ENTRETENIMENTO
14/03/2020 03:00 -03

Por que ninguém acredita nas protagonistas dos filmes de terror?

Ah, sim. Porque elas são mulheres. Exemplo: “O Homem Invisível”.

Illustration: Rebecca Zisser/HuffPost; Photo courtesy of Universal Pictures

Aviso: o texto abaixo contém spoilers sobre a trama de O Homem Invisível.

Há um clichê dos filmes de terror que me deixa louco, e tenho de falar sobre ele: ninguém acredita que o protagonista está sendo assombrada, perseguida e/ou nervosa até que seja tarde demais. Quem duvida quase sempre morre, ou então é o vilão da história. Ainda assim, os filmes desse gênero são obcecados por essa dinâmica, especialmente quando a protagonista é uma mulher.

Considere O Homem Invisível, que estreou em primeiro lugar nas bilheterias neste nos Estados Unidos. A versão contemporânea de Leigh Whannell para o romance de 1897 de H.G. Wells tem Elisabeth Moss no papel de Cecelia Kass, uma arquiteta de San Francisco que foge de um namorado abusivo (Oliver Jackson-Cohen) na calada da noite.

Adrian, o namorado, é um visionário muito rico. Depois de cometer suicídio e deixar a fortuna para Cecelia, seu fantasma começa a aparecer na roupa de invisibilidade que ele inventara. Adrian agride, droga e atrapalha uma entrevista de emprego de Cecelia, assassina a irmã dela (e várias outras pessoas) e acaba colocando a ex-namorada num hospital psiquiátrico.

Ela insiste que Adrian forjou a própria morte, mas obviamente ninguém acredita nela. Em vez disso, todos acham que ela está tendo um colapso nervoso por causa do trauma sofrido.

Esse tipo de incredulidade virou uma narrativa que só serve para criar conflitos artificiais entre personagens, ou então para retratar a ansiedade feminina como algo improvável.

Universal Pictures
Elisabeth Moss em “O Homem Invisível”.

Não há nenhuma dúvida de que Cecelia está sendo assombrada. Com cerca de 20 minutos filme, ela aparece interagindo com o fantasma de Adrian. Mas todos as outras pessoas desdenham, incluindo seu amigo de infância (Aldis Hodge) e sua filha, a ponto de ir para a faculdade (Storm Reid), achando que Cecelia está enlouquecendo. Parece uma maneira injusta de tratar uma mulher que deixou claro que seu ex é um bully controlador capaz de coisas horríveis.

Esse é o negócio. Filmes de terror muitas vezes têm protagonistas mulheres que costumam estar cercadas por pessoas que duvidam de  sua integridade mental. Esse instrumento tem algum realismo: historicamente, mulheres que fazem acusações de agressão ou intimidação não recebem atenção.

O Homem Invisível certamente está tratando da construções de gênero adjacentes ao movimento Me Too, mas o filme diminui parte de seu próprio peso ao fazer que os amigos e parentes repitam que Cecelia “é louca!”. E essas redundâncias atravancam a trama. Sempre que alguém questionava a integridade de Cecelia, eu tinha vontade de gritar: “Vamos lá! Tem mais assombração aí!”

A desconfiança não se restringe ao sobrenatural. Quase todos os filmes de serial killer têm alguém que se recusa a prestar atenção nos avisos sobre o maníaco em questão. O detetive (Chris Sarandon) de Brinquedo Assassino teria poupado muito tempo se acreditasse em Karen (Catherine Hicks) quando ela o alertou sobre Chucky.

Filmes com monstros também têm uma tendência parecida, como evidenciado em Aliens, O Resgate, que começa com executivos homens duvidando de Ellen Ripley (Sigourney Weaver) quando ela diz que viu ovos extraterrestres. É tão clichê que thrillers psicológicos inteiros são baseados em homens maldosos fazendo os outros duvidarem de suas esposas, como em Revelação.

Michael Ochs Archives via Getty Images
Catherine Hicks em “Brinquedo Assassino”.

Não querendo ser o chato da história, mas, se o público sabe que a protagonista está falando a verdade, será que não fica tudo mais divertido, mais revigorante e mais arrepiante? Como em Janela Indiscreta, quando um fotógrafo (James Stewart) bisbilhotando a vida de seu vizinho assassino (Raymond Burr) recruta a namorada (Grace Kelly) para ajudá-lo. Ou como em Corrente do Mal, que ousa imaginar um grupo de jovens amigos dispostos a ajudar uma integrante do grupo (Maika Monroe) quando ela revela que está sendo perseguida por uma entidade que só ela consegue enxergar.

É claro que às vezes o isolamento do personagem principal é necessário. Um exemplo clássico é O Bebê de Rosemary, no qual a futura mãe (Mia Farrow) suspeita que seu marido (John Cassavetes) está envolvido com um grupo de satanistas de olho no bebê. Rosemary está no meio de um grupo de canalhas que dizem que seus temores não merecem crédito. Ninguém – nem mesmo os médicos dela – respeita seu ponto de vista, retratando as mulheres como inerentemente perigosas. Como de partida sentimos que as suspeitas de Rosemary têm fundamento, o suspense vem justamente de ela não conseguir ajuda.

CBS Photo Archive via Getty Images
Mia Farrow em “O Bebê de Rosemary”.

Às vezes me pergunto se personagens de filme de terror como os amigos de Cecelia já assistiram algum filme de terror. Será que eles não sabem que a pessoa que duvida acaba morrendo? Que os que fazem gaslighting são sempre os vilões?

Sei o que você está pensando: será que você acreditaria em alguém que dissesse estar sendo atormentado pelo parceiro morto? E minha resposta é “com certeza, por que não?” Se não é possível provar que algo é falso, não devemos simplesmente descartá-lo. Talvez mais gente devesse acreditar nas pessoas queridas que dizem estar sendo assombradas. (É só uma sugestão!) Enfim. Mesmo que você não acredite em fantasmas, estamos falando de um filme.

O problema não é só a descrença; é a descrença de absolutamente todo mundo. Quase metade dos americanos acredita que espíritos, demônios e outros seres metafísicos são reais. E, ainda assim, tantos filmes de terror dependem da desconfiança dos amigos dos personagens principais e da polícia. Para piorar as coisas, eles apresentam as mulheres como histéricas. Rímel borrado e vozes trêmulas são atalhos para histórias implausíveis.

Talvez nessa era influenciada pelo Me Too e pela desinformação, mais thrillers possam evitar esse tipo de atrito desnecessário, especialmente como O Homem Invisível, cujo objetivo é passar o poder do abusador para a abusada. Talvez seja a hora de acreditar em fantasmas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Also on HuffPost