OPINIÃO
31/07/2020 02:00 -03 | Atualizado 31/07/2020 11:18 -03

'Ensina-me a Viver': O caso de amor entre um garoto de 20 e uma mulher de 79 que tocou o mundo inteiro

Um dos cults mais queridos da história, filme de Hal Ashby rompeu tabus falando de amor e aceitação ao som das canções de Cat Stevens.

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Para muita gente, pode ser difícil imaginar que a história de amor entre um garoto de 20 anos e uma mulher de 79 poderia tocar os corações do mundo todo, ainda mais no momento extremamente conservador que vivemos hoje. Mas a comédia dramática Ensina-me a Viver fez isso no início da década de 1970. Claro que sem antes enfrentar uma boa dose de preconceito.

Como é até bem comum acontecer com filmes que quebram tabus, a obra-prima do diretor americano Hal Ashby foi logo rejeitada pela crítica e pelo público quando foi lançada nos cinemas, em dezembro de 1971.

“A idéia de um garoto de 20 anos com uma mulher de 80 apenas fez as pessoas quererem vomitar. Se você perguntasse às pessoas do que se tratava o filme, elas falariam que era sobre um garoto que estava transando com sua avó”, disse o crítico Charles Mulvehill ao escritor Peter Biskind em seu livro Como a Geração do Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood

Mas com o tempo (e nem demorou tanto assim), sua mensagem de amor e aceitação foi conquistando uma legião de fãs. Entre eles, cineastas hoje bem famosos, como Cameron Crowe, Alexander Payne, Wes Anderson e Judd Apatow. Este último, aliás, deu até o nome de Maude (a personagem de Ensina-me a Viver) para sua filha mais velha.

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A famosa cena em que Bud Cort, inesperadamente, quebra a quarta barreira, transformando o público em "cúmplice" de Harold.

Ensina-me a Viver conta a história de Harold (Bud Cort), um garoto rico de 20 anos que tem uma estranha obsessão com sua própria morte, infernizando a vida de sua mãe com encenações de suicídio. Habitué de funerais, é em um deles que ele conhece Maude (Ruth Gordon), uma mulher de 79 anos que faz tudo que lhe dá na telha sem medir as consequências.

A mãe de Harold tenta de tudo para “endireitá-lo”, até pedir ajuda a seu tio militar para encontrar uma esposa para o filho. Enquanto isso, Harold descobre as belezas (e tristezas também) da vida no espírito livre de Maude, por quem ele acaba se apaixonando. Ela, porém, já tem planos para sua vida assim que completar 80 anos.

A força da amizade

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Ruth Gordon e Hal Ashby no set de filmagens de "Ensina-me a Viver".

Ensina-me a Viver traz com magia discurso de rebeldia contra o sistema, amor, aceitação e amizade. Se não fossem os fortes laços que surgiram entre Ashby e Cort desde o primeiro teste do ator que viria a ser um dos protagonistas, o filme nunca teria saído do jeito que o cineasta queria e talvez nunca alcançasse o status de um dos cults mais amados da história.

Além das muitas contribuições artísticas de Cort ao filme, como a famosa cena em que ele inesperadamente quebra a quarta parede, fazendo do público um “cúmplice” de Harold, o jovem e promissor ator se recusou a promover Ensina-me a Viver se a Paramount não desse total liberdade a Ashby na edição de seu filme.

E olha que a parada era dura, pois um dos principais executivos do estúdio, o lendário Robert Evans teria feito de tudo para tirar o poder criativo do cineasta sobre sua obra. Reza a lenda que a atriz Ali MacGraw (estrela de Love Story), então esposa de Evans, obrigou o marido a cortar uma cena de sexo entre Harold e Maude.

“Ashby queria mostrar a beleza da pele jovem junto com a velha, algo que ele sabia que a geração mais jovem, os hippies, as massas de mente aberta iriam entender, mas Evans disse que aquilo repeliria a maioria das audiências”, disse Nick Dawson, biógrafo do diretor, no livro Being Hal Ashby.

No fim das contas, a vontade (e boas conexões) de Cort prevaleceu, e o cineasta pôde fazer, para a nossa alegria, o filme que queria. Ele até conseguiu incluir a tal cena de sexo em uma versão de um trailer do filme. 

Outra forte amizade nasceu com o filme, entre os protagonistas Cort e Ruth Gordon. Segundo o ator contou ao jornal inglês The Guardian, a atriz teve um papel fundamental quando ele, pouco depois do lançamento de Ensina-me a Viver, perdeu seu pai, que morreu com apenas 50 anos.

“Ela me ligou na manhã seguinte à morte de meu pai e disse: ‘Querido, deixe-me contar sobre o dia em que meu pai morreu’ e contou tudo. De repente, éramos os personagens que interpretamos. A partir daquele momento, essa foi uma das amizades mais importantes que já tive. Ela era uma mulher incrível”, confessou Cort.

A trilha sonora que fez de Cat Stevens uma estrela mundial

ANGELA WEISS via Getty Images
O cantor e compositor britânico Yusuf Islam, que um dia já foi conhecido como Cat Stevens, ficou afastado dos palcos por 35 anos depois que se converteu ao islamismo.

Um dos aspectos mais marcantes de Ensina-me a Viver é sua trilha sonora com músicas do cantor e compositor inglês Cat Stevens. Curiosamente, ele não foi a primeira opção de Ashby para a tarefa. O diretor sugeriu à Paramount contratar Elton John, mas Elton não topou e indicou o amigo Cat Stevens.

São essas coisas do destino, já que mesmo utilizando música previamente compostas que fazem parte de dois álbuns de Stevens (Mona Bone JakonTea for the Tillerman, ambos de 1970), elas se encaixaram no filme de Ashby como uma luva. Tanto que o cineasta usa e abusa delas em Ensina-me a Viver.

Stevens - que se converteu ao islamismo, mudou seu nome para Yusuf Islam, abandonou a carreira em 1978 e retornou aos palcos depois de longos 35 anos - já era bem conhecido no Reino Unido à época, mas se transformou em uma estrela mundial por conta do filme ― o veículo perfeito para suas letras que falavam de liberdade e amor à vida.

Aqui, uma nota pessoal: Conheci Ensina-me a Viver exatamente por conta das músicas de Cat Stevens/Yusuf Islam. Assim que vi o filme no cinema, meu pai virou um grande fã dele e eu cresci escutando toda a discografia do artista britânico, que meu pai guardava com muito cuidado e carinho em sua coleção de LPs.

Curioso para escutar? Então ouça aqui as canções de Ensina-me a Viver:


*Ensina-me a Viver está disponível no catálogo do Amazon Prime Video e Telecine Play. E para aluguel na Apple TV e Microsoft Store.