OPINIÃO
02/01/2020 06:44 -03 | Atualizado 02/01/2020 11:33 -03

'O Farol' traz o terror como expressão máxima da fragilidade do macho moderno

Segundo longa de Robert Eggers é uma fábula sombria (e sinistramente engraçada) sobre o mito da masculinidade.

O surpreendente A Bruxa pode ter ficado de fora da grande maioria de listas de melhores filmes de 2015 dos principais veículos especializados em cinema, mas não precisou de muito tempo para alcançar o status de um dos maiores cult movies da última década, amado por fãs de terror - um gênero ainda marginalizado - mundo afora.

Por conta disso, não era de se estranhar que o segundo longa do talentoso cineasta americano Robert Eggers fosse um dos filmes mais aguardados de 2019. E as expectativas aumentaram ainda mais depois da excelente recepção em Cannes, onde foi exibido pela primeira vez, fora da competição do Festival, em maio do ano passado.

Mas quem espera de O Farol - que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (2) - algo parecido com um “novo” A Bruxa, vai se decepcionar bastante. Eggers não é do tipo de diretor que se deixa levar por uma fórmula de sucesso. Ele é um autor que faz o seu cinema sem dar a mínima para a opinião dos outros. Ele fez o filme que quis fazer. Uma atitude que carrega consigo seus bônus e ônus.

Por mais estranho que parecesse, A Bruxa tem um enredo mais definido e direto que O Farol, um filme que vai bem mais fundo em sua atmosfera sombria e dúbia. Uma fábula visual calcada na experiência cinematográfica pura. Tanto que tem como principal influência o cinema alemão da década de 1920.

Aqui, Eggers mergulha de cabeça em sua obsessão visual pelo cinema da República de Weimar, buscando artifícios técnicos que emulam esse período conhecido como Expressionismo Alemão, como a utilização de lentes e câmeras antigas, fotografia em preto e branco e um formato de tela incomum para os padrões atuais, quase quadrado.

Outro aspecto técnico que salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, é o som. O design de som em O Farol é tão ou até mais importante para manter o clima tenso do começo ao fim do filme do que os embates verbais dos dois protagonistas da história. Um elemento tão forte e intimidador que desafia os limites da plateia assim como atormenta Winslow, personagem vivido por Robert Pattinson.

Mas engana-se quem acha que O Farol possa ser um caso clássico de puro visual e nenhum conteúdo. Por mais que os elementos sobrenaturais possam dar essa ilusão, o objetivo de Eggers nessa história estilo “era uma vez...” cheia de mistérios e superstições é bem claro: mostrar o quanto a masculinidade é frágil.

Divulgação
Robert Pattinson e Willem Dafoe no eterno embate masculino de quem cospe mais longe.

E é aí que entra o elemento mais inusitado do filme: o humor. O Farol é inesperadamente engraçado. Principalmente quando Willem Dafoe e Pattinson dividem a tela em espaços calculadamente claustrofóbicos. A dinâmica da dupla de atores é desconcertante de tão boa e imprevisível. Dois marmanjos que encaram seus medos e receios entre tapas e (quase) beijos, traduzindo  com rara felicidade as fragilidades do macho moderno.

A trama de O Farol é das mais simples exatamente porque é o elemento que menos importa para Eggers ao contar sua história.

Em uma ilha isolada na costa do Maine no início do século XX, dois faroleiros iniciam seu turno. O veterano Thomas Wake (Dafoe) e o novato Ephraim Winslow (Pattinson) logo entram em conflito, já que Wake não deixa Winslow ter acesso ao farol, ordenando que ele faça todo o resto do serviço pesado.

Obcecado em descobrir o que acontece no farol, Winslow começa a perceber que coisas estranhas estão acontecendo na pequena ilha. Perto do final do turno, uma forte tempestade atinge o local, obrigando a dupla a ter de se aturar por lá Deus sabe quantos dias a mais, e o conflito se instala de vez. 

É visível o quanto Dafoe se deleita com seu personagem. Com um sotaque divertidíssimo de um velho lobo do mar de araque, Wake coloca a paciência de Winslow e do público à prova, culminando em uma cena ao mesmo tempo assustadora e patética em que ele joga uma praga sobre seu rival.


Pattinson não deixa por menos. Seus embates com uma gaivota inconveniente são hilários e desconcertantes. Ele é a materialização dos receios do macho que luta contra impulsos “impuros” que insistem em atormentá-lo e que, no final, cobram seu preço.

Peidos, masturbação, álcool, superstição, forças da natureza... Tudo isso se mistura na confecção de uma bomba que está prestes a explodir e que Eggers faz questão de nos lembrar com cenas que funcionam como um irritante e inexorável tic-tac do relógio do apocalipse da masculinidade. O que para muita gente pode soar como a forma máxima do terror, mas que pode ser, sim, muito divertido.