ENTRETENIMENTO
11/09/2020 05:00 -03 | Atualizado 11/09/2020 07:52 -03

'Era uma vez na América': O épico dos sonhos que se transformou no pesadelo de Leone

Até hoje ninguém viu a versão completa da grandiosa história de gângsteres judeus que custou a vida de Sergio Leone, o "mestre" de Quentin Tarantino.

HuffPost

Mesmo com apenas sete filmes no currículo, Sergio Leone é considerado um dos maiores diretores da história do cinema. Admirado (e muitas vezes até copiado) por outros cineastas, sendo o mais famoso deles Quentin Tarantino, o italiano ficou famoso por seus westerns que inauguraram um novo gênero, o do faroeste espaguete. 

Porém, seus dois projetos mais queridos não tinham nada a ver com cowboys duelando ao pôr do sol. Um deles, que nunca foi realizado, era sobre o cerco nazista a Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial. Mas o outro ele conseguiu filmar. O problema é que o sonho de seu épico sobre a ascensão e queda de gângsteres judeus na Nova York dos anos 1920 a 1960 se transformou em um verdadeiro pesadelo. Estamos falando de Era uma vez na América(1984).

Leone começou a montar o filme em sua cabeça assim que terminou de ler The Hoods, romance semi-autobiográfico de Harry Gray (pseudônimo de Herschel Goldberg). Na época, ele estava no meio das filmagens de Era uma vez no Oeste (1968). Ele ficou tão obcecado com a história que recusou uma proposta que não poderia recusar. A Paramount lhe ofereceu nada mais, nada menos, que O Poderoso Chefão (1972). Como já sabemos, ele, educadamente, declinou, sem saber que só conseguiria filmar Era uma vez na América 12 anos depois do convite aceito pelo jovem e inexperiente Francis Ford Coppola.

Isso só mostra o quanto esse projeto era especial para Leone e que ele faria qualquer coisa para realizá-lo. Até se submeter a uma regra que ele mesmo sabia que nunca poderia cumprir.

Divulgação
A icônica tomada de "Era uma vez na América", com a Ponte do Brooklyn ao fundo. 

Ciente da extrema dificuldade de Leone em entregar um filme com menos de duas horas - algo que aconteceu apenas em Por um Punhado de Dólares (1964) - a Warner Bros. topou financiar o projeto contanto que Era uma vez na América não excedesse 165 minutos de duração, ou seja 2h45. 

Ao invés disso, o cineasta entregou uma versão final de 229 minutos, ou seja, imensas 3h49! E isso depois de supervisionar uma edição que contou um um corte extenso de material. A versão bruta, sem os cortes, é até hoje um dos cálices sagrados do cinema. Dizem que o próprio Leone e o editor Nino Baragli foram as únicas pessoas no mundo a vê-la.

A pré-produção e as filmagens já tinham cobrado seu preço na saúde do diretor italiano, famoso por seu modo hedonista e glutão de ser, mas nada o tinha preparado para o inferno que ele teria de passar ao lidar com os executivos da Warner Bros. Nos Estados Unidos, a produtora lançou uma versão toda picotada de apenas 144 minutos (2h24) contada de forma linear, destruindo a narrativa de Era uma vez na América.

“Eu espero que eles queimem a porra do negativo!”, teria dito o ator James Woods ao ver a versão frankenstein que a Warner lançou em território americano, que, claro, foi destruída pela crítica e se transformou em um imenso fracasso comercial mesmo com a boa recepção na Europa, que assistiu uma versão bem mais próxima da visão do diretor.

Extremamente desgostoso, Leone até chegou a desenvolver as ideias iniciais de Stalingrado, mas o drama e todo o estresse que passou por conta de Era uma vez na América cobraram seu preço e ele acabou não resistindo a um ataque cardíaco fulminante em 1989, aos 60 anos. Era uma vez na América foi seu último filme.

Uma baita de uma ironia, já que Era uma vez na América trata exatamente da passagem inexorável do tempo. Desde o início do filme, o tempo é manipulado por Leone, que nos entrega uma narrativa não linear que salta entre diferentes décadas e que às vezes dá até a impressão que o que estamos vendo pode não ser real, mas uma viagem de ópio de Noodles (Robert De Niro).

Aliás, o que nos leva a saber mais sobre a história.

A trama

Divulgação/Montagem
As versões jovens e adultas de Cockeye, Patsy, Max e Noodles.

A história começa na Nova York da década de 1930, quando três gângsteres procuram um homem em um antro de ópio escondido atrás de um teatro chinês em Chinatown. O alvo deles é Noodles, um integrante de uma gangue judia que teria traído seus colegas. Mas ele não está mais no local, e some por mais de 30 anos, escondido em outra cidade sob um pseudônimo. Até que ele resolve voltar depois de receber uma carta de alguém que sabe sua verdadeira identidade. 

No início dos anos 1920, David “Noodles” Aaronson (Scott Tiler) e seus colegas Patrick “Patsy” Goldberg (Brian Bloom), Philip “Cockeye” Stein (Adrian Curran) e Dominic (Noah Moazezi) viviam de cometer pequenos crimes nas ruas do Lower East Side, em Manhattan até que cruzam com Maximillian “Max” Bercovicz (Rusty Jacobs), que lhes passa a perna em um furto, mas que acaba se juntando a eles na gangue. Após chantagear um policial local, a gangue de meninos prospera, mas um confronto com um rival acaba levando Noodles para a prisão. 

Anos depois, um Noodles já adulto (De Niro) deixa a cadeia e descobre que seus amigos Max (James Woods), Patsy (James Hayden) e Cockeye (William Forsythe) acabam se transformando em uma violenta e implacável quadrilha que passa a controlar o contrabando de álcool no Lower East Side durante a Lei Seca.

Já de volta ao esquema com sua gangue, Noodles procura seu grande amor de infância, Deborah (Jennifer Connelly/Elizabeth McGovern), que era um ponto de conflito entre ele e Max. Mas o encontro dá muito errado, e ela segue seu sonho de se tornar uma atriz famosa em Hollywood.

Noodles segue com sua gangue por anos até que a Lei Seca é revogada e Max fica obcecado com a ideia de assaltar o Banco da Reserva Federal de Nova York. Mas Noodles considera o plano uma missão suicida e, para preservar a vida do amigo, o delata para a polícia. No entanto, as coisas não saem como Noodles esperava.

Curiosidades

Divulgação
Robert De Niro e Sergio Leone nas filmagens de "Era uma vez na América".

Além da batalha de Leone com a Warner, a produção de Era uma vez na América é recheada de curiosidades e causos interessantes. Do envolvimento do famoso escritor Norman Mailer a uma briga do diretor com De Niro envolvendo uma tampa de privada suja de xixi. 

Conheça aqui algumas dessas histórias: 

Como roteirista, Norman Mailer era um ótimo escritor

Vencedor de dois prêmios Pulitzer, o famoso escritor americano Norman Mailer, autor de livros como Os Nus e os Mortos (1948), Um Sonho Americano (1965), Os Exércitos da Noite (1968) e A Canção do Carrasco (1979), tentou transformar o enorme esboço de Leone em um roteiro coerente, mas o cineasta italiano não ficou nada impressionado. “Lamento dizer, ele deu à luz uma versão do Mickey Mouse do filme. Aos meus olhos, que sou um velho fã dele, Mailer não é um bom roteirista”, afirmou Leone em uma entrevista à revista American Film. 

As confusões com Robert De Niro

De acordo com a biografia De Niro: A Life, de Shawn Levy, em 1973, na primeira vez em que Leone o abordou para contar sobre seu projeto, que não tinha sequer um roteiro escrito, De Niro não se empolgou muito. Primeiro porque ele nem entendeu o cineasta direito, porque Leone falava um inglês quase incompreensível, e segundo porque ele nunca tinha ouvido falar no diretor.

Ano depois, já tendo lido o roteiro e sabendo quem era Leone, De Niro fez de tudo para fechar negócio. O produtor israelense Arnon Milchan - que era um espião, mas essa história fica para demais - até marcou uma reunião em um quarto de hotel em Nova York. Mas quando De Niro foi ao banheiro, voltou possesso. O motivo? Leone teria deixado escapar algumas gotas de xixi na tampa do vaso.

O ator achou que aquele era um recado, como se o cineasta italiano tivesse “marcado território” e iria desistir do projeto. Mas Milchan o convenceu que aquilo tinha sido apenas um acidente, que Leone não tinha feito aquilo por mal.

Mas De Niro também era alvo de críticas. Seu colega de elenco James Woods não suportava seu estilo de atuação instintivo que ficou conhecido como “o método”.

“Estou cansado da besteira do Actors Studio que arruinou filmes por 40 anos. Todos esses caras correndo por aí fingindo que são nabos - eles são irritantes pra c...! Você está tentando fazer algumas fotos e eles estão com um treinador reclamando que eles não podem sentir isso, não podem sentir aquilo. Basta dizer as falas e vá em frente!”, disparou Woods em uma de suas famosas e polêmicas frases.

Ninguém nunca viu a versão “completa” de Era uma vez na América

Após nove meses, Leone tinha quase dez horas de filmagem. Seu plano inicial era diminuir para seis e dividir o filme em suas partes de seis horas (251 minutos), mas nem ele gostou disso e apresentou à Warner uma versão de pouco mais de quatro horas que, claro, não foi aceita pela Warner.

Somente a terceira versão, com 229 minutos - a que está disponível em streaming no Brasil - foi “aprovada”, estreando no Festival de Cinema de Cannes em 1984, e que foi exibida nos cinemas europeus.

Após anos da ridícula versão americana que cortou 90 minutos da europeia, Martin Scorsese liderou um movimento para restaurar aquela versão de 251 minutos, a mais próxima da visão de Leone. O plano era lança-la em Cannes em 2012, mas 18 minutos ainda estavam faltando devido a questões legais. Essa “versão do diretor”, com 18 minutos a menos, acabou sendo lançada nos EUA em DVD e Blu-ray só em 2014.

*Era uma vez na América está disponível no catálogo do Amazon Prime Video e Telecine Play.