ENTRETENIMENTO
02/11/2019 02:00 -03

Decodificando o homoerotismo em 'O Farol'

Robert Pattinson, Willem Dafoe e o director Robert Eggers decompõem os subtons sensuais de seu tenso "buddy movie".

A24
Robert Pattinson em "O Farol".

O cinema adora uma saga sobre colegas de quarto que se desentendem. Às vezes esses filmes terminam em clima de harmonia, reconhecendo que os opostos se atraem (Um Estranho CasalA Garota do Adeus) e o destino junta bufões compatíveis (Quase Irmãos). Em outros momentos a discórdia entre os personagens leva ao homicídio (Mulher Solteira Procura), despejo (Missão Madrinha de Casamento) e outras consequências infelizes.

O Farol ocupa um espaço intermediário entre esses dois extremos. Robert Pattinson e Willem Dafoe são faroleiros numa ilha isolada ao largo da costa do Maine na década de 1890, onde passam quatro semanas fazendo trabalho físico cansativo e cuidando do farol. O tempo começa a piorar, e o clima de tensão aumenta. Todos os problemas que surgem quando dois homens dividem um espaço confinado viram uma luta pelo poder – emoções reprimidas, tarefas, tédio, refeições, hormônios, flatulência.

Por baixo do psicodrama todo há uma ternura nunca verbalizada que é, para resumir, homoerótica.

Ephraim Winslow (Robert Pattinson) chega para ser aprendiz de Thomas Wake, (Willem Dafoe), responsável pelo farol há anos. Quando os dois se veem sozinhos, enfrentando-se num cabo-de-guerra mental, Ephraim vira submisso, e Thomas, dominante. Por mais que eles externem paradigmas hipermasculinos, sua condição isolada e solitária trai a carência afetiva que estava presente neles desde o início.

Em um primeiro momento, Ephraim parece revelar uma fixação edipiana pelo mal-humorado Thomas, invejando o acesso de seu chefe ao farol, que exerce uma atração mística sobre ele, enquanto ele próprio é relegado a cuidar das tarefas mais pesadas e sujas. Mas, alimentado por eufemismos fálicos e bebida barata, essa inveja dá lugar a algo mais erótico. Quanto mais os dois homens reprimem seu desejo por companheirismo, mais a intimidade se mescla com hostilidade. Ephraim e Thomas acabam dançando à noite e chegando delirantemente perto de se beijarem.

Apesar disso, o filme não chegar a explicitar os desejos reais dos dois homens. Rodado em preto e branco nítido que acentua o ambiente de época, O Farol é um redemoinho de ambiguidades. Mesclando humor e suspense, o diretor Robert Eggers deslancha a mesma paranoia trêmula que infundiu a seu trabalho de estreia, o ótimo A Bruxa. Sob o efeito hipnótico da história, torna-se impossível distinguir o real do imaginado.

O Farol se originou com o irmão de Robert Eggers, Max, que estava trabalhando com o roteiro de uma história de fantasmas envolvendo um farol. O diretor recordou: “Quando Max falou em ‘história de fantasmas num farol’, imaginei uma cena em que os dois homens estariam jantando em um ambiente empoeirado, sujo, embolorado, enferrujado, em preto e branco, com enquadramento quadrado, os dois barbados, fumando cachimbos e usando pulôveres tricotados à mão”.

A partir dessa ideia os dois irmãos começaram a pesquisar a época em que a história seria ambientada e colaboraram sobre o roteiro, sempre tendo claro que os desejos e tendências de Ephraim e Thomas deviam ficar abertos a interpretações diferentes. O resultado é um filme intrigante, mas que nos nega o prazer de ver Pattinson e Dafoe transando de fato.

Em conversas separadas com Eggers e os dois atores principais, perguntei a eles sobre o homoerotismo que percorre O Farol. As respostas deles foram levemente editadas para propiciar maior clareza. Estejam avisados: pequenos spoilers pela frente!

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Willem Dafoe e Robert Pattinson em "O Farol".

As origens

HuffPost: Quando estamos assistindo a O Farol, os subtons queer não se manifestam imediatamente. Isso foi algo que Eggers, Pattinson e Dafoe discutiram conscientemente?

Willem Dafoe: Isso está presente. O que há para falar disso? É muito óbvio.

Robert Eggers: O coração da questão sempre esteve presente. A história toda trata de uma dinâmica de poder, então temos Willem sempre empurrando, pressionando sem parar. Há raiva contida, energia erótica represada, cheiros represados. Onde está o ponto de ruptura? E como a bebida alcoólica influi sobre essa dinâmica toda?

Robert Pattinson: O roteiro deixou isso bastante explícito. Dizia que o farol parecia um pênis ereto.

O que está por baixo dos desejos não verbalizados dos personagens

Quando Ephraim e Thomas aparecem pela primeira vez na mesma tomada, estão parados, olhando fixamente para a câmera com ar de raiva, desafiando o espectador a acompanhá-los na experiência que virá a seguir. Na primeira noite que passam na cabana que eles dividem, Thomas deixa claro que vai mandar em Ephraim sem dó. “A luz é minha”, ele declara, insistindo que Ephraim terá que cuidar das tarefas mais trabalhosas. Assim a divisão entre eles é traçada imediatamente. Ephraim está na posição de servidão, explorado pela atração carnal que Thomas sente pelo farol. Isso apenas reforça a tensão crescente. Em pouco tempo vemos Ephraim sonhando com Thomas deitado sem camisa naquele farol ereto.

Pattinson: Na realidade é sob vários aspectos uma história de amor, não? Só que eles não sabem o que fazer um com o outro. 

Eggers: Eu estou dizendo que esses personagens são gay? Não. Mas tampouco estou afirmando que não são. Esqueça as complexidades da sexualidade humana ou suas inclinações particulares. Com este filme, eu mais proponho perguntas do que dou respostas. 

Dafoe: Masculinidade tóxica! Eles provocam um ao outro por medo e por se sentirem ameaçados por quem são. E os dois são culpados. Eles têm um sentimento de culpa, de estar fazendo algo errado. A história não contém nenhum julgamento moral. Apenas observamos os dois homens lutando para encontrar um jeito de sobreviver a eles mesmos, na realidade. O filósofo Blaise Pascal escreveu algo como ‘todos os males do mundo podem ser ligados ao fato de que um homem não é capaz de ficar sentado sozinho em seu quarto’. Estou parafraseando, mas o sentido é basicamente esse. O Farol é uma história simples, mas tem raízes existenciais, questões de identidade e questões ligadas à masculinidade, dominação e submissão. Então vemos tudo virar do avesso. É bacana.

Pattinson: Você assiste e fica na dúvida quanto do relacionamento está acontecendo de fato. Até que ponto está tudo na cabeça de Ephraim? O personagem de Willem poderia ser um chefe como outro qualquer, mas há uma espécie de relação de submisso e dominante rolando, em que meu personagem exagera em sua cabeça a dominação que o de Willem exerce sobre mim, porque de um jeito estranho ele deseja isso. É um relacionamento que se lê sempre como muito sensual. Não é apenas uma relação entre chefe e empregado. Sem falar que ele é mais ou menos louco. 

Eggers: Para melhor ou para pior, meu irmão e eu seguimos um pensamento meio junguiano. Obviamente o símbolo do farol não poderia ser mais claro. E, sendo meio junguiano, ele inspira temas e motivos na história. Temas que repisamos de um jeito extremamente adolescente, usando fechaduras vaginais, ferramentas fálicas e assim por diante. Espero que seja um filme que, se Jung e Freud estivessem assistindo, ambos estariam comendo suas pipocas furiosamente.

Pattinson: Eu tive muita consciência de como queria que o relacionamento se mostrasse para o espectador. De várias maneiras, meu personagem meio que quer um pai.

Joel C Ryan/Invision/Associated Press
Robert Eggers, Willem Dafoe e Robert Pattinson no Festival de Cinema de Cannes, 19 de maio de 2019.

Eufemismos de sobra

Na cena mais memorável do filme, Ephraim, ensandecido, insiste: “Se eu tivesse um bife – um bife malpassado, pingando sangue – se eu tivesse um bife, eu o foderia.” Isso ofende Thomas, que prepara o jantar deles toda noite, e ele começa a buscar elogios. “Você gosta da minha lagosta, não gosta?”, ele fala em sua cadência de pirata. É no mínimo um pedido de afeto. No máximo, Thomas pode estar falando de seu pênis.

Eggers: Sim, eu sabia o que estava escrevendo.

Dafoe: Em Nápoles, “peixe” quer dizer pênis na gíria. Sim. Está tudo presente. Há aqueles momentos de tortura. São arquétipos masculinos conturbados, então as coisas que parecem perfeitamente seguras e puritanas se desmontam muito rapidamente. Acho que é também essa a fonte de boa parte do humor.  

Pattinson: Esse tipo de comédia feita de desespero é quase assustadora, mas ao mesmo tempo absurda.

O quase beijo

No ambiente mal iluminado onde fazem suas refeições, Ephraim e Thomas bebem, cada um conta a história de sua vida ao outro, e eles se provocam mutuamente. Através de flertes disfarçados de agressividade, eles vão se conhecendo melhor. Thomas diz a Ephraim que ele é “bonitinho como um quadro” e explica que se divorciou porque passava tanto tempo longe de casa. Ephraim, mais arredio, explica, sem entrar em maiores detalhes, que anda fugindo de um emprego para o outro, assombrado por algum tipo de passado distante. O tempo passa, forma-se um temporal lá fora e o clima entre eles vira turbulento. Mas o tempo todo, sem poderem sair para o ar livre e sem nada a fazer senão conversar, eles estão se aproximando. Uma noite, quando ambos estão especialmente bêbados, eles dançam juntos, primeiro uma dança animada e depois uma dança lenta. Thomas canta uma canção de ninar e Ephraim segura firme na camisa dele, ansiando por algum consolo. Os dois então se olham e se aproximam para se beijar, mas então recuam e reagem trocando alguns socos, depois mais abraços. Mais tarde, quando Ephraim já sofreu o suficiente, ele faz Thomas andar como se fosse um cachorro.

Pattinson: Chamamos uma professora de dança e fizemos algumas aulas com ela. Mas além disso os dois personagens beberam um monte e a cena acabou se convertendo em outra coisa.

Eggers: Vemos homens dançando juntos em ambientes de época. Isso é algo que acontecia simplesmente. Quero dizer, hoje existem momentos em que homens dançam juntos em situações não ligadas à homoafetividade. Mas sabíamos que naquele mundinho a única coisa que cada um dos dois tinha era o outro. Havia aqueles momentos de pico, tanto ruins quanto bons. Então fizemos uma dança rápida do tipo que já vi em documentários sobre trabalhadores de madeireiras, algo semelhante a um sapateado. Agora, quando ficam bêbados, eles fazem uma dança lenta.

Dafoe: Quando estão dançando não é tanto que eles tenham algo a ver um com o outro, mas ambos estão presentes e quentes. Fica muito claro. Há aquele momento em que eles quase se beijam, mas então eles recuam, tipo “não podemos!”. O sentimento real é muito evidente, porque há um clima melancólico de anseio, de desejo. Eles se abraçam, estão afetuosos e bêbados. Os rapazes às vezes ficam juntos quando estão bêbados. 

Eggers: Alguém me falou que a briga que eles têm depois do beijo que não aconteceu é mais erótica do que a dança. Não sei se concordo, mas gosto dessa ideia.

Pattinson: Fez sentido para mim: a questão psicológica de que você só é capaz de manifestar esse tipo de emoção quando está totalmente embriagado. Mas ao mesmo tempo, nas primeiras cenas Ephraim quer demais agradar a Thomas. E quando ele se revolta contra Thomas, quer ser castigado, só para receber atenção. Ele passa a impressão de ser um cara que provavelmente teve uma vida duríssima. Ele faz trabalho braçal e há muito tempo é um trabalhador itinerante. Ele fez algumas coisas ruins na vida e se sente muito culpado por isso. Basicamente, ele quer ser consolado, mas não sabe como pedir isso nem como falar sobre isso. Então essa carência se manifesta nesse comportamento maníaco, excessivamente físico.

Eggers: Muitas canções de marinheiros são cantadas do ponto de vista da esposa ou namorada que o marinheiro deixou em terra. Então há muitas gravações maravilhosas de homens idosos cantando canções que falam algo tipo “Johnny me deixou”. É uma coisa comovente. Mas também não é como se a homossexualidade não existisse no passado. Aqueles ambientes de acampamentos de lenhadores e  de faróis isolados, com apenas homens trabalhando, não deixam muita margem a dúvidas. 

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Dafoe e Pattinson em "O Farol".

Sobre aquela masturbação

Vemos Ephraim masturbando-se furiosamente à noite, às vezes acariciando uma pequena estatueta de sereia. Mas suas fantasias sobre figuras femininas marinhas míticas são entrecortadas com imagens de um lenhador loiro. Depois que um orgasmo termina em lágrimas, fica claro que o combo de sereia e lenhador o faz sentir alguma coisa. Na mitologia e no folclore, as sereias às vezes encantam homens que estão cheios de tesão reprimido. Talvez Ephraim seja bissexual. Talvez a estatueta da sereia seja uma imagem que substitui seu desejo por Thomas e o lenhador. Talvez ele simplesmente sinta inveja de Thomas. Talvez seja outra coisa inteiramente. 

Eggers: Eu teria uma resposta para lhe dar, mas não vou dá-la. Respeitosamente, sinto muito.

Pattinson: Essa é uma das ideias sobre as quais construí o personagem inteiro. Me pareceu algo muito visceral. Há o paradigma de não possuir os mecanismos mentais necessários para trabalhar seus sentimentos e memórias. O personagem possui algo de TOC. Basicamente, ele se masturba como se estivesse se drogando. Algumas pessoas ficam tão dilaceradas e descontroladas com seus desejos e sua sexualidade que isso as atormenta. A estatueta de sereia é uma coisa tão inócua, mas acho que Ephraim está mais se atormentando por conta de seu desejo. Ele está totalmente conflitado por algo tão simples. Tem medo de perder seu autocontrole. E há algo de estranho no chapéu contra chuva que ele põe na cabeça. Será que ele precisava realmente ficar de chapéu quando estava batendo punheta num galpão?

Eggers: Nem eu nem meu irmão achamos isso boa ideia, mas houve uma primeira versão do roteiro que acabava com Robert Pattinson deixando a barba crescer bem grandona e vestindo a roupa de Willem Dafoe. Achamos isso uma estupidez. Sabe, fazemos más escolhas gratuitas e tremendas e depois seguimos adiante com elas. Mas essa escolha foi adolescente demais até mesmo para nós. 

O Farol estreia nos cinemas brasileiros no dia 2 de janeiro de 2020.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.