OPINIÃO
05/01/2020 10:24 -03 | Atualizado 05/01/2020 19:43 -03

Na era das fake news, Clint Eastwood defende seu herói com acusações sem provas

Ao acabar com a reputação de uma repórter já morta, diretor acaba estragando 'O Caso Richard Jewell', que, como cinema, é um bom filme.

Quando resolveu dar um tempo em sua jornada para retratar quem considera grandes heróis americanos da história recente, Clint Eastwood lançou, em fevereiro de 2019, A Mula, um filme que que discute o privilégio branco na América de forma supreendentemente honesta, desnudando sua própria condição de pré-“baby boomer” conservador que, mesmo um pouco atordoado, tenta se adaptar aos novos tempos.

Mas mesmo com 89 anos de idade, Clint parece um tubarão, que não pode ficar parado, e, em dezembro, já estava lançando seu 38º longa como diretor: O Caso Richard Jewel, que estreou no circuito brasileiro nesta quinta (2). Mais um episódio em sua busca por heróis tipicamente norte-americanos.

Assim como fez com Chris Kyle (de Sniper Americano), Chesley ‘Sully’ Sullenberger (de Sully - O Herói do Rio Hudson) e o trio Anthony Sadler, Alex Skarlatos e Spencer Stone (de 15h17 - Trem Para Paris), o velho Clint quer acertar contas com a história, mostrando que os verdadeiros heróis não usam cueca por cima da calça, não têm superpoderes e não são celebridades, mas homens comuns. Homens de bem.

Richard Jewel é um caso emblemático nesse contexto. Segurança de uma área de entretenimento durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, Jewell (interpretado com uma precisão absurda por Paul Walter Hauser) identificou que uma mochila abandonada durante em show de música poderia ser uma bomba.

Contra a indiferença de policiais e outros seguranças no local, ele iniciou um procedimento de evacuação da área que acabou salvando a vida de muita gente. A bomba realmente explodiu, matando duas pessoas e ferindo cerca de 100, mas a tragédia poderia ser muito maior. 

De início, Jewell foi celebrado como herói pela mídia, mas seu papel logo mudaria quando uma reportagem da jornalista Kathy Scruggs (vivida no filme por Olivia Wilde), do jornal The Atlanta Journal-Constitution, informou que, para o FBI, ele era o principal suspeito de ter plantado a tal bomba.

Divulgação
Olivia Wilde como a jornalista Kathy Scruggs.

A partir daí, a vida de Jewell e de sua mãe Bobi (Kathy Bates), com quem ele ainda morava, se transformou em um verdadeiro inferno.

Perseguido pelo FBI e pela mídia, que escarafunchava todos os podres de seu passado, Jewell busca a ajuda de Watson Bryant (Sam Rockwell), um advogado anti-establishment que ele conhecera anos antes, quando trabalhou no almoxarifado de uma firma de advocacia.

Porém, ao contrário de Bryant, que usa de todos os artifícios legais para defender seu cliente, Clint joga fora todo o discurso de A Mula e parte para o ataque machista contra Scruggs, que ele retrata em seu filme como uma repórter sensacionalista e que conseguiu seu furo apenas porque fez sexo com um agente do FBI, aqui interpretado por Jon Hamm.

Ou seja, para limpar a imagem de seu “herói”, o diretor difama, da forma mais baixa possível, a imagem de uma profissional que estava apenas fazendo o seu trabalho.

Tanto é que, assim que o filme foi lançado, ex-colegas de Scruggs - que morreu devido uma overdose acidental de medicamentos em 2001, com apenas 43 anos - e o próprio Atlanta Journal-Constitution deixaram muito claro que Scruggs sempre foi uma jornalista séria, e que insinuar que repórteres mulheres usem o sexo para conseguir informação é algo, no mínimo, desrespeitoso.

Em resposta, Eastwood (com a anuência de Olivia Wilde) disse apenas que se baseou em uma minuciosa pesquisa feita pelos roteiristas, sem entrar em mais detalhes e não mostrando qualquer fato que corrobore sua acusação contra Scruggs. Uma tática tão comum nos dias de hoje, a de desmerecer os fatos apontando provas que simplesmente não existem.

Uma pena, já que, não fosse por isso, O Caso Richard Jewell seria uma boa aposta da Warner para o Oscar 2020. No entanto, o estúdio já recuou, e o filme nem foi muito alardeado por aí. Aqui no Brasil, por exemplo, ele chegou ao circuito em uma semana com apenas mais dois lançamentos (Frozen 2 e O Farol), e pouco se fala sobre a produção. 

Como cinema, O Caso Richard Jewell é um bom filme. Que retrata com rara exatidão a figura do americano médio. Um cara simples e patriota que carrega consigo valores morais sólidos e quer o bem de sua comunidade. Mas ao se rebaixar ao nível de quem falsamente acusou Jewell (que morreu muito novo também, por problemas cardíacos aos 44 anos), Eastwood coloca tudo a perder, demonstrando que a mea culpa demonstrada em A Mula, não passava de fake news.