ENTRETENIMENTO
28/06/2019 01:00 -03

Ator que interpreta Luke conta o que significa ser um pai em ‘O Conto da Aia’

O-T Fagbenle fala sobre a natureza destrutiva de Gilead e da abordagem perturbadora da criação de filhos presente na série.

George Kraychyk/Hulu
O-T Fagbenl fala sobre criação de filhos.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu a segunda temporada de O Conto da Aia e não quer estragar nenhuma surpresa, volte apenas depois de assistir.

Trazer uma nova vida ao mundo é complicado na República de Gilead. Existem as aias, que têm a função de dar à luz; os comandantes, pais das crianças por meio de cerimônias brutais; e as esposas, que são as mães dos bebês assim que a aia tem o bebê. É um ciclo doentio, que questiona o consentimento e a santidade da maternidade.

No final da segunda temporada de O Conto da Aia(The Handmaid’s Tale, em inglês), Serena Joy, mulher do comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) – sabendo que Gilead não é lugar para uma bebê inocente –, decide ajudar sua aia, June (Elizabeth Moss), a levar sua filha, Nichole, para um lugar seguro. [Nota do editor: Nichole, batizada de Holly, na realidade é filha do guardião Nick (Max Minghella), com quem June tem um romance secreto.]

Mas June, arrasada porque sua outra filha, Hannah (Jordana Blake), ainda está na república, decide ficar. Ela entrega Nichole à ex-aia Emily (Alexis Bledel) e diz que ela deve fugir para o Canadá, onde estão o marido de June e o pai de Hannah, Luke Bankole (O-T Fagbenle).

Na terceira temporada, Emily chega a Toronto, mas tem de lidar com o trauma que sofreu no regime totalitário. Enquanto isso, June é recapturada e entregue a um novo personagem: o comandante Joseph Lawrence (Bradley Whitford).

Elly Dassas/Hulu
Elisabeth Moss como June em O Conto da Aia. 

Luke, por sua vez, está em choque – ele terá de criar a filha de June – que não é sua. É tudo muito complicado, mas O-T Fagbenle meio que entende a situação, como explicou em entrevista por telefone ao HuffPost. O ator britânico se viu conectado ao personagem de maneiras surpreendentes nesta nova temporada, já que foi criado por vários parentes entre Inglaterra, Nigéria e Espanha.

“Para mim, foi muito significativo”, disse ele sobre o arco de Luke. “Venho de uma família nada tradicional, em que as pessoas não são criadas pelos pais – tias viram mães, tios [viram pais], todo tipo de coisa. E isso meio que me tocou – a ideia de pegar uma criança com a qual você tem relação, mas não de sangue, algo mais profundo. Me disseram que a frase ‘O sangue é mais grosso que a água’ na realidade é ‘O sangue da aliança é mais grosso que a água do útero’. Sempre achei que isso significasse que o sangue das promessas que você faz, o sangue das suas conexões, é mais profundo que a genética”, reflete.

Fagbenle sabe que as crianças de Gilead são fruto de uma “violência terrível”, o que impossibilita comparações com sua história de vida.

“Isso tem de ser levado em conta na hora de decidir o que é melhor para a criança”, afirma ele. “Não tenho uma resposta [para o que significa ser pai em Gilead]. Mas definitivamente acredito que, se você deu à luz, você é a mãe, em algum nível profundamente intrínseco. Além disso, acho que ser pai ou mãe tem a ver com os cuidados e as oportunidades que você vai dar para a criança.”

Como resumir ou expressar para os outros os horrores que você viveu?O-T Fagbenle sobre o trauma de ser refugiado

Segundo Fagbenle, o que acontecerá com June é mais preocupante do que o fato de ele ter de criar Nichole. Os espectadores sabem a tragédia dela, mas Luke não faz ideia do que aconteceu com sua mulher. E isso é aterrador.

“Luke não sabe o que está por trás da chegada da bebê e o que significa para ela dizer ‘não’ para a chance de voltar a estar com ele e com a filha”, diz o ator. “Luke tem de se esforçar para superar isso e confiar em June, aceitando a filha como se fosse sua.”

Também é difícil para Luke estar perto de Emily, que evitou manter contato com sua família apesar de estar além do confinamento de Gilead. Como Moira (Samira Wiley) diz a Emily: “Ele olha para você e enxerga June”.

Luke se pergunta se June estaria agindo da mesma maneira se tivesse chegado ao Canadá, diz Fagbenle.

“Emily passou por algo indescritível. Muita gente sofre essa dissonância: ter vivido um trauma e ser incapaz de processá-lo ou explicá-lo para os outros. Isso vale para refugiados, veteranos de guerra ou vítimas de violência doméstica... É agonizante. Como resumir ou expressar para os outros os horrores que você viveu?”

“Mas, da perspectiva de Luke”, acrescenta o ator, “muita da ansiedade dele tem a ver com as dúvidas sobre o que está acontecendo com June”.

George Kraychyk/Hulu
Luke, Hannah e June em O Conto da Aia.

Hannah, a filha do casal, tem cerca de 8 anos e foi separada dos pais quando Gilead tomou o poder. Ela vive num regime que controla todos os aspectos de sua vida e seu futuro. Para Luke, pensar na experiência da filha é ainda pior – pois ele não tem certeza de que Hannah se lembra de que ele é seu pai.

“Hannah teve alguns poucos anos conscientes – não sei a partir de que idade você começa a reconhecer sua relação com as outras pessoas. Ela teve alguns anos em Gilead, e para ela sou um estranho. É uma ideia que dá muito medo”, diz Fagbenle.

Como nas outras duas, a terceira temporada de O Conto da Aia tem semelhanças inquietantes como o nosso mundo de hoje. Os corpos das mulheres são controlados pelo governo, e seus direitos são questionados. O medo da mudança climática é real. Mas Fagbenle acha que a arte tem o poder de transcender nações e conectar pessoas de todo tipo, mesmo que seja por meio de uma série tão aterrorizante.

“Há muita frustração, especialmente nos Estados Unidos, de que as coisas estejam regredindo”, diz Fagbenle. “Acima de tudo, porém, [a série] trata dos relacionamentos entre mães e filhas, colegas e a deferência diante do poder – muita gente acha que não tem tanto poder quanto gostaria em suas vidas.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.