OPINIÃO
14/08/2020 05:00 -03 | Atualizado 14/08/2020 05:00 -03

'O Gigante de Ferro': A saga de uma das melhores animações de todos os tempos

Típico caso de estar no "lugar errado, na hora errada", o clássico incompreendido de Brad Bird hoje é venerado por crianças e adultos.

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Com uma história que evoca os moinhos de vento da ameaça comunista na América da década de 1950, O Gigante de Ferro é um daqueles casos clássicos de se estar “no lugar errado, na hora errada”. Aclamado pela crítica, o primeiro longa da carreira de Brad Bird foi recebido com frieza pelo público quando lançado, em 6 de agosto de 1999, e marcou a “morte” das animações 2D feitas do jeito tradicional, sem uso de computação gráfica.

Uma bela ironia, já que Bird acabou se tornando um dos diretores mais famosos do mundo quando o assunto é animação. Pois, 5 anos depois do fracasso de O Gigante de Ferro nas bilheterias, ele assinaria um tremendo sucesso de público no estúdio que popularizou o uso dos computadores nesse tipo de filme, a Pixar. Bird trouxe uma nova dinâmica ao estúdio criando e dirigindo Os Incríveis.  

À primeira vista, O Gigante de Ferro parece um filme fácil de se classificar. É uma história infantil que mostra a amizade entre um garoto, Hogarth Hughes, e um extraterrestre - no caso, um robô gigante - nos arredores de uma pequena cidade costeira do estado do Maine em 1957. Mas há muito mais além dessa sinopse aparentemente simples e por muita gente comparada a de E.T - O Extraterrestre (1982).

É fácil ver como um filme sobre um garoto incompreendido que faz amizade com um visitante do espaço sideral que o esconde do governo ser comparado ao clássico de Steven Spielberg. O sempre mordaz crítico Roger Ebert descreveu O Gigante de Ferro como “o E.T. no corpo de um homem de metal muito alto”. Mas Bird não gostou nada disso. Ele chegou a dizer em uma entrevista à revista Salon que “o E.T. não chutaria o seu traseiro”. Por trás do verniz fofinho e nostálgico evocando os desenhos de Norman Rockwell, o cineasta queria passar uma mensagem bem séria e muito pessoal. 

Da tragédia nasce o encanto

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Por mais contraditório que possa parecer, a morte foi um elemento essencial para o desenvolvimento de O Gigante de Ferro. A tragédia marca a origem tanto filme quanto do livro em que ele é baseado.

O escritor inglês Ted Hughes escreveu O Homem de Ferro, em 1968, para confortar seus filhos após o suicídio de sua esposa, a poetisa Sylvia Plath. Enquanto Bird conta que o assassinato de sua irmã foi decisivo no tom fortemente pacifista que ele deu à versão cinematográfica.

Ela foi morta com um tiro dado por seu próprio marido pouco depois do início da produção do filme, convencendo ainda mais o cineasta de que O Gigante de Ferro seria o veículo perfeito para uma mensagem contra as armas de fogo.

“Eu não estava pensando conscientemente sobre isso quando propus a ideia da adaptação à Warner Bros., mas meus sentimentos sobre o perigo das armas estava na ideia central do filme, que era a pergunta: ‘E se uma arma tivesse alma?’ No final, O gigante de Ferro é um filme dedicado a minha irmã Susan”, disse o cineasta à IndieWire.

Infelizmente, Hughes morreu um ano antes do filme ser lançado. Mas viveu o suficiente para ler o roteiro e mesmo com todas as liberdades que Bird tomou em relação ao seu livro, Hughes amou o script e exaltou o discurso anti-guerra da adaptação.

De filme que significou o fim de uma era para um venerado cult

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Curiosamente, O Gigante de Ferro foi muito bem recebido em sessões teste, mas 1999 foi reconhecidamente um dos anos mais prolíficos em relação a ótimos filmes lançados nos Estados Unidos, e a animação de Brad Bird parecia “datada”. Quando a Warner Bros. percebeu que tinha algo especial em suas mãos, já era tarde demais.

O filme foi muito mal divulgado em um ano que concorreu “apenas” com A Ameaça Fantasma, título que marcava o retorno da saga Star Wars depois depois de um hiato de 16 anos, e uma Pixar já totalmente estabelecida que lançava a sequência de seu primeiro longa: Toy Story 2

Mas o estúdio aprendeu a lição quando chegou a hora de promover o lançamento de O Gigante de Ferro nas locadoras. Eles fizeram uma inédita campanha de marketing em parceria com grandes marcas como a General Motors, a Kelloggs e a AOL. Assim, a imagem do gigante foi ficando cada vez mais popular. O que aguçou a curiosidade das pessoas para alugar o VHS.

No ano seguinte, em 2000, os direitos do filme foram vendidos para Cartoon Network, que começou a transmitir maratonas de O Gigante de Ferro em datas comemorativas como o Dia da Independência e de Ação de Graças, criando uma nova “tradição” e transformando o título em um dos mais queridos cults para todas as idades.

*O Gigante de Ferro está disponível no catálogo do HBO GO. E para aluguel no Looke, google Play e Apple TV.