ENTRETENIMENTO
26/11/2019 03:00 -03

'O Irlandês': Leia trecho exclusivo do livro que deu origem ao filme de Martin Scorsese

Relançado no Brasil pela editora Seoman, livro escrito por Charles Brandt conta a história real de um assassino de aluguel da máfia.

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Filme estrelado por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci entra no catálogo da Netflix no dia 27 de novembro.

O hype (totalmente justificável) em torno de O Irlandês — que estreou em sessões especiais em cinemas espalhadas pelo mundo, desde 14 de novembro, e que chega ao catálogo da Netflix nesta quarta-feira (27) — impulsionou o relançamento do livro em que o filme de Martin Scorsese se baseia.

Escrito pelo advogado e escritor Charles Brandt, o livro, lançado nos Estados Unidos em 2005 e por aqui em 2016 acaba de ganhar uma nova edição brasileira, lançada pela editora Seoman.

O livro conta a saga de Frank Sheeran (interpretado por Robert De Niro no filme), um veterano da Segunda Guerra Mundial que se divide entre dois trabalhos: ser caminhoneiro e assassino de aluguel da máfia. Quando o poderoso líder sindical Jimmy Hoffa (Pacino) desaparece sem deixar vestígios, em 1975, Frank, que possui uma associação de longa data com o chefe mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci), torna-se o principal suspeito.

Repaginado em sua capa e diagramação, a nova versão em português de I Heard You Paint Houses (expressão usada para se referir ao matador de aluguel que, ao assassinar alguém, espirra o sangue das vítimas nas paredes e piso) é narrada pelo próprio Sheeran. Ele relata de forma precisa a forma como crimes eram encomendados – e executados – por matadores de aluguel da máfia em um momento importante e sensível da História americana, do pós-guerra à década de 1970.

Serviço

O Irlandês
Autor: Charles Brandt
Editora: Seoman
Páginas: 312
Preço sugerido: R$ 48,00

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O HuffPost Brasil publica com exclusividade trecho do primeiro capítulo de O Irlandês que mostra uma cena-chave do filme de Scorsese, com a participação dos três protagonistas, Sheeran (De Niro), Jimmy Hoffa (Pacino) e Russell Bufalino (Pesci):

“Eles não ousariam”

Quando saiu da cadeia — graças a um indulto presidencial concedido por Nixon, em 1971 — e começou a lutar para reaver a presidência dos Caminhoneiros, Jimmy tornou-se um sujeito com quem era muito difícil conversar. Às vezes esse tipo de comportamento torna-se característico de alguns sujeitos, logo que acabam de ser postos em liberdade. Jimmy decidiu dar rédea solta à sua língua: no rádio, nos jornais, na televisão... Cada vez que abria a boca, ele dizia algo sobre como iria expor a Máfia, e como iria varrer a Máfia do sindicato. Ele até mesmo chegou a dizer que impediria a Máfia de utilizar o fundo de pensão. Não consigo imaginar que certas pessoas tenham gostado de saber que a sua galinha dos ovos de ouro seria morta, caso ele reassumisse a presidência. Vindo de Jimmy, tudo isso soava como hipocrisia, para dizer o mínimo — considerando que, para início de conversa, foi o próprio Jimmy quem trouxe a assim chamada Máfia para o sindicato, franqueando-lhe acesso ao fundo de pensão. Jimmy me trouxera para o sindicato através de Russell. Assim, por muitos bons motivos, eu estava mais do que apenas um tanto preocupado com o meu amigo.

 

Eu comecei a ficar preocupado cerca de nove meses antes daquele telefonema que Russell me concedera permissão para fazer. Jimmy havia voado para a Filadélfia para ser o palestrante especialmente convidado da Noite de Agradecimento a Frank Sheeran, no Latin Casino. Havia três mil dos meus bons amigos e meus familiares lá — incluindo o prefeito, o procurador distrital, uns caras ao lado de quem eu lutei na Guerra, o cantor Jerry Vale e as bailarinas Golddigger Dancers, com pernas que não acabavam mais, além de certos outros convidados aos quais o FBI se referia coletivamente como La Cosa Nostra. Jimmy presenteou-me com um relógio de ouro, com diamantes incrustados em torno do mostrador. Jimmy olhou para os convidados que ocupavam as mesas no salão e disse: ‘Nunca havia me dado conta de que vocês eram assim tão poderosos.’ Este foi um comentário muito especial, porque Jimmy Hoffa era um dos dois homens mais poderosos que eu já conheci.

 

Antes que fosse servido o jantar — costela, de primeira qualidade —, quando posávamos para fotografias, um joão-ninguém que estivera na cadeia com Jimmy perguntou a ele se poderia arranjar-lhe dez mil dólares para iniciar um negócio. Jimmy meteu a mão no bolso e deu-lhe 2.500 dólares, imediatamente. Assim era o Jimmy: um coração-mole.

 

Naturalmente, Russell Bufalino estava lá. Ele era o outro dos dois homens mais poderosos que já conheci. Jerry Vale cantou a canção favorita de Russ, “Spanish Eyes”, dedicando-a especialmente a ele. Russell era o chefe da família Bufalino, que controlava o interior do Estado da Pensilvânia e grandes regiões dos Estados de Nova York, Nova Jersey e Flórida. Tendo seu quartel-general fora dos limites da cidade de Nova York, Russell não integrava o círculo fechado das cinco famílias de Nova York, mas todas essas famílias vinham até ele em busca de aconselhamento para fazerem qualquer coisa. Se houvesse algum assunto importante para ser resolvido, eles deixavam o trabalho a cargo de Russell. Ele era respeitado pelo país inteiro. Quando Albert Anastasia foi fuzilado numa cadeira de barbeiro em Nova York, eles fizeram com que Russell agisse como o cabeça daquela família, até que as coisas se acertassem. Não havia maneira de obter mais respeito do que Russell possuía. Ele era muito poderoso. O grande público nunca ouvira falar dele, mas as famílias e os federais sabiam quanto ele era poderoso.

 

Russell presenteou-me com um anel de ouro que ele mandara fazer especialmente para apenas três pessoas: para si mesmo, para seu subchefe e para mim. Havia uma grande moeda de três dólares no topo, circundada por diamantes. Russell era um figurão no mundo do roubo e receptação de joias. Ele era um ‘sócio oculto’ de várias joalherias da ‘Rua dos Joalheiros’, na cidade de Nova York.

 

O relógio de ouro que Jimmy me deu ainda está no meu pulso, e o anel de ouro que Russell me deu ainda está no meu dedo, aqui, na casa de abrigo assistido onde vivo, agora. Na minha outra mão, uso um anel incrustado com as pedras dos signos de cada uma das minhas filhas.

 

Jimmy e Russell eram muito parecidos. Ambos tinham uma compleição física solidamente musculosa, da cabeça aos pés; e ambos eram de baixa estatura, mesmo para os padrões médios da época. Russ media cerca de 1,7m de altura, e Jimmy mal passava de 1,6 m. Naqueles dias, eu media 1,93 m e tinha de me curvar se quisesse falar com eles mais reservadamente. Os dois também possuíam grande destreza e agilidade. Eles possuíam uma grande resistência, tanto física quanto mental. Mas em um aspecto importante eles eram diferentes. Russ era um homem discreto e de poucas palavras, que falava sempre em voz baixa e muito calmamente, mesmo que estivesse louco da vida. Jimmy, por sua vez, explodia diariamente, apenas para manter seu temperamento em plena forma, e adorava publicidade.

 

Na noite anterior ao jantar oferecido em minha homenagem, Russ e eu tivemos uma reunião com Jimmy. Nós nos sentamos a uma mesa no Broadway Eddie’s, e Russell Bufalino disse a Jimmy Hoffa, sem rodeios, que ele deveria retirar sua candidatura à presidência do sindicato. Ele lhe disse que certas pessoas estavam muito satisfeitas com a gestão de Frank Fitzsimmons, que substituíra a Jimmy quando ele fora para a prisão. Ninguém àquela mesa disse isso, mas todos sabíamos que essas certas pessoas estavam muito satisfeitas devido à facilidade com que obtinham polpudos empréstimos do Fundo de Pensão dos Caminhoneiros gerido pelo extremamente maleável Fitz. Eles também obtinham empréstimos sob a gestão de Jimmy, que fazia seus próprios arranjos por debaixo dos panos; mas os empréstimos sempre eram concedidos de acordo com as condições impostas por Jimmy. Fitz, em vez disso, dobrava a espinha para essas certas pessoas. Tudo com que Fitz se importava era beber e jogar golfe. Não preciso dizer a você quanto proveito alguém pode tirar do fato de possuir a chave do cofre de um fundo de pensão de um bilhão de dólares.

 

— Por que você está se candidatando? —, disse Russell. — Você não precisa do dinheiro.

 

— Não é pelo dinheiro —, retorquiu Jimmy. — Não vou deixar Fitz tomar conta do sindicato.

 

Ao fim da reunião, quando eu me preparava para levar Jimmy de volta ao Warwick Hotel, Russ puxou-me de lado e disse:

 

— Converse com o seu amigo. Diga a ele ‘o que isto é’.

 

Na nossa maneira de falar, por mais que não soe como tal, isso é o mesmo que fazer uma declarada ameaça de morte.

 

No Warwick Hotel, eu disse a Jimmy que, se não mudasse de ideia quanto a reaver o seu posto no sindicato, seria melhor que ele arranjasse alguns guarda-costas e os mantivesse ao seu redor, como proteção.

 

— Não vou enveredar por esse caminho ou eles passarão a perseguir minha família.

 

— Mesmo assim, você não vai querer sair à rua completamente sozinho.

 

— Ninguém amedronta Hoffa. Eu vou atrás do Fitz, e vou vencer essa eleição.

 

— Você sabe ‘o que isto é’ —, disse eu. — O próprio Russ me pediu para dizer isto a você.

 

— Eles não ousariam —, resmungou Jimmy Hoffa, fitando seus olhos faiscantes diretamente nos meus.