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12/09/2019 05:00 -03

Novo PSDB de Doria e Frota não tira poder da velha guarda tucana

Derrota de João Doria no caso do pedido de expulsão de Aécio Neves, negado pela cúpula, demonstra limites a governador de SP.

Adriano Machado / Reuters
Novo e velho PSDB são obrigados a conviver, mesmo com a liderança de Doria no partido.

A empreitada do governador de São Paulo, João Doria, em busca de novos quadros para o PSDB está longe de significar o sepultamento da ala antiga da legenda. A vitória do deputado federal Aécio Neves (MG) no mês passado, quando a Executiva Nacional rejeitou abrir processo para expulsá-lo da legenda, expôs o conflito. E deixou mais que clara uma realidade: novo e velho serão obrigados a conviver. 

Essa é a avaliação feita ao HuffPost por tucanos, assessores e aliados bastante próximos de Doria, que acompanham as movimentações dentro e fora do PSDB. 

De um lado, está o governador à frente do que ele próprio tem chamado “Novo PSDB”: midiático, transparente. Do lado oposto, nomes de peso com trânsito nos bastidores. E aqui vale frisar ampla participação em favor de Aécio do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin — padrinho de Doria, atualmente desafeto.

Desde que assumiu o governo paulista, João Doria trata o partido como “meu PSDB” e insiste ainda mais na necessidade de “renovação”. Ao contrário do que planejava, porém, não conseguiu expulsar da cúpula antigos caciques bastante atuantes. A Executiva continua composta por boa parte da “velha guarda”. Permanecem os ex-presidentes da legenda Geraldo Alckmin (SP), Aécio Neves (MG), José Serra (SP), Tasso Jereissati (CE), Teotônio Vilela Filho (AL) e José Anibal (SP). 

Apesar disso, Doria emplacou na presidência do PSDB seu aliado Bruno Araújo (PE), de quem, inclusive, cobra fatura sempre que pode. “O Bruno, ao assumir, ele sabe a responsabilidade que tem daqui pra frente. Nós não vamos mais jogar poeira e coisa suja embaixo do tapete. Vamos ter que ter a capacidade de julgar de forma correta, de forma isenta, e dar a oportunidade de todo peessedebista andar na rua de cabeça erguida”, disse o governador em maio às véspera da troca de comando do partido.

Às vésperas da reunião da Executiva que absolveu Aécio, Doria esteve em Brasília com Araújo e ambos empreenderam uma força-tarefa em busca de apoio contra o deputado mineiro. Não tiveram êxito. 

Essa gana dele de querer expulsar todo mundo… O PSDB é história, é tradição. Por que ele não funda um partido só dele?”

Novos nomes

Com o partido nas mãos e de olho em 2022, para quando já é considerado possível candidato à Presidência da República, o governador de São Paulo busca nomes que acredita serem “atrativos” e podem fortalecer o partido.

Nessa empreitada, conseguiu levar para o PSDB o deputado Alexandre Frota (SP) e tenta fazer a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), abandonar a legenda do presidente Jair Bolsonaro, com a promessa de privilegiá-la no pleito municipal do ano que vem. 

Aliados do governador dizem que ele não vai parar. Estuda mais figuras de peso com um intuito claro: fortalecer a legenda — o que para ele é sinônimo de “renovação” — para as próximas disputas nas urnas. 

No Congresso, esse protagonismo de Doria é visto com ressalvas por muitos deputados. “Ele não é o presidente do partido. Devia ir com mais calma”, afirmou um parlamentar tucano. “Essa gana dele de querer expulsar todo mundo… O PSDB é história, é tradição. Por que ele não funda um partido só dele?”

Débora Álvares/HuffPost Brasil
Bem-humorados, deputados do PSDB Alexandre Frota e Aécio Neves conversam no plenário da Câmara dos Deputados

Reviravolta

Apesar de toda a demonstração de força, João Doria sofreu um baque no dia 21 de agosto, quando a cúpula do tucanato decidiu não acatar o pedido do diretório paulista para abrir processo no Conselho de Ética do partido para expulsar Aécio Neves. O deputado é réu por corrupção e obstrução de Justiça após a gravação que mostrou Aécio pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS. 

Embora enfraquecido pela sequência de denúncias de corrupção e envolvimento na Lava Jato, o mineiro tem surpreendido pela capacidade de reunir apoios. E o faz com a naturalidade de quem já presidiu a Câmara dos Deputados, a própria legenda, já governou Minas Gerais, foi senador e é, atualmente, uma das vozes mais ouvidas na bancada tucana. 

Longe dos holofotes há muito tempo, Aécio Neves nunca deixou de colocar em prática o que faz de melhor: o trânsito pelos bastidores. E conquista mesmo quem acabou de chegar no partido e no Congresso. O HuffPost flagrou risos entre ele e o recém-filiado ao PSDB Alexandre Frota no plenário da Câmara na quarta-feira (4).

Embora transite bem mesmo com o rival do padrinho político, Frota é um entusiasta de Doria. Em entrevista ao HuffPost uma semana antes de ser expulso do PSL e quase imediatamente acolhido pelo PSDB, o deputado foi só elogios ao governador de São Paulo. “O Doria é um cara extremamente inteligente. É um grande gestor. Um grande empresário. Um cara que atinge sempre os objetivos dele com muito trabalho e muita dedicação. Gosto muito do Doria”, disse. 

Transitando bem dos dois lados, Alexandre Frota é um bom exemplo da convivência entre o novo e o velho PSDB que se fará necessária — “apesar de desejos e ambições”, nas palavras de um aliado do governador paulista.