OPINIÃO
24/07/2020 01:00 -03 | Atualizado 24/07/2020 01:00 -03

'O Enigma do Outro Mundo': De bomba nojenta a clássico que influenciou gerações

Ninguém gostou da obra-prima de John Carpenter em 1982, mas ela virou o filme de cabeceira de cineastas como Quentin Tarantino e Kleber Mendonça Filho.

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John Carpenter estava extremamente confiante naquele verão americano de 1982. Vindo de 3 produções independentes de sucesso como Assalto à 13ª DP (1976), Halloween - A Noite do Terror (1978) e Fuga de Nova York (1981), ele estava prestes a lançar seu primeiro filme por um grande estúdio e com um orçamento que nunca sonhara em ter nas mãos.

O Enigma do Outro Mundo era o seu projeto dos sonhos. Muito fã de Who Goes There?, de John W. Campbell, ele nem se importava com o fato de o livro já ter sido adaptado para o cinema em O Monstro do Ártico (1951), dirigido por Christian Nyby e Howard Hawks.

Sua versão seria muito mais fiel ao clima sombrio do texto de Campbell e, diferentemente do filme de Nyby e Hawks, Carpenter traria de volta uma característica essencial do romance de 1938 que não fez parte da trama de 1951: assim como no livro, seu monstro assumia a forma de suas vítimas, dando à trama o toque de paranóia que ele queria para O Enigma do Outro Mundo.

Nem 10 anos haviam se passado desde o fim de um dos capítulos mais traumáticos da história dos Estados Unidos, a Guerra do Vietnã, e a depressão pós-década de 1960 e a desilusão do escândalo de Watergate ainda batiam forte na alma dos americanos.

Bom, pelo menos era isso que o cineasta novaiorquino achava naquele verão. Mas o seu sonho se transformaria em pesadelo poucas horas depois da estreia, na noite do dia 25 de junho de 1982, quando alguns dos principais críticos da época destruíram seu filme, e o público, até então tão fiel, simplesmente não apareceu. 

O Enigma do Outro Mundo é um filme tolo, deprimente e superproduzido que mistura horror com ficção científica para criar algo que não é divertido em nenhuma das duas coisas. Parece que ele aspirava a ser o filme idiota por excelência dos anos 80; é um filme falso demais para ser considerado nojento. É um lixo instantâneo.” - Vincent Canby (The New York Times).

O Enigma do Outro Mundo é ótimo como saco de vômito. Um filme nojento que serve apenas a adolescentes que quiserem saber quem deles é o que tem mais estômago para assistir ao que está acontecendo na tela.” - Roger Ebert (Chicago Sun-Times).

“Fiquei bastante surpreso com aquela reação. Eu fiz um filme realmente pesado e sombrio, mas eu pensei que o público de 1982 queria ver exatamente aquilo”, confessou Carpenter em uma entrevista.

Onde será que o até então bem-sucedido diretor havia errado? 

Um filme ultrapassado e à frente do seu tempo

Divulgação
Kurt Russel como o herói acidental R.J. MacReady.

Em O Enigma do Outro Mundo, no início do inverno na Antártica, os integrantes da estação científica dos Estados Unidos são surpreendidos com um helicóptero perseguindo um cachorro. Da aeronave saltam dois noruegueses, e um deles, que aparenta estar louco, tenta atirar no bicho, acertando a perna de um dos americanos.

Depois de matar o homem, eles acolhem o cachorro na base e um grupo é formado para investigar o que teria acontecido na base norueguesa. Entre eles, o piloto de helicóptero R.J. MacReady (Kurt Russell). Lá, eles descobrem que os noruegueses encontraram uma nave espacial que caiu na Terra há milhares de anos.

De volta à sua base levando um estranho cadáver parcialmente queimado encontrado na área ocupada pelos noruegueses, os americanos descobrem, da pior forma possível, que junto com a nave, seus colegas europeus também encontraram um corpo congelado de um extraterrestre que tem a capacidade de absorver e imitar a forma de seres vivos. Ou seja, qualquer um do grupo pode ser, na verdade, o inimigo.

Se discussões sobre isolamento e paranoia, tão comuns nos anos 1970, parecem tão atuais em um mundo inundado por fake news e encarcerado em meio à pandemia do coronavírus, em 1982, parecia algo já muito datado.

Um bom exemplo disso é o grande sucesso daquele ano: E.T. - O Extraterrestre, que, para o azar de Carpenter, havia estreado nos cinemas americanos apenas duas semanas antes de seu filme. 

Todo mundo queria ver um alienígena bonzinho e amigo das crianças que só queria voltar para a sua casa, não um bando de homens sujos e confinados em uma caixa no meio do nada, que mal conseguem conviver em harmonia e que agora eram caçados por um monstro gosmento que imitava sua aparência, fazendo o clima de desconfiança entre eles deixar as coisas ainda mais tensas.

A era do presidente Ronald Reagan se vendia como uma época de otimismo, patriotismo e heróis bem definidos. Princípios que não tinham nada a ver com o relutante e desconfiado MacReady, um líder por acaso que não inspira admiração. Ele é apenas um ser vivo tentando sobreviver, assim como o monstro vindo do espaço.

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Os incríveis efeitos especiais práticos do mago da maquiagem Rob Bottin ainda impressionam e, claro, causam nojo, muito nojo.

Aliás, essa relação ambígua entre os humanos e o extraterrestre é uma das chaves para o fracasso de O Enigma do Outro Mundo em seu lançamento, mas também a de seu posterior sucesso, quando foi lançado em VHS e construiu uma base numerosa e fiel de fãs. Seu final sombrio e cheio de dúvidas provou-se à frente de seu tempo, conquistando o coração de jovens na passagem para os anos 1990.

Tanto que influenciou uma série de cineastas que viriam a brilhar nas décadas seguintes, como o americano Quentin Tarantino e o brasileiro Kleber Mendonça Filho. Preste atenção nos créditos iniciais de Bacurau e você verá o quanto O Enigma do Outro Mundo é especial para o diretor pernambucano. 

Ao mestre com carinho

Divulgação/Montagem
Russel em "O enigma de Outro Mundo" e "Os Oito Odiados".

Tarantino é tão fanático pelo cinema de John Carpenter e, em especial, por O Enigma de Outro Mundo, que a produção de 1982 tem influência direta em 2 de seus filmes: Cães de Aluguel (1992) e Os Oito Odiados (2015).

Tarantino sempre admitiu que a ideia base para seu longa de estreia foi O Enigma de Outro Mundo, mesmo que a história de Cães de Aluguel não tenha absolutamente nada de terror ou ficção científica. O que ele captou da trama de Carpenter foi o clima de desconfiança em um grupo heterogêneo de homens obrigados a trabalhar juntos, mas algo dá muito errado no processo.

Mas foi em Os Oito Odiados que ele estreitou de vez sua relação de amor pelo filme de Carpenter. Além de também mostrar um grupo de pessoas confinadas em um local no meio de uma nevasca, ele deu um dos papéis principais para Kurt Russell, o “muso” de Carpenter.

E não ficou só nisso.

A trilha sonora de Os Oito Odiados, assinada pelo genial Ennio Morricone (que ganhou seu único Oscar de trilha com ela), é recheada de faixas de O Enigma de Outro Mundo não utilizadas por John Carpenter.

E adivinhe quem era o compositor dessas faixas... Isso mesmo, Morricone, que não se adaptou muito bem ao estilo cheio de sintetizadores preferido por Carpenter, que assina boa parte das trilhas de seus próprios filmes. Ah, e só para lembrar: há faixas do próprio Carpenter na trilha de Bacurau.

Mesmo tendo tão poucas faixas utilizadas no filme de 1982, Morricone - que nos deixou há pouco menos de um mês, no dia 6 de julho - ainda foi injustamente indicado a um Framboesa de Ouro de Pior Trilha Sonora.   

O legado de O Enigma do Outro Mundo

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Gary (Donald Moffat),  MacReady (Russel) e Copper (Richard Dysart) descobrem a ameaça que veio do espaço.

Mesmo venerado por cineastas mais novos que têm ele como um mestre e por um numeroso exército de cinéfilos, John Carpenter demorou para se recuperar do tombo. Seu contrato de 6 filmes com a Universal foi rompido pelo estúdio, que preferiu pagar a multa ao diretor a trabalhar com ele novamente.

Carpenter então voltou às produções independentes e ainda fez ótimos filmes na década de 1980, como Christine, o Carro Assassino (1983), Starman - O Homem das Estrelas (1984), Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), Príncipe das Sombras (1987) e Eles Vivem (1988). Mas nunca mais teve a chance de contar com o aporte financeiro de um grande estúdio de Hollywood. 

Mas exatamente por ser esse eterno outsider e muito por conta da atemporalidade do clima - e dos incríveis efeitos especiais práticos de Rob Bottin (um gênio da maquiagem) - de O Enigma de Outro Mundo, John Carpenter se transformou no herói de cineastas inconformistas e inconformados. Um legado à margem do cinema certinho e inofensivo dos executivos de Hollywood. 

*O Enigma do Outro Mundo pode ser encontrado atualmente no catálogo da Netflix.