OPINIÃO
17/07/2020 01:00 -03 | Atualizado 17/07/2020 01:00 -03

'A Hora da Zona Morta': Uma ótima e pouco lembrada adaptação de Stephen King

Filme de 1983 dirigido por David Cronenberg e estrelado por Christopher Walken é a 1ª indicação da curadoria semanal que preparamos para você.

Antes de começar o texto desta primeira edição da coluna O Cara da Locadora, queria te perguntar uma coisa. Você sabe o que é curadoria? O curador é um especialista em um assunto que serve como um intermediário entre o conhecimento e o público.

Ele pesquisa, seleciona e organiza aquilo que acha que pode interessar as pessoas. O curador de arte monta exposições, o de conteúdo reúne as informações que podem ser muito úteis para você... Há diversos tipos de curador.

E um curador desses vem fazendo muita falta... Principalmente neste momento em que estamos usando tanto plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime Video, entre tantas outras. Quem é um pouco mais velho vai se lembrar daquele cara da locadora de vídeo que tinha sempre algum filme na ponta da língua para indicar.

Os algoritmos eletrônicos desta era do streaming até tentam fazer esse papel, mas o componente humano ainda é muito necessário. Principalmente quando queremos sair do comum. Conhecer aquele filme escondido no catálogo que você nunca ouviu falar e que provavelmente gostaria muito, mas que deixa passar batido.

Foi pensando nisso que eu, que já fui aquele “cara da locadora” lá entre 1995 e 1996, vou começar a compartilhar com você — todas as sexta-feiras — uma dica de um bom filme perdido em algum canto das “prateleiras” dos catálogos dos serviços de streaming disponíveis no Brasil.

Espero que gostem!

HuffPost Brasil

Das dezenas de filmes baseados nos livros de Stephen King, A Hora da Zona Morta é tão bom quanto Carrie - A Estranha (1976), O Iluminado (1980), Conta Comigo (1986), Louca Obsessão (1990) ou Um Sonho de Liberdade (1994), produções que sempre estão no topo quando se fala em adaptações das obras do Mestre do Terror para a telona. Mas, diferente deles, o filme dirigido por David Cronenberg em 1983 ainda é desconhecido para muita gente. 

Não é exatamente um projeto com a cara do cineasta canadense, sempre muito autoral e que tinha acabado de lançar um de seus filmes mais emblemáticos, Videodrome - A Síndrome do Vídeo, também de 1983. A Hora da Zona Morta seria seu primeiro filme adaptado da obra de outra pessoa.

Outros cineastas já haviam sido especulados para a direção da adaptação do livro lançado por King em 1979, como Michael Cimino (de O Franco Atirador, filme que rendeu a Christopher Walken, que viria a estrelar A Hora da Zona Morta, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) e até Stanley Donen, o rei do musicais de Hollywood. Mas a Paramount, acertadamente, apostou no histórico de horror físico de Cronenberg.

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Cronenberg (centro) com Christopher Walken (esq.) e Herbert Lom (dir.) no set de "A Hora da Zona Morta".

O resultado, porém, ficou muito mais “light” que os trabalhos anteriores do canadense, que segurou a onda e optou por uma visão mais austera do texto de King, famoso pela falta de concisão em seus livros.

Tanto que ele e Jeffrey Boam, seu parceiro no roteiro de A Hora da Zona Morta, recusaram de cara o roteiro escrito pelo autor, que Cronenberg classificou em sua biografia como “simplesmente horrível”.

O resultado foi um filme que tem, sim, sua parcela de horror, mas é muito mais uma melancólica história sobre a maldição do destino. É um exercício bem interessante de realismo em meio a uma trama fantástica. Aliás, falando nisso...

A Trama

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Martin Sheen é Greg Stillson, um político populista em ascendência que pode ser um desastre no futuro. Impossível não se lembrar de um certo Donald Trump.

Como boa parte das histórias de King, a trama de A Hora da Zona Morta se passa em uma pequena cidade no estado do Maine, Castle Rock. Lá, o professor Johnny Smith (Christopher Walken) vive uma vida pacata, prestes a casar com sua namorada, Sarah Bracknell (Brooke Adams), até que ele sofre um grave acidente de carro.

Quando Johnny acorda em uma clínica, ele descobre que ficou em estado de coma por cinco anos, e que sua então namorada se casou com outro homem e até teve um filho.

Sozinho no longo e doloroso processo de recuperação por ter ficado tanto tempo em uma cama, Johnny desenvolve uma estranha habilidade psíquica que o permite enxergar o passado ou futuro de uma pessoa ao tocá-la. Mas o dom traz sua parcela de maldição, já que a cada vez que usa seus “poderes”, seu corpo fica cada vez mais fraco.

Determinado a não utilizar mais sua incrível habilidade psíquica, Johnny se isola em uma casa em outra cidade, mas é pressionado pelo xerife local a ajudá-lo a desvendar quem seria um serial killer que vem matando mulheres na região, conhecido como O Assassino de Castle Rock.

Até que, um dia, alguém bate a sua porta para distribuir santinhos de um candidato ao Senado. É Sarah Bracknell, sua antiga namorada que trabalha na campanha de Greg Stillson (Martin Sheen), um carismático político em ascensão que mudará o mundo para sempre.

 Christopher Walken é “a” cara do filme

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A presença de Christopher Walken domina a tela em "A Hora da Zona Morta".

É claro que a direção precisa de Cronenberg, as locações opressivamente geladas da região de Ontario (no Canadá), o roteiro focado e bem amarrado e um excelente time de coadjuvantes foi essencial para o bom resultado, mas A Hora da Zona Morta tem na figura de Christopher Walken o seu principal trunfo.

E olha que ele não era a escolha do diretor para o papel. Cronenberg, que não era muito acostumado a produções de grandes estúdios, queria Nicholas Campbell - que havia trabalhado com o cineasta canadense em Os Filhos do Medo (1979) - para o papel. Mas ele acabou interpretando o ajudante do xerife de Castle Rock.

Isso porque o produtor italiano Dino De Laurentiis bateu o pé. Um filme com orçamento de US$ 10 milhões não podia correr o risco de não contar com um ator mais conhecido como protagonista.

Quem também não queria Walken era Stephen King, que não é muito de acertar em suas escolhas cinematográficas. Ele preferia seu personagem interpretado por ninguém mais ninguém menos que Bill Murray. Quê?!

Com um Oscar recente debaixo do braço, Walken acabou ganhando o papel, e Cronenberg não se arrependeu. Na verdade, ele admite em sua biografia que Johnny Smith não poderia ser outra pessoa além de Christopher Walken. “O filme é o rosto de Chris. O filme inteiro está cara dele”, escreveu.

Christopher Walken estava no auge de sua carreira e ainda não tinha caído na armadilha de se tornar uma paródia de si mesmo. Sua figura frágil e jeito inseguro, mas ao mesmo tempo irresistivelmente dominadora, toma a tela de assalto. Isso sem falar de seus olhos expressivos e seu jeito peculiar de falar, que fazem dele, como o próprio Cronanberg bem descreveu, “a” cara de A Hora da Zona Morta.

*A Hora da Zona Morta pode ser encontrado atualmente no catálogo do Amazon Prime Video.