adriano Magalhães da Nóbrega] condecorado com a medalha Tiradentes. Coitado do Tiradentes! Ele é esse tipo de coisa, o submundo, o esgoto da polícia do Rio de Janeiro. O Adriano trabalhava para o Maninho [o bicheiro Waldomiro Paes Garcia]. O Lessa [o PM Ronnie Lessa], que atirou na Marielle, trabalhava para o inimigo do Rogério de Andrade [bicheiro carioca], o outro trabalhava para não sei quem… São essas pessoas que eram amigos… Um deles até morava no condomínio do Bolsonaro. É um nível que eu jamais imaginei que o Brasil fosse chegar.”

Veja o trailer da 2ª temporada de O Mecanismo aqui: