O dilema das redes sociais é entender como manter o equilíbrio no seu uso

Cancelamentos, polarizações, vigilância, censura, ansiedade, depressão e descontrole da própria vida são alguns dos problemas causados pelo uso excessivo das redes.

Você talvez já tenha sido impactado por O Dilema das Redes Sociais, o documentário da Netflix que apresenta uma série de entrevistas com ex-funcionários das maiores empresas de tecnologia do mundo como Google, Twitter, Facebook, Pinterest, Asana, Mozilla, Firefox, entre outras.

O documentário é um dos dez mais vistos na plataforma, de acordo com o ranking da própria Netflix. O filme de uma hora e 34 minutos descreve como as redes funcionam através de algoritmos criados para viciar seus bilhões de usuários. E por mais que você não pague nada para usar, as redes ganham dinheiro te mostrando anúncios.

Eles também revelam todo o mecanismo que existe por trás das plataformas com as centenas de funcionários pensando como fazer as pessoas ficarem mais tempo online usando todas as plataformas, sempre com o propósito de vender mais e mais anúncios. Para isso, vale inclusive manipular pessoas usando muita fake news e muito discurso de ódio.

“Hoje é fácil esquecer que essas ferramentas trouxeram coisas maravilhosas para o mundo. Reuniram famílias sem contato, encontraram doadores de órgãos. Ou seja, houve mudanças significativas e sistêmicas no mundo inteiro graças ao impacto positivo dessas ferramentas. Acho que fomos ingênuos em relação ao outro lado da moeda.” Esta é uma das primeiras falas de Tim Kendall, que foi diretor de monetização do Facebook (responsável por fazer a rede social gerar lucro) e presidente do Pinterest. Curiosamente, desde 2018 ele é CEO da Moment, um aplicativo que trabalha com saúde mental para dependentes de redes sociais.

Depois de ver o O Dilema das Redes Sociais, uma das perguntas que fica é: qual o meu papel nisso tudo? A resposta parece não ser tão simples e, desde o lançamento, milhares de análises já foram postadas por aí, seja na mídia tradicional ou nas próprias redes sociais.

Estão todos refletindo sobre o outro lado da moeda dito por Kendall. No lado em que estão os sérios problemas de saúde mental e a dependência que seu uso excessivo tem gerado em seus usuários. E é preciso entender como viver neste mundo, pois a tecnologia é algo que veio para ficar.

“Hoje nós não vivemos mais sem a tecnologia, ela faz parte da nossa vida, literalmente, e não vai mudar. A questão é buscar um equilíbrio, tudo que é de mais ou de menos pode ser prejudicial”, é o que afirma a psicóloga Cornelia Martini. Ela integra o núcleo de Dependências Tecnológica e de Internet do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas/FMUSP.

Martini explica que o trabalho do grupo visa a autorregulação do tempo online, onde os pacientes não são desestimulados a usar a internet e redes sociais, apenas a ter controle do uso e da própria vida. “A questão não é a tecnologia, é o que nós fazemos com ela. Muitas vezes os pacientes chegam assustados, com medo de que a gente não vai querer que ele use mais a tecnologia, e não é isso”.

Será que eu sou dependente?

Vale lembrar que, por mais que seja uma pessoa que vai dormir e acorda praticamente com o celular na mão, talvez você não seja um dependente de internet e redes sociais. Existe uma diferença entre usar excessivamente a tecnologia e ser dependente.

“O excessivo ou abusivo usa bastante a tecnologia, mas tem um domínio sobre a máquina. Ele domina sua própria vida, o lazer, a comunicação, o sono. O dependente é diagnosticado quando o uso começa a impactar na vida cotidiana dele. Ele negligencia alimentação, sono, deveres de estudo ou trabalho, relacionamentos, e passa a viver em função da tecnologia”, afirma Cornelia.

Os dependentes ficam entre 12 e 18 horas por dia na internet e ainda assim sentem uma necessidade muito grande de aumentar o tempo conectados. Além disso, têm uma preocupação excessiva com a internet, ficam irritados quando estão offline, deixam de viver o real para estar no virtual. Há os que até tentam se desligar, mas não conseguem, detalha a psicóloga.

Esses comportamentos, em maior ou menor grau, acabam desencadeando mais ansiedade nos usuários, o que pode levar até mesmo ao desenvolvimento de uma depressão. Isso é mais comum entre pessoas que já têm uma predisposição ou mesmo já tinham transtornos do tipo, que são agravados com a dependência de tecnologia.

Mas Martini explica que, no grupo de Dependências Tecnológica e de Internet, há todo um cuidado para que o diagnóstico seja preciso, e o tratamento envolve terapia em grupo. “O paciente chega e acha que só ele passa por essa questão. Esse tratamento em grupo é muito rico para os pacientes verem que eles não estão sozinhos e que as pessoas têm o mesmo problema”.

É preciso ter mais atenção quando falamos no uso dos adolescentes

Um grupo muito vulnerável a tudo que a internet tem de melhor e pior é o dos adolescentes. Um estudo realizado em 2019 pela Universidade Federal do Espírito Santo com 2.293 jovens com idades entre 15 e 19 anos da região da Grande Vitória, mostrou que um em cada quatro adolescentes é dependente moderado ou grave de internet.

De acordo com essa amostra, a dependência esteve associada com o aumento da presença de sintomas ansiosos, aumento da depressão e maior baixa autoestima entre os jovens. O estudo também mostrou que existe uma relação do excesso de uso de internet e redes sociais com maior uso de álcool e maior dependência de drogas e substâncias psicoativas.

Segundo o doutor em saúde coletiva e pesquisador da Ufes, George Nunes Bueno, “o adolescente dependente de internet tem duas vezes mais chances de ser dependente de substâncias psicoativas. A gente acredita que quem busca a internet busca pelo mesmo motivo de quem busca álcool e drogas: o prazer momentâneo”.

Bueno afirma que os conteúdos buscados pelos jovens dependentes de internet variam muito, e envolvem desde jogos, pornografia e até mesmo séries e filmes, conteúdo que envolve a própria Netflix (produtora do documentário que crítica justamente o uso abusivo das plataformas digitais).

Martini ressalta que, quando o caso envolve adolescentes, o problema precisa ser enfrentado por toda a família. “Os adolescentes são um grupo que a gente tem que olhar com bastante cuidado, porque eles não estão com o cérebro pronto. A gente só pode dizer que o cérebro está formado aos 21 anos, então o adolescente tem dificuldade de ter um freio inibitório e chegar a um momento de parar e de usar a tecnologia. Por isso é muito importante ficar muito mais tempo atentos.”

Não é à toa que no documentário da Netflix boa parte dos entrevistados afirma que seus filhos, crianças e adolescentes, não usam redes sociais. Um dos entrevistados, o psicólogo Jonathan Haidt, Ph.D. pela Universidade da Pensilvânia, afirma que adolescentes não deveriam usar as redes sociais até ter mais ou menos 16 anos. E que os pais devem combinar um tempo para eles usarem os dispositivos diariamente.

Polarização, vigilância e censura nas redes

Outro aspecto abordado por O Dilema das Redes Sociais, e que afeta a todos os usuários, é a polarização das redes sociais criada pelos algoritmos, que moldam as timelines dos usuários em bolhas. Assim, todos seguem e são seguidos por pessoas que pensam da mesma forma.

Isso nos leva a fenômenos diversos, entre eles está o chamado cancelamento, onde usuários “cancelam”, “excluem”, “eliminam” outros usuários das redes por ter opiniões diversas sobre determinados assuntos. Isso se dá quando, por exemplo, uma pessoa deixa de seguir alguém no Instagram, silencia no Twitter ou quando exclui um contato do WhatsApp.

E o Brasil está prestes a passar por um momento de grandes cancelamentos: as eleições municipais de novembro. Em 2018, amigos, conhecidos, colegas de trabalho brigaram e famílias inteiras se dividiram por causa dos candidatos na eleição daquele ano. O mesmo aconteceu em 2016, em 2014 e provavelmente vai ter os mesmos efeitos em 2020.

É muito comum ouvir relatos de pessoas que, por compartilharem pontos de vista diferentes, excluíram parentes e amigos das redes – sejam as públicas, como Twitter e Facebook, ou mesmo as privadas, como o WhatsApp. É uma forma de deixar a sua bolha bem confortável, com as mesmas opiniões que as suas.

Mostrar só o que te agrada acaba te deixando mais tempo online, levando assim à dependência do uso das redes. Expandindo o alcance do pessoal para o global, o documentário da Netflix aponta que essa forma de consumir conhecimento é um ataque global à democracia do mundo moderno.

Para o professor Eric Messa, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da FAAP, esse é um comportamento que está refletido nas redes sociais, mas não é necessariamente culpa delas. “A gente tem, na verdade, uma evolução de uma sociedade que está caminhando para pensamentos mais extremistas. Elas [as redes] colaboram, óbvio, mas eu acho que elas são um personagem deste processo, não o causador principal.”

O professor afirma que vivemos um fenômeno chamado panóptico social. O panóptico é um modelo de sociedade onde se constrói um sistema de vigilância. “O termo foi trazido por Michel Foucault no livro Vigiar e Punir. Ele fala de uma organização acima da sociedade fazendo este controle. Ele é muito usado para explicar, por exemplo, o mundo das câmeras de vigilância em todo lugar”, explica.

“O Zygmunt Bauman fez uma atualização deste termo e diz que a gente não precisa mais da câmera de vigilância. A gente vive num mundo digital em que todos os nossos rastros vão sendo registrados e podem ser acessados e hackeados.”

Messa explica que hoje vivemos em uma sociedade onde entidades como família, igreja e governo, que nos ajudavam a organizar o dia a dia e nossas decisões, não têm a mesma força. Isso acaba deixando as pessoas angustiadas e completamente perdidas, fazendo com que elas busquem a aprovação nas pessoas ao redor.

“A sociedade tem que tomar decisões por conta do diálogo entre seus próprios pares e a gente tem a necessidade de validar nosso discurso entre nossos pares. Isso explica um pouco essa necessidade das pessoas quererem deixar a opinião delas o tempo todo”

- Eric Messa, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da FAAP

Por ter vontade de participar o tempo todo das redes sociais opinando, sem necessariamente ouvir o outro, as pessoas passam então a ter de lidar com comentários que não estão dispostas a ouvir, o que acaba levando a ansiedade, tristeza, raiva, entre outros sentimentos ruins. Mas nem sempre foi assim.

“Eu tenho saudades da época em que a gente podia conversar nas redes. Elas foram construídas de um jeito que estimula tudo isso, mas no começo delas, não era assim. A gente conseguia conversar melhor, trocar, compartilhar, no sentido de colaboração. Isso diminuiu muito porque essas interfaces foram construídas e a nossa sociedade foi mudando”, lembra o professor Eric.

Ele afirma que a vontade de opinar o tempo todo é uma forma de reafirmar e construir uma identidade, mas, ao mesmo tempo, se cria vigilância e controle dos conteúdos que podem ou não ser publicados nas redes.

“E voltamos para este lugar de agressividade e polarização nos discursos, em que querem determinar o que pode ser publicado: ‘Porque você escreveu no seu Instagram, mas está aparecendo na minha timeline’; ’ela é minha e eu não quero que você publique isso; ‘você está errado, apaga isso aqui’. A gente está criando dentro da própria sociedade um sistema de censura. É essa minha ideia de panóptico social”, diz.

Claro, estamos falando de opiniões. Isso não tem a ver com crimes. Ser racista ou homofóbico nas redes não é dar uma opinião. Por exemplo, quando as empresas Bayer e Magazine Luiza anunciaram seus trainees exclusivamente para negros, muitas ideias racistas ou equivocadas sobre racismo foram expostas como opinião. Mas o professor reforça que isso acabou, de certa forma, levando a um debate real.

“Essa exposição faz as pessoas serem confrontadas com ideias que elas sozinhas não pensariam, justamente por serem muito preconceituosas por natureza. Senão essas pessoas preconceituosas continuariam na bolha delas sem espaço para reflexão.”

Teste de Dependência

No site do grupo Dependências Tecnológicas, do Ambulatório Integrado do Controle dos Impulsos, existe um Teste de Dependência de Internet. É o mesmo que foi aplicado na pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo citado anteriormente.

Com 20 perguntas, ele vai dizer se você praticamente não usa a internet, é um usuário médio da internet, tem passo por problemas ocasionais por causa da internet ou se o uso da internet está provocando problemas significativos em sua vida

Entre as perguntas estão:

  • Com que frequência você acha que passa mais tempo online do que pretendia?
  • Com que frequência outras pessoas em sua vida se queixam a você sobre a quantidade de tempo que você passa online?
  • Com que frequência você se pega dizendo “só mais alguns minutos” quando está online?
  • Com que frequência você bloqueia pensamentos perturbadores sobre sua vida com pensamentos leves da internet?
  • Com que frequência você se sente deprimido(a), mal-humorado(a) ou nervoso(a) quando está offline, e esse sentimento vai embora assim que você volta a estar online?

Faça o teste clicando neste link.

Veja abaixo o trailer do filme O Dilema das Redes Sociais: