ENTRETENIMENTO
01/01/2020 10:02 -03 | Atualizado 01/01/2020 23:51 -03

'Rob Pattinson queria me dar um soco na cara', diz Robert Eggers sobre 'O Farol'

Cineasta fala sobre suas influências, sobre como encarou o desafio de fazer um filme após 'A Bruxa' e da tensão entre os atores Robert Pattinson e Willem Dafoe no set.

″[Edgar Allan] Poe morreu escrevendo uma história chamada ‘O Farol’. Fazer histórias sobre faróis é complicado, eu entendo. Eu quase não sobrevivi à minha”, brinca o diretor Robert Eggers sobre a tensa e complicada filmagem de O Farol, um dos filmes mais marcantes (e bizarros) de 2019, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (2). Fábula sombria, o longa vem recheado de superstições, histórias de pescador e cenas explícitas de fragilidade masculina. 

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, o jovem cineasta americano que chamou a atenção do mundo logo em seu longa de estreia, o aclamado terror A Bruxa (2015), falou sobre suas influências, sobre como a tensão entre os atores Robert Pattinson e Willem Dafoe contribuiu para o resultado final do filme e de por que Pattinson, em certo momento, quis lhe dar um soco na cara. 

“Basicamente, O Farol conta a história de dois homens, dois faroleiros, que estão em uma ilha misteriosa muito longe da costa do Maine (nos Estados Unidos). É quase como um ‘era uma vez...’ no fim do mundo que se passa no  final do século 19. Aí chega uma tempestade e eles ficam presos na ilha, enlouquecem e coisas ruins acontecem”, explica Eggers, que deixa de lado alguns detalhes propositalmente, pois logo depois acrescenta: “Não gosto de saber nada sobre um filme antes de assisti-lo”. 

Havia muita tensão no ar. Mas isso era ótimo, porque era o farol de Willem Dafoe e Robert Pattinson tinha de se sentir desconfortável naquele lugar

Para deixar as coisas mais claras ao leitores, esses dois protagonistas são o veterano marinheiro Thomas Wake (Dafoe) e o novato ajudante Ephraim Winslow (Pattinson), que acabam de assumir um turno em um farol em uma ilhota isolada.

A tensão entre os dois se instala logo de cara, quando Wake não deixa Winslow ter acesso ao farol, ordenando que ele faça todo o resto do serviço pesado. Exausto e obcecado em descobrir o que acontece no farol, Winslow é atormentado por gaivotas e outras coisas estranhas que estão acontecendo naquele lugar, levando-o a questionar a própria sanidade.

“Tínhamos de ensaiar por conta dos movimentos de câmera, que tinham de ser muito precisos. Dafoe vem do teatro, mas Rob se sentiu muito incomodado com aquele processo. Ele é muito contido, gosta de manter as coisas misteriosas. Ele gosta de surpresas. Então, havia muita tensão no ar. Mas isso era ótimo, porque era o farol de Willem Dafoe e Robert Pattinson tinha de se sentir desconfortável naquele lugar”, disse Eggers.

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"A desgraça pode ser engraçada": Robert Pattinson em cena de "O Farol".

Atritos como esse não surgiram apenas na relação com o “teatral” Dafoe. Em uma cena em particular, Pattinson ficou tão irritado que confessou que queria mesmo era dar um soco na cara de Eggers. Um pouco sem graça, mas sem deixar de se divertir com isso, o diretor conta a história.

″Em uma cena específica, tínhamos que jogar água na cara do Rob com uma mangueira de incêndio enquanto ele corria. Ele precisava manter seu peito colado em uma vara com uma bola de tênis na ponta para ficar a uma distância exata da câmera e não perdermos o foco. O que, claro, nos fez repetir a cena diversas vezes”, explicou.

“Depois da sexta vez, soube que ele queria me dar um soco na minha cara. Acabamos usando o sétimo take [risos]. Mas descobri também que já em seu trailer, Rob disse ao supervisor de figurino que ele estaria disposto a fazer quantas vezes fosse preciso aquela cena. Rob e Willem toparam de tudo nesse filme.”

Todos os fãs de "A Bruxa" vão ver esse filme esperando um festival de terror super sério e sóbrio, mas aí o Willem Dafoe peida em 5 minutos de filme

Sobre suas influências, o diretor enumerou uma série de escritores, como o já citado Edgar Allan Poe, além de Herman Melville, Samuel Coleridge, H. P. Lovecraft, Arthur Machen, M. R. James; dramaturgos como Harold Pinter, Sam Shepard e, claro, cineastas, como Ingmar Bergman, Stanley Kubrick, Robert Flaherty, Jean Epstein e Jean Grémillon. Mas o mais interessante são suas inspirações “inconscientes”.

″Tenho vergonha de dizer que nunca tinha visto A Morte Num Beijo (1955) [clássico noir de Robert Aldrich] e quando Ari Aster [diretor de HereditárioO Mal Não Espera a Noite - Midsommar] viu meu filme, ele disse: ’Adorei o final estilo A Morte Num Beijo. Tive de ser sincero e disse que não tinha visto A Morte Num Beijo. Depois vi o filme, eu pensei: ‘Não é que eu tenho um final tipo A Morte Num Beijo mesmo?!’”, contou, rindo.

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Willem Dafoe como o velho mandão, supersticioso e flatulento lobo do mar Thomas Wake.

O Farol segue a mesma atmosfera de A Bruxa, mas é um filme muito diferente. Bem mais radical e ousado, além de ser supreendentemente divertido em alguns momentos. Uma escolha das mais arriscadas para um segundo longa. Ainda mais depois do sucesso e do culto que gerou A Bruxa. Porém, nada que abale a confiança de Eggers.

“Você precisa se arriscar, mas a verdade é que eu estava absolutamente aterrorizado antes da estreia no Festival de Cannes. A Bruxa se leva muito a sério e precisa disso para funcionar, mas pensei que se tivesse de visitar a desgraça mais uma vez, queria poder rir dela. A desgraça pode ser engraçada”, afirmou.

“Todos os fãs de A Bruxa vão ver esse filme esperando um festival de terror super sério e sóbrio, mas aí o Willem Dafoe peida em 5 minutos de filme e eles vão pensar: ‘Como devo reagir seriamente a um peido?’ A verdade é que é para ser engraçado mesmo.”

Veja aqui o trailer completo de O Farol: