OPINIÃO
14/11/2019 04:00 -03 | Atualizado 27/11/2019 14:39 -03

Imperdível, 'O Irlandês' não é apenas mais um filme de máfia de Martin Scorsese

Melancólico e seco, primeira parceria do cineasta com a Netflix é um anti "Os Bons companheiros" que você precisa ver.

Quando o ambicioso projeto de O Irlandês - primeiro do peso-pesado do cinema americano Martin Scorsese com a Netflix - foi anunciado, muita gente pensou: “Por que precisamos de outro filme de máfia de Scorsese?”

O questionamento é mais do que justo, já que a produção marca o retorno da parceria do cineasta com seu primeiro ator fetiche, Robert De Niro. Aliás, o último filme da dupla foi Cassino (1995), uma trama sobre a máfia que sofreu muitas críticas na época de seu lançamento por ser considerado (erroneamente) um subproduto de Os Bons Companheiros (1990) a grande obra prima do diretor nesse gênero. 

Isso sem falar que O Irlandês ainda conta com outra participação emblemática na filmografia de Scorsese, a de Joe Pesci, que tanto em Bons Companheiros quanto em Cassino interpreta papéis semelhantes que acabaram estigmatizando a carreira do ator como o mafioso explosivo e inconsequente. 

Pois então... Será que realmente precisamos de outro filme de máfia de Scorsese? A resposta é: Sim, precisamos. E o motivo mais óbvio para embasar essa resposta é que O Irlandês, que estreia nos cinemas em sessões especiais nesta quinta (14), é um anti Os Bons Companheiros

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Joe Pesci e Robert De Niro como Russell Bufalino e Frank Sheeran em cena de "O Irlandês".

Tanto no filme de 1990 quanto em O Irlandês, Scorsese mostra toda sua habilidade em contar histórias envolvendo a máfia da forma mais cinematográfica possível, mas ele o faz de maneiras completamente diferentes.

Pode parecer estranho, mas O Irlandês tem uma relação bem mais íntima com faroestes revisionistas, aqueles que mostram a morte do velho oeste, que captam a melancolia do fim de uma era, como Pistoleiros do Entardecer (1962), de Sam Peckinpah; O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford; ou Quando os Homens São Homens (1971), de Robert Altman.  

Enquanto tudo é glamourizado (de um jeito torto, verdade) em Os Bons Companheiros, em seu novo filme Scorsese opta por uma forma bem mais “realista”, seca, despojada de retratar o universo mafioso. Henry Hill (Ray Liotta) era um narrador que se gabava em ser um gângster em Os Bons Companheiros, já Frank Sheeran (De Niro) é um matador que conta sua história sem qualquer nostalgia.

A trama é focada em Sheeran (De Niro), um ex-soldado da Segunda Guerra Mundial que passa a trabalhar como caminhoneiro. Buscando uma grana extra, ele começa a roubar as cargas que transporta a mando de um gângster local. Mas sua vida muda quando ele conhece Russell Bufalino (Joe Pesci), um dos chefões da máfia da Filadélfia. Eles se dão muito bem, e logo Sheeran passa a ser seu braço direito.

Até o dia em que Bufalino indica Sheeran para ser um tipo de guarda-costas para Jimmy Hoffa (Al Pacino), um importante líder sindical com grandes aspirações políticas.

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Por incrível que pareça, "O Irlandês" é apenas o segundo filme em que Al Pacino e Robert De Niro trabalham juntos dividindo cenas. 

Por mais que conte uma história que atravessa décadas e acontecimentos cruciais para a história dos Estados Unidos, O Irlandês nunca passa a impressão de ser um épico. Mesmo com suas impressionantes três horas e meia. Sua duração, aliás, é um dos pouquíssimos pontos negativos da produção. Com um pouco de esforço, dava para cortar alguns bons minutos.

E já que entramos na seara dos “defeitos”, outra questão que ainda será muito debatida em O Irlandês é a utilização do CGI, imagens geradas por computador para rejuvenescer os atores. Principalmente em relação a De Niro.

Na primeira cena em que Frank Sheeran aparece mais novo, a imagem é extremamente artificial. O personagem parece saído de um videogame. Mas com o decorrer do filme esse “bug” vai se suavizando e você passa a se acostumar. Mesmo com a estranha escolha de colocar olhos azuis em De Niro.

Outro problema da narrativa é dar tão pouco tempo de tela para Anna Paquin, que interpreta uma das filhas de Sheeran, Peggy. Ela é uma personagem bem interessante que serve de contraponto à vida paralela de seu pai, mas que nas três horas e meia de filme tem apenas uma mísera fala.

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"O Irlandês" é uma saga por trágicos acontecimentos que mercaram a história dos Estados Unidos e o fim do sonho americano.

Mesmo assim, são problemas pequenos que são superados (e muito!) pelas qualidades da produção. Seu trio de protagonistas, por exemplo, está simplesmente excelente. De Niro e Pacino brilham intensamente na tela.

Mas é Pesci quem surpreende. Russell Bufalino foge totalmente dos papéis que marcaram sua carreira. Um dos chefões da máfia da Filadélfia, Bufalino é do tipo de cara que conversa com você com toda a calma do mundo e com um sorriso no rosto, mas que manda te matar sem o menor remorso.

O Irlandês é uma saga que mostra o sonho americano se transformando em pesadelo. Uma ode ao vazio de um mundo que o próprio Scorsese já retratou de forma “nostálgica”. Um filme que retrata um período extremamente importante da história dos Estados Unidos pelos olhos do americano médio, o homem comum que pode, por alguma circunstância, se transformar em um “pintor de paredes” (você vai sacar a brincadeira ao ver o filme).