OPINIÃO
25/09/2020 02:00 -03 | Atualizado 25/09/2020 02:00 -03

'Caçador de Assassinos': A 1ª aparição de Hannibal Lecter que (quase) ninguém viu

Estiloso thriller policial de Michael Mann é um estranho no ninho da "trilogia Lecter" que precisa ser redescoberto.

HuffPost

É curioso como alguns fracassos de bilheteria renascem depois do sucesso de uma sequência ou de um filme com que divide um personagem. Mas a história de Caçador de Assassinos (Manhunter, no original) é mais complexa.

Primeira aparição do icônico serial killer Hanibal Lecter no cinema, a produção de 1986 tinha tudo para sair do limbo após o sucesso estrondoso de O Silêncio dos Inocentes (1991), mas acabou “substituído” por uma refilmagem projetada por seu próprio produtor executivo, o famigerado Dino De Laurentiis. Um belo exemplo de “fogo amigo”.

Assim, Dragão Vermelho (2002) passou a ser, para muita gente, a prequela oficial de O Silêncio dos Inocentes, seguindo - como já havia acontecido com o fraquinho Hannibal (2001) - o padrão visual do filme de Jonathan Demme e mantendo no esquecimento Caçador de Assassinos, um filme simplesmente espetacular e de estilo totalmente diferente.

Adaptação do romance Dragão Vermelho (1981), de Thomas Harris, o terceiro longa do cineasta britânico Michael Mann - então mais conhecido como criador e diretor da série de TV Miami Vice - flopou feio na bilheteria americana. Lançado no dia 15 de agosto de 1986, o filme, que custou US$ 15 milhões, arrecadou míseros US$ 8,6 milhões.

Já a versão cinematográfica do livro seguinte de Harris, O Silêncio dos Inocentes, foi um sucesso estrondoso. Conquistou crítica e público, faturando US$ 270 milhões e as cinco principais categorias do Oscar em 1992, feito que apenas outros dois filmes conseguiram até hoje: Aconteceu Naquela Noite (1935) e Um Estranho no Ninho (1975). Já Hannibal (2001), baseado na continuação de Harris, arrecadou ainda mais dinheiro, somando US$ 351 milhões de bilheteria.

Uma oportunidade que um produtor espertalhão, como De Laurentiis, nunca deixaria passar. Ele convocou o americano Brett Ratner - na época conhecido pela galinha dos ovos de ouro chamada A Hora do Rush (1998) e sua sequência ainda mais lucrativa de 2001 - e seu diretor de fotografia de confiança, Dante Spinotti (que também exerceu a mesma função em Caçador de Assassinos), para surfar na onda refazendo o filme de Michael Mann como se fosse um novo capítulo da “trilogia Lecter”. 

Mesmo sem querer, o próprio De Laurentiis deixou o terreno pronto para esse remake não ter utilizado o nome do livro e chamando o filme de Manhunter, o que acabou se tornando até motivo de uma desavença com Mann e o ator Brian Cox. O motivo? Para que as pessoas não achassem que o filme seria sobre artes marciais e para evitar uma possível relação com um então recente fracasso produzido por ele chamado O Ano do Dragão (quem lembra desse “clássico” do SBT?).

Trama e bastidores

Divulgação
"Me vejo aceito, amado pelos espelhos prateados de seu olhar": A visão distorcida que o assassino Fada do Dente tem de suas vítimas em "Caçador de Assassinos".

Will Graham (William Petersen), o mais talentoso criador de perfis de serial killers do FBI, está aproveitando sua aposentadoria precoce com sua mulher e filho em uma praia paradisíaca na Flórida.

Totalmente recuperado dos ferimentos físicos - mas nem tanto assim dos psicológicos - decorrentes de um embate com o genial Hannibal Lecktor (Brian Cox) - sim, essa é a grafia do nome do personagem em Caçador de Assassinos - alguns anos antes, ele é visitado por seu antigo chefe, Jack Crawford (Dennis Farina), que pede sua ajuda para traçar o perfil de um serial killer conhecido como Fada do Dente (Tom Noonan), que já matou duas famílias inteiras de uma forma ritualística bizarra. Como ele age de acordo com o ciclo lunar, o FBI tem três semanas para pegá-lo antes que ele volte a matar. 

À princípio, Graham não está muito disposto a cooperar por conta de uma promessa que fez à sua esposa, mas acaba cedendo e, para conseguir fazer um perfil mais aprofundado do assassino que persegue, precisa recorrer às habilidades do Dr. Lecktor, por quem ainda nutre um medo quase incontrolável. 

Para o papel principal de Graham (não esqueça que Hannibal Lecter ainda não era um personagem conhecido no mundo todo), Mann considerou estrelas ascendentes na década de 1980, como Nick Nolte, Richard Gere, Mel Gibson e até o já veterano e superastro Paul Newman, mas acabou optando por um bem menos conhecido Petersen depois de vê-lo como um policial corrupto e implacável no excelente Viver e Morrer em Los Angeles, de 1985.

O escocês Cox também não foi uma de suas primeiras escolhas. Para interpretar Lecktor, ele pensou antes em John Lithgow, Mandy Patinkin e Brian Dennehy, que morreu recentemente, em abril. Foi Dennehy, aliás, quem recomendou Cox.

Além de sua ótima interpretação como o serial killer mais famoso do cinema, Cox - hoje famoso por seu papel do patriarca bilionário escroto Logan Roy, da série da HBO Succession - teve outra contribuição muito importante no eletrizante confronto final com o Fada do Dente.


Ao pesquisar a vida do assassino em série escocês Peter Manuel como preparação para viver Lecktor, ele descobriu que Manuel era obcecado por uma mulher que nem o conhecia e imaginava In-A-Gadda-Da-Vida, da banda americana Iron Butterfly, como “a música do casal”. A sinistra canção acabou sendo escolhida por Mann para ser tocada no clímax de Caçador de Assassinos

Cox vs Hopkins

Divulgação/Montagem
Brian Cox como o Dr. Hannibal Lecktor em "Caçador de Assassinos" e Anthony Hopkins como o Dr. Hannibal Lecter em "Dragão Vermelho".

É claro que a interpretação de Anthony Hopkins como Lecter é incrível, icônica, mas o retrato mais realista que Cox deu ao personagem, mesmo que atualmente esquecido, é igualmente impactante. Uma ótima maneira de ilustrar as diferenças entre as visões que os atores deram ao personagem foi formulada pelo blogueiro americano zhyxtheman. Enquanto o Lecter de Hopkins é uma cobra, o de Cox é uma raposa.

O próprio Cox fez uma comparação interessante quando questionado sobre isso. Se em O Silêncio dos Inocentes o serial killer tem um estilo mais gótico, como o filme de Demme, seu Lecktor é mais clínico, asséptico, com o visual imposto por Mann em Caçador de Assassinos.

Preso em uma cela imaculadamente branca, seu Lecktor é um animal assustadoramente contido, suas palavras são ditas em um tom jocoso e calmo, cheio de malícia. Ele é extremamente ameaçador assim como o personagem vivido por Hopkins, mas é mais sorrateiro e até engraçado. Alguém que age casualmente, mas que fantasia em (literalmente) comer seu coração. Em nenhum momento você acha que o Lecter de Hopkins pode ser uma pessoa normal, ao contrário do que acontece com o matreiro lecktor de Cox. 

Mas essa disputa é extremamente desigual, já que Cox tem MUITO menos tempo de tela que Hopkins. Mesmo em Dragão Vermelho, um filme que conta exatamente a mesma história, Lecter aparece em bem mais cenas. algo esperado, já que a versão de Hopkins acabou se transformando na cara da “franquia”. Toda vez que pode, Ratner dá um jeito de enfiar Lecter em alguma cena, mesmo que ela não tenho uma importância tão grande assim para o desenvolvimento da trama de seu filme. 

A dualidade de Will Graham

Divulgação
Petersen e Dennis Farina na belíssima cena de abertura de "Caçador de Assassinos".

Em um momento na década de 1980, William Petersen - bem mais conhecido por seu papel como Gil Grissom na série CSI - estava prestes a se tornar um astro do cinema. Mas escolhas erradas acabaram prejudicando sua carreira em Hollywood. Porém, “escolhas erradas” não são necessariamente filmes ruins. Muito pelo contrário. Caçador de Assassinos é uma prova disso.

Sua abordagem muito mais passional de Graham é bem melhor do que a versão apática de Edward Norton em Dragão Vermelho. E sabemos que Norton teve muito mais êxito em sua carreira no cinema que Petersen.

A principal característica de Graham é sua capacidade de “viver” as fantasias dos assassinos que persegue. Ele “veste” a psiquê do serial killer, sente o que ele sente, pensa como ele, e por conta disso, consegue traçar um perfil preciso do assassino. Mas essa abordagem cobra um preço grande demais para Graham, que acaba sucumbindo à loucura. Essa característica é o tempo todo instigada por Lecktor, que provoca Graham ao dizer que eles são mais parecidos do que o agente de FBI imagina.


Graham é um personagem difícil de se interpretar, já que é muito complicado encontrar o equilíbrio entre a excitação distorcida da fantasia de seus alvos e a empatia que sente por esses monstros que não deixam de ser seres humanos. E Petersen foi quem melhor conseguiu entendê-lo.

Tanto que ficou tão ligado ao personagem que, mesmo depois do fim das filmagens e lançamento de Caçador de Assassinos, teve de mudar radicalmente seu visual - raspando a barba e descolorindo o cabelo - para poder enxergar a si mesmo no espelho, e não mais Graham.  

Esse desequilíbrio emocional não é muito presente na interpretação de Norton, que não demonstra o mesmo medo de Petersen quando volta a encarar Lecter depois de ser atacado por ele anos antes. Seu Graham é muito mais seguro de si, mais intelectual e menos intuitivo. Ele não se comunica com seu lado sombrio como o Graham de Peterson, que sofre por isso e em muitos momentos parece inseguro, vulnerável, mesmo extremamente focado em capturar o Fada do Dente.

Tom Noonan rouba a cena

Divulgação
O bizarro primeiro encontro que o expectador tem com o Fada do Dente (Tom Noonan).

Se Ralph Fiennes como Fada do Dente não é páreo para Hopkins como o bem mais assustador Hannibal Lecter, Ninguém consegue superar Tom Noonan no terror que consegue imprimir em sua versão do serial killer inspirrado peloo quadro O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida Como o Sol, pintado por William Blake em 1803. 

Como Petersen, o trabalho de Noonan se baseia fortemente no equilíbrio de dois traços conflitantes sobre seu personagem, tanto sua natureza horrível quanto sua profunda tristeza.

Mesmo com o fato de sabermos sobre o histórico de abusos sofridos por Francis Dollarhyde (a verdadeira identidade do Fada do Dente) apenas em Dragão Vermelho, Noonan consegue nos fazer sentir empatia pelo serial killer, coisa que Fiennes não é capaz. 

Suas cenas com sua colega no laboratório fotográfico, a cega Reba (Joan Allen), pintam um quadro de um personagem estranho e tímido que em dado momento até cria expectativas de viver uma vida normal ao lado dela, mas que acaba sucumbindo ao ódio reprimido e sua visão distorcida da realidade, quando a imagina beijando outro colega de trabalho em uma cena visualmente espetacular.

5 curiosidades sobre Caçador de Assassinos

Divulgação
Joan Allen como Reba em seu encontro sensível e selvagem com um tigre.

1 - Brian Cox tinha o mesmo agente de Anthony Hopkins. Quando ele estava interpretando seu Hannibal Lecktor nas filmagens de Caçador de Assassinos, seu colega - que no futuro iria transformar um personagem em um ícone do cinema - estava vivendo o Rei Lear, clássico personagem de William Shakespeare, em uma peça do National Theatre. Cinco anos depois, Cox foi procurado para reviver o papel do assassino em O Silêncio dos Inocentes, mas recusou porque já tinha fechado uma temporada interpretando o mesmo Rei Lear em outra montagem do National Theatre. Assim, Jonathan Demme acabou escalando Hopkins como Lecter.

2 - Dennis Farina é muito convincente como o agente do FBI Jack Crawford, mas não apenas por seu talento como ator. Antes de seguir a carreira artística, estreando no filme Profissão Ladrão (1981), do mesmo Michael Mann, Farina foi policial do Departamento de Polícia de Chicago por 18 anos.

3 - A cena em que Graham adormece em um avião e assusta uma criança sentada ao lado dele, que acaba vendo as fotos das cenas do crime do Fada do Dente, foi filmada no estilo guerrilha. O vôo, seus passageiros e tripulação eram era reais. Mesmo sem autorização da United Airlines, Mann, Petersen e sua equipe embarcaram em uma voo de Chicago para a Flórida no período de tempo perfeito para que o diretor captasse o pôr do sol pela janela da aeronave.

A equipe de filmagem escondeu o equipamento em sua bagagem de mão, e perto do momento certo, montou tudo e filmou a cena. Mas ninguém se incomodou, já que tanto os passageiros quanto a tripulação ganharam estilosas jaquetas da série Miami Vice.

4 - A agenda de gravação do filme era tão apertada que a equipe de efeitos especiais não conseguiu chegar a tempo da filmagem da eletrizante sequência final de Caçador de Assassinos. Com isso, o diretor Michael Mann teve de improvisar. Joan Allen disse que acabou ficando com um caco de vidro jogado pela equipe durante uma sequência preso em sua coxa de verdade. E Noonan ficou tanto tempo deitado sobre uma poça de sangue falso (feito com xarope de milho), que acabou ficando grudado no chão durante um bom tempo até ser resgatado.

5 - Aliás, o confronto final entre Graham e o Fada do Dente é realizado de formas diferentes em Caçador de Assassinos e Dragão Vermelho. Isso porque acabou a grana de Mann e eles tiveram de mudar o final do livro de Harris, que é seguido à risca na refilmagem de 2002.

Veredito

Divulgação
A cor é um elemento essencial nas narrativas visuais de Michael Mann.

Por mais que Caçador de Assassinos esteja no mesmo universo que os filmes da “trilogia Lecter”, ele tem um estilo tão único, que, felizmente, nunca será associado à “franquia”. É claro que há o lado ruim disso, que é, claro, ser uma produção desconhecida para muita gente. 

É fascinante comparar a abordagem de Michael Mann com o tratamento de Jonathan Demme em O Silêncio dos Inocentes. Onde Demme procura sombras e interiores que mais parecem masmorras medievais, Mann, auxiliado pela surpreendente fotografia de Spinotti, opta por uma luz que explode em brilho, opressora, e espaços vazios com pequenos pontos de cor desconcertantes. 

Caçador de Assassinos é um dos primeiros filmes identificados como thriller policial de serial killers e continua sendo uma das produções mais idiossincráticas desse subgênero por conta das particulares escolhas estilísticas de Mann e de grandes atuações do trio Petersen, Cox e Noonan.

Como filme, Caçador de Assassinos é, certamente, um produto de seu tempo, profundamente ligado à atmosfera e ao visual da década de 1980, mas isso não faz dele um filme datado. Ao contrário, ela nos transporta a um período sem se desligar de temas que nos aterrorizam até hoje. Uma produção que pede para ser redescoberta.

*Caçador de Assassinos está disponível para aluguel no Google Play e Apple TV.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost