ENTRETENIMENTO
13/02/2019 11:56 -02 | Atualizado 13/02/2019 16:55 -02

'O Conto da Aia' inspira manifesto em vídeo com campeã de slam de SP

"Meu corpo sangra, senhor. Tem dó."

Montagem/Lucas Dias/Divulgação
Poesia da slammer Kimani fala sobre desejo de luta e mudança da realidade das mulheres.  

A primeira temporada de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) chegou ao Globoplay nesta semana. Para celebrar a estreia de uma das séries mais comentadas e premiadas da atualidade, a plataforma de streaming da TV Globo lançou no YouTube um vídeo com texto da poeta paulistana Kimani.

Intitulado Mostra Pra Eles, Mulher, o vídeo-manifesto traz imagens emblemáticas da série acompanhadas de uma contundente narração Kimani, grande vencedora do Slam SP em 2017

“A liberdade sempre foi palavra ausente no nosso vocabulário. Mulheres de um lado, liberdade do outro, nós nunca andamos do mesmo lado”, diz um dos trechos do texto que também aborda violências física e psicológica sofridas pelas mulheres no contexto da série e, sobretudo, fora dele. 

Assista ao vídeo no player abaixo:

 

Leia a poesia de Kimani abaixo:

Meu corpo sangra, senhor. Tem dó.
E há quanto tempo eles determinam nossas vidas.
Vestindo azul ou vermelho, no final, somos todas inimigas?
Eu não me reconheço “sob o olhar Dele”, nem a sua voz. Nos dividir e separar é o plano do algoz.
Eu sei. Cada um sabe bem a dor de ser o que é, mas quem é que quer sentir na pele o que passa uma mulher?
Abençoado seja o fruto! Criada pra servir a qualquer custo.
Só reproduzir, só reproduzir.
E desde quando o senhor se preocupa com o que eu vou sentir?
O que queres de mim, meu bom senhor?
Se eu tenho um preço, mas minha profissão não tem valor.
E eu digo
A liberdade sempre foi palavra ausente no nosso vocabulário. Mulheres de um lado, liberdade do outro, nós nunca andamos do mesmo lado.
E tá claro. Nós, “sexo frágil” do lar, somos o capacho.
Meu corpo ao outro pertence,
Meu corpo é só pertence.
Quarto de despejo não tem espaço pra quem sente.
E o que sente?
Que corpo treme ao deleito de outrem, mulher não tem direito a nada, só o outro tem.
Todos os dias um abuso, um corpo roubado e o gosto amargo de ser descartável.
Padrão tipo Offred, Ofglen. Perde o nome, a identidade e segue a sina.
- Reproduza, linda menina.
NÃO!
Minha luta nunca será em vão.
As minhas não tardarão, não silenciarão e a isso eu não me presto.

Mostra pra eles mulher, que estar viva por si só já é um manifesto.

Kimani é o nome artístico de Cinthya Santos. Nascida e criada no Grajaú, bairro do extremo sul de São Paulo, a jovem artista começou a escrever poesias aos seis anos de idade. Mais tarde, participou de projetos para a formação e educação de jovens por meio da arte. Em 2017, ela ganhou projeção nacional ao vencer o Slam SP, um dos maiores campeonatos de poesia falada no País.

 

Além do vídeo-manifesto, o Globoplay promoveu outra ação inédita de lançamento da série transmitida anteriormente no Brasil pela Paramount Channel: a exibição do primeiro episódio no Cine Globoplay, na TV Globo, na noite desta terça (12). 

Baseada no romance homônimo de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood e produzido originalmente pela plataforma de streaming Hulu, O Conto da Aia retrata um futuro distópico, onde a democracia dos Estados Unidos dá lugar a um governo opressivo e cristão.

Nesse contexto, as poucas mulheres férteis são forçadas a servirem como “aias” das famílias dos “comandantes”, a fim de aumentar a taxa de natalidade e criar um novo modelo de sociedade. A terceira temporada da série será lançada nos EUA em 5 de junho.