OPINIÃO
16/09/2020 03:00 -03 | Atualizado 16/09/2020 09:19 -03

Nem o Homem-Aranha e o Batman juntos salvam 'O Diabo de Cada Dia' do tédio

Como um filme que tinha tudo para dar certo simplesmente não engrena nem com reza braba?

Há filmes que estreiam sem alarde, que você não dá nada, mas que, de repente, se transformam em um dos seus preferidos da vida. Mas há também aquelas produções que são lançadas com pompa e circunstância, com aquele jeitão de que vão entrar em listas de melhores do ano, mas que se revelam grandes decepções que cairão no esquecimento em questão de semanas. Esse é, infelizmente, o caso de O Diabo de Cada Dia, que estreia nesta quarta-feira (16) na Netflix.

Assim que foi revelado o trailer do filme dirigido por Antonio Campos (mais conhecido pelas duas primeiras temporadas da série The Sinner), o hype sobre a produção foi elevado à enésima potência. Também, pudera. Além de um elenco dos mais promissores encabeçado por Tom Holland (o atual Homem-Aranha do MCU) e o novo Batman Robert Pattinson, o filme é baseado no excelente romance de Donald Ray Pollock, que praticamente criou um novo gênero, o gótico caipira.

Em seus sonhos, O Diabo de Cada Dia quer ser uma violenta reflexão sobre os extremos da fé com um estilo narrativo à la Robert Altman, ou seja, uma história construída a partir do cruzamento entre seus personagens em um determinado ambiente e/ou período de tempo. Mas como bons brasileiros adoradores de memes, sabemos que expectativa e realidade podem ser duas coisas bem distintas.

O verdadeiro diabo aqui é o roteiro. Escrito por Campos e seu irmão Paulo, ele se perde completamente em um emaranhado de pequenas tramas que não conseguem se conectar de forma satisfatória. Muito por conta da solução preguiçosa de usar um narrador. Ainda mais quando a identidade desse narrador nunca é revelada, e ele em nenhum momento diz qual é o motivo de estar nos contado aquelas histórias.

Divulgação
Bill Skarsgård e Michael Banks Repeta como Willard e Arvin Russell em cena de "O Diabo de Cada Dia".

Tudo começa com o tal narrador misterioso nos contando em tom solene sobre uma estranha ligação entre duas pequenas cidades nos rincões sulistas do Estados Unidos: Knockemstiff, no estado de Ohio, e Cold Creek, em Virginia. Algo como Sodoma e Gomorra contemporâneas, onde um bando de personagens, entre três décadas, serão destruídos por conta de seus pecados.

Entre eles está Willard Russell (Bill Skarsgård), um atormentado veterano da Segunda Guerra Mundial que, a caminho de Cold Creek, para em um dinner na cidade de Meade, a pouquíssimos quilômetros de Knockemstiff. Lá, ele conhece e se apaixona por uma das garçonetes, Charlotte (Haley Bennett). Coincidentemente, naquele mesmo momento, outro homem, Carl Henderson (Jason Clarke) também conhece e se apaixona por outra garçonete do lugar, Sandy Bodecker (Riley Keough), irmã do xerife Lee (Sebastian Stan).

Já casados e com um filho de 9 anos, o pequeno Arvin (Michael Banks Repeta), Willard e Charlotte se mudam para uma casa em Knockemstiff. É lá que Charlotte fica doente e a família descobre que ela está com câncer. Como a ciência não resolverá o caso de sua esposa, Willard começa a rezar alucinadamente em um pequeno altar que construiu na mata. Já desesperado e sugestionado por uma terrível visão que teve na guerra, ele chega à conclusão que Deus só ouvirá suas preces se um sacrifício lhe for ofertado.

Sete anos depois, o jovem Arvin (Holland) vive em Cold Creek com seus avós, pais de Willard, e uma irmã de criação, a órfã Lenora Laferty (Eliza Scanlen). Muito religiosa, ela se aproxima do novo pastor local, o estranho e prepotente Preston Teagardin (Pattinson), que a convence em fazer sexo com ele “em nome de Deus”.

Enquanto isso, Carl e Sandy, já casados, passam anos de suas vidas aprimorando suas técnicas de abordagem para atrair homens pedindo carona na estrada e assassiná-los em um ritual macabro.

A única coisa que serve para linkar essas histórias é exatamente o casal de serial killers Carl e Sandy, mas o roteiro não nos conta praticamente nada sobre eles, sobre o que Sandy viu em Carl e por que ela embarcou na fantasia psicótica do marido, provando que O Diabo de Cada Dia é apenas um amontoado de causos sinistros que só servem ao propósito de matar o público de tédio.