OPINIÃO
21/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 21/08/2020 02:00 -03

'O Castelo de Cagliostro': Miyazaki menos conhecido já mostrava a genialidade do mestre do Studio Ghibli

Estreia do animador japonês é um filme de ação de alta octanagem que influenciou até a Pixar.

HuffPost
cara

Antes do lendário Studio Ghiblisequer existir, antes de Nausicäa do Vale do Vento fazer de Hayao Miyazaki um deus entre os fãs de anime e de A Viagem de Chihiro fazer a mesma coisa entre todos os outros seres humanos no planeta Terra, o mestre da animação japonesa dava os primeiros indícios do que era capaz em O Castelo Cagliostro (1979), sua estreia em longas e o título menos conhecido de sua filmografia impressionante.

Mesmo que este seja o primeiro e único título em que Miyazaki tenha trabalhado com uma ideia não original, já podemos distinguir algumas marcas registradas de seu estilo desde o primeiro frame, como suas paisagens brilhantes de verão, o senso impecável de geografia, a importância que dá à arquitetura... Características normalmente colocadas à serviço de reflexões sobre o impacto do homem na natureza ou relacionadas à nossa própria existência e mortalidade, mas que aqui são pura e simplesmente elementos de fundo para um ótimo filme de ação que, como veremos mais para frente, influenciou muita gente.

Criado por Kazuhiko Katō (mais conhecido como Monkey Punch), Lupin III não era um estranho para Miyazaki. Ele já havia co-dirigido a primeira série de TV protagonizado pelo personagem, um sucesso nos mangás (as HQs janponesas) e dirigiu dois episódios de uma segunda série. Mas em sua estreia em longas, o animador não se restringiu apenas a levar o ladrão cavalheiro das páginas para a telona. Por mais que fosse um trabalho por encomenda, Miyazaki imprimiu seu estilo e fez mudanças drásticas no tom bem mais imoral e violento do anti-herói de Monkey Punch.

O Castelo de Cagliostro segue o ladrão Arsène Lupin III após roubar um cassino em Montecarlo com a ajuda de seu parceiro Daisuke Jigen. Um trabalho que ele já havia identificado no pequeno minúsculo reinado de Cagliostro. No caminho para lá a fim de resolver esse mistério, a dupla ajuda uma noiva em fuga e descobre que ela é a princesa Clarice, que está prometida ao maligno Conde de Cagliostro. 

Mas, afinal, quem é Lupin III?

Divulgação
Com Miyazaki, Lupin III lembra mais seu "avô" nascido na literatura, Arsène Lupin, o ladrão cavalheiro.

Lupin III é neto do famoso ladrão cavalheiro da série literária de Maurice Leblanc, Arsène Lupin ― uma resposta francesa ao inglês Sherlock Holmes. Tanto que o título do filme faz alusão a La Comtesse de Cagliostro (A Condessa de Cagliostro, o título de uma aventura Arsène Lupin original de Leblanc).

Mas diferente de seu “avô”, o Lupin III de Katō não tinha nada de cavalheiro. O quadrinista transformou seu personagem em um tipo de James Bond ainda mais misógino e implacável que o célebre agente secreto de Ian Fleming.

Uma visão que nunca se encaixaria no estilo de um herói de Miyazaki. Mas sua visão mais suave do personagem ajudou a popularizá-lo fora do Japão e do nicho dos mangás. Com sequências que misturam ação de alta octanagem e comédia pastelão às vezes bem ingênua, O Castelo Cagliostro é uma aventura que ajudou a disseminação dos animes no ocidente e é até hoje considerado por muitos fãs como um dos melhores da história.

Em Cagliostro, Lupin é mais heróico, embora de forma não convencional. Ele tem aquela arrogância boêmia do original de Monkey Punch, sorrindo e cambaleando entre uma perseguição usando seu icônico blazer verde e gravata e um simpático Fiat 500 ao invés do Mercedes “igual ao de Hitler” descrito por Katô no mangá.

Um filme mais influente do que você imagina

Sabe Os Caçadores da Arca Perdida? Há quem diga que estreia de Indiana Jones na telona deve muito a O Castelo Cagliostro. Uma lenda, nunca confirmada, diz que Steven Spielberg viu uma exibição da estria de Miyazaki pouco antes de iniciar as filmagens de Caçadores, no início dos anos 1980. Ao que tudo indica, o diretor americano ficou impressionadíssimo com a sequência da perseguição de carros logo no início de Cagliostro, tanto que a classificou como “uma das maiores sequências de perseguição já filmadas”.

Mesmo que essa história com Spielberg seja apenas boato, a influência do filme com outros cineastas famosos é mais do que comprovada. Em um discurso no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, em agosto de 2014, John Lasseter (diretor dos dois primeiros Toy Stoy), um dos fundadores da Pixar, disse que a influência de Miyazaki em sua própria vida e trabalho começou quando ele viu um trecho de Cagliostro pela primeira vez.

Em As Peripécias de um Ratinho Detetive, um filme da Disney de 1986 dirigido por John Musker e Ron Clements - apenas os caras responsáveis pelo renascimento do estúdio dos anos 1990 com A Pequena Sereia e Aladdin - faz uma homenagem direta a Cagliostro na sequência climática do filme, no Big Ben, uma clara referência à luta na torre do relógio entre Lupin III e o Conde Cagliostro. Essa mesma sequência do relógio aparece em The Clock King, um episódio da hoje icônica série animada televisiva Batman: The Animated Series (1992 - 1995).

Gary Trousdale, co-diretor de Atlantis - O Reino Perdido, outra animação da Disney, de 2001, admitiu que uma cena no final do filme, onde as águas recuam da cidade submersa, foi diretamente inspirada no final de O Castelo Cagliostro

Ou seja, mesmo quando não era exatamente o Hayao Miyazaki que conhecemos e reconhecemos de seus trabalhos no Studio Ghibli, ele já conquistava corações e mentes de profissionais que fariam o mesmo anos depois de ver essa pérola que é O Castelo Cagliostro

*O Castelo Cagliostro está disponível no catálogo da Netflix e Amazon Prime Video.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost