OPINIÃO
16/05/2019 13:09 -03 | Atualizado 16/05/2019 13:12 -03

'O Brasil hoje parece uma distopia', diz Kleber Mendonça Filho em Cannes

Três anos depois de "Aquarius", diretor pernambucano volta a disputar a Palma de Ouro no festival com "Bacurau", uma espécie de ficção científica western anacrônica.

Divulgação
Cena de "Bacurou", novo trabalho do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. 

“É importante não perder a noção das coisas. Nem sucumbir à loucura. Pensar: ah, um corte de 30% na educação pode ser uma coisa boa. Não devemos esquecer o que é educação”, disse o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho na coletiva de imprensa de seu novo filme, Bacurau, que estreou nesta quarta (15) no Festival de Cannes, com Sonia Braga e Udo Kier no elenco.

O momento vivido no Brasil e no mundo deu o tom da conversa. “Se você olha para o mundo, sabe que esse é o tipo de coisa que veríamos em um filme dos anos 60 ou 70, ou num romance dos anos 80. Mas o Brasil de hoje parece uma distopia em vários aspectos”, afirmou o diretor. 

“É incrível que esse filme seja lançado nesse momento, quando tentam destruir a cultura no Brasil. Temos três filmes brasileiros este ano em Cannes, além de uma co-produção com a Itália, justamente no momento em que estão tentando esconder tudo o que fazemos”, completou.

Houve também referências ao protestos pelo Brasil, também na quarta, contra o congelamento de 30% das despesas não-obrigatórias das universidades federais. “Ainda não tive tempo de me informar sobre o assunto, mas recebi várias mensagens de amigos sobre a coincidência da estreia nesse momento. Tamo junto. E vamos simbora”, disse o co-diretor Juliano Dornelles.

Os atores também explicaram o processo de construção dos personagens. “Lunga [o herói revolucionário da história] era obviamente transexual. Kleber e eu conversamos sobre a importância de se falar no assunto. Temos no Brasil 700 casos de assassinato contra a comunidade LGBT. Era importante criar esse ambiente em que se respeitasse a liberdade e a diversidade”, disse o ator Silvero Pereira.

Udo Kier, que interpreta Michael, o líder dos mercenários ou “forasteiros” como são chamados na documentação oficial, estava visivelmente emocionado. “Quando você pensa no Brasil, imagina logo lindos meninos e meninas com um drinque na mão. Bom, eu não vi nada disso. Vi uma cidade pequena com uma paisagem maravilhosa, cachorros pela rua implorando por um osso. Foram três semanas no paraíso”, afirmou o ator alemão.

“O filme começa e depois segue rumo à explosão do fim. Ontem me disseram: você fez mais de 200 filmes. Cem são ruins, cinquenta você pode ver tomando um drinque, e cinquenta são bons. É um privilégio fazer esse filme”, completou.

A emoção ao fim da exibição também foi trazida à tona na coletibva. “Ontem encontrei pela primeira vez o colorista do filme, Christophe. Ele estava emocionado – era a primeira vez que via o filme montado e disse que só assim tinha conseguido entender o que acontecia no Brasil”, disse Juliano.

Gareth Cattermole via Getty Images
Kleber Mendonça Filho na coletiva do Festival de Cannes sobre seu novo filme.

 

A première

O filme, que pode render a Palma de Ouro ao Brasil – a primeira desde O Pagador de Promessas, de 1962 – estreou sob aplausos no Grand Thêátre Lumière, maior sala de cinema do mundo. Assim que o logo da Ancine apareceu na tela, alguém gritou “Volta, querida”.

Ao fim da exibição, o filme foi ovacionado por pelo menos cinco minutos. Kleber agradeceu, em português e francês, a presença dos brasileiros, “especialmente no momento vivido pelo Brasil hoje”.

À saída da sala, franceses, brasileiros e americanos elogiaram. Um casal que vive em Cannes e vem ao festival há pelo menos dez anos disse que foi um dos mais bonitos até hoje. “Como não há censura, nunca sabemos o que vamos encontrar aqui no festival, mas pela primeira vez achamos que a violência não é gratuita. Achamos o filme muito bonito”.

Bacurau é uma espécie de ficção científica western anacrônica.

Temos a parte rudimentar do Sertão de Seridão, onde o filme foi rodado, e smartphones transparentes e ridiculamente finos com tradutor embutido. Tudo começa com o retorno de Teresa (Bárbara Colen) para a cidade de Bacurau em um caminhão-pipa, para comparecer à cerimônia de enterro de sua avó, Dona Carmelita. Aprendemos que o acesso à água foi interrompido, e Tony, o prefeito almofadinha, tenta se reeleger à base de mantimentos vencidos e livros. A comunidade tem um pouco de tudo, como diz o pai de Teresa: médicos, cientistas, professoras, putas e gigolôs, além de anti-heróis, como Lunga. E vive em harmonia até a chegada de dois motoqueiros em roupas cor-de-rosa. Bacurau some do mapa e, aos poucos, todos perdem o sinal dos smartphones.

Como todo grande cinema, Bacurau tem algumas cenas nunca antes vistas. Há um momento em que dois mercenários estão à espreita de Damiano – que faz os trabalhos do lado de fora da casa, nu. Um vira para o outro e diz: “Ele tinha que ser velho desse jeito, e nu?”. Caixões, no meio da estrada e muitas outras vezes ao longo do filme, funcionam quase como um McGuffin.

A personagem de Domingas, brilhantemente interpretada por Sonia Braga, é a médica da região e vive com sua esposa. Uma das melhores cenas talvez seja o encontro entre ela e Michael (Udo Kier). Ela prepara um guisado, que oferece para ele, enquanto o rádio de dentro da casa toca uma música americana. Então ela veste o jaleco de médica todo coberto de sangue. Ele pergunta de quem é o sangue. “De uma mulher”, ela responde. Ele sai e depois diz ter encontrado uma mulher extraordinária. “Você não a matou?”, o companheiro pergunta. “Eu não mato mulheres”.

Veja o trailer de Bacurau: