OPINIÃO
04/09/2020 03:00 -03 | Atualizado 04/09/2020 08:01 -03

'Cão Branco': A incompreendida alegoria antirracista que acabou com a carreira de um grande diretor

Banido dos cinemas, filme de Sam Fuller se transformou quase em uma lenda urbana e só foi reconhecido décadas depois de seu lançamento.

HuffPost

O mítico diretor Samuel Fuller já tinha 70 anos quando viu seu novo filme, Cão Branco, ser retirado de cartaz por seu próprio estúdio, a Paramount, após ficar apenas uma semana em cartaz na cidade de Detroit, em novembro de 1982. Era a crônica de uma morte anunciada de um filme que foi injustamente acusado de ser racista antes mesmo de ser terminado.

Desiludido, o cineasta se mudou para a França e nunca mais voltou a filmar nos Estados Unidos até a sua morte, em 1997.

Ironicamente, esse “cancelamento” transformou Cão Branco quase que em uma lenda urbana em seu país de origem, onde só se podia vê-lo em uma cópia de péssima qualidade em esparsas sessões da madrugada em algum canal de TV a cabo ou em raras cópias em VHS.

E foi assim, no underground, que o filme começou a ser visto de fato como uma alegoria antirracista com o estilo sensacionalista, porém sensível, que sempre foi a marca registrada de Fuller, um dos poucos cineastas que conseguiam ser independentes no antigo e tirânico sistema de estúdios da velha Hollywood.

Cão Branco ganhou uma cópia decente apenas em 2008, quando a prestigiada The Criterion Collection lançou um DVD dos mais caprichados. 

Na trama, a jovem atriz Julie Sawyer (Christy McNichol) atropela um pastor alemão branco em uma estrada em Los Angeles. Ela socorre o cachorro ferido e o leva para casa. Com o passar dos dias, ela vai se afeiçoando ao animal, que chega até a salvá-la de um ladrão que invade sua casa.

Porém, uma série de atitudes violentas do cão a fazem descobrir que ele é um “cão branco”, um cachorro treinado por racistas para atacar negros. Sem saber o que fazer com o bicho, Julie o leva para um tipo de escola que treina animais para participar de filmes. Lá ela conhece Keys (Paul Winfield), um treinador negro que quer “desprogramar” o racismo ensinado ao cão. 

Quem era Sam Fuller?

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O cineasta Samuel Fuller no set de filmagem com um dos cinco cães que "interpretaram" o protagonista/vilão de "Cão Branco".

Fuller começou a vida como repórter policial aos 17 anos, e, depois de algum tempo cobrindo cenas de crime sangrentas, começou a escrever romances pulp e roteiros com histórias policiais. Mas aí veio a Segunda Guerra Mundial e Sam foi lutar no Norte da África, Itália e França, chegando até a participar da libertação de um campo de concentração.

Já de volta aos EUA, motivado por sua raiva acumulada em anos de jornalismo policial e, claro, por suas experiências na guerra, além do ódio que sentiu ao ver seu roteiro de À Prova de Choque ser, segundo ele, destruído por Douglas Sirk (o papa do melodrama americano), Fuller migrou para a direção.

Assim, ele teria total controle de suas histórias de um realismo pulp quase jornalístico, às vezes até grosseiro e sempre questionador e combativo, como Anjo do Mal (1952), Dragões da Violência (1957), Paixões que Alucinam (1963) e O Beijo Amargo (1964), alguns de seus melhores trabalhos.

Seu cinema era a definição do termo “popular”, mas nunca simplista. Fuller queria entreter, mas também provocar discussões, tanto que, com o passar do tempo, influenciou gerações de cineastas de estilos tão distintos como Jean-Luc Godard, Wim Wenders, Martin Scorsese, Jim Jarmusch e Quentin Tarantino.

As polêmicas

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Paul Winfield, simplesmente espetacular como treinador Keys, em "Cão Branco".

Antes de ser filmado, Cão Branco enfrentou sua primeira polêmica. Com base no livro de mesmo nome escrito por Romain Gary em 1970, o veterano Sam Fuller entrou no projeto a convite de um jovem roteirista que era seu fã, Curtis Hanson, que acabaria ganhando um Oscar de Melhor Roteiro muitos anos depois, com Los Angeles - Cidade Proibida (1997). A Paramount queria que o filme fosse dirigido por Roman Polanski, mas o diretor polonês acabou fugindo dos EUA após ser acusado de estupro.

Como Fuller tinha acabado de dirigir Agonia e Glória (1980), depois de um hiato de 11 anos sem filmar praticamente nada, os executivos do estúdio foram convencidos por Hanson de que ele era o nome certo para comandar as filmagens. Um cineasta experiente, que escreveu o roteiro do filme e que ainda tinha muito prestígio entre a velha guarda de Hollywood.

Fuller topou de cara, já que em muitos de seus filmes ele já havia tocado em questões raciais. Porém, antes mesmo de começar a filmar, a Paramount começou a ser bombardeada por protestos de associações ligadas ao movimento negro, como a NAACP e BADC, e até por líderes dos direitos civis, que, baseados na repercussão do livro de Gary, temiam que o filme estimulasse a violência racial.

No entanto, Fuller tentou acalmar os ânimos mostrando que sua ideia era fazer com seu filme fosse uma alegoria antirracista, fazendo grandes mudanças no texto original. No livro, por exemplo, o treinador negro “reprograma” o cão para atacar pessoas brancas, já seu Keys aceita treinar o pastor alemão para curá-lo, acreditando que o racismo não é algo inato, mas é ensinado. 

Receosos com o que poderia acontecer, a Paramount deu um prazo bem apertado e um orçamento limitado para Fuller, que filmou Cão Branco em apenas 45 dias a um custo de US$ 7 milhões. Isso sem falar que todo o processo de filmagem foi acompanhado por Willis Edwards, vice-presidente da sede do NAACP de Los Angeles, e David L. Crippens, vice-presidente da PBS, a rede de televisão estatal americana.

Após o término das filmagens, até os “fiscais” acabaram discordando um do outro. Crippens afirmou que havia captado a ideia de Fuller e não viu qualquer conotação racista em Cão Branco. Já Edwards achou o filme inflamatório e aconselhou o estúdio a não lança-lo, ainda mais naquele ano, em que uma série de assassinatos de crianças negras em Atlanta ganhava as manchetes dos jornais. 

Na dúvida, a Paramount fez, sem muito alarde, um minilançamento em Detroit como teste e acabou se convencendo que era melhor evitar qualquer conflito com a opinião pública.

A atitude deixou Fuller arrasado. Em uma entrevista que consta no material extra do DVD da Criterion, ele desabafou: “Arquivar o filme sem deixar ninguém ver? Eu fiquei pasmo. É difícil expressar a dor de ter um filme acabado, trancado em um cofre para nunca ser exibido para o público. É como se alguém colocasse seu bebê recém-nascido em uma prisão de segurança máxima para sempre. Mudar-se para a França por um tempo aliviaria um pouco a dor e a dúvida com que eu tive que conviver por causa de Cão Branco”.

Mais tarde, em uma entrevista concedida em Milão, em 1987, o cineasta disse que a Paramount teria admitido que o filme era antirracista e ficou com medo de lançá-lo por temer as reações da Ku Klux Klan.

O tempo cura as feridas?

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"Cão Branco": Como se "Tubarão" fosse filmado por Hitchcock.

O tempo acabou mostrando o quanto o estúdio estava errado em esconder Cão Branco, um filme, como todos os trabalhos de Fuller, que questiona sem ser didático, que nos faz uma pergunta e não nos dá uma resposta de mão beijada: O racismo é inerente ou curável?

E a discussão não fica apenas na relação de Keys com o “cão racista”. O afeto de Julie por seu animal de estimação, que ela sabe que não a ataca, mas que é perigoso para os outros, torna-se um local para explorar a ideia da culpa branca e a vergonha da associação ao racismo estrutural.

Porém, por mais que queira discutir questões muito sérias, Fuller nunca deixa de lado o sensacionalismo, a capacidade de seus filmes em gerar emoção, suspense. Aqui, ele nos dá algumas cenas bem ameaçadoras. Se há uma forma de descrever Cão Branco em poucas palavras seria: Tubarão dirigido por Hitchcock. Um filme que funciona como uma advertência incisiva sobre os ensinamentos do ódio, mas que não se furta de seu direito de entreter. O último grande trabalho de um grande cineasta.

*Cão Branco está disponível no catálogo do Amazon Prime Video.