OPINIÃO
21/03/2019 08:38 -03 | Atualizado 21/03/2019 10:31 -03

Em 'Nós', o maior inimigo dos EUA são os próprios americanos

No novo terror do diretor de "Corra!", os good guys percebem que, na verdade, são também os bad guys.

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A descoberta de nossa própria dualidade é o grande tema da nova provocação de Jordan Peele.

“Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”, diz o versículo 11 do capítulo 11 de Jeremias, trecho do Velho Testamento onipresente no aguardado Nós, novo filme de Jordan Peele, diretor de Corra!, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (21).

Um dos nomes mais significativos da nova onda de diretores afro-americanos, junto com Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar), Ryan Coogler (Pantera Negra) e Donald Glover (da série Atlanta), Peele gosta de levar questões sociais ao cinema de gênero. Em seu caso, o terror. Se em Corra! a discussão era sobre o abismo racial no Estados Unidos, em Nós o “inimigo” são os americanos em geral e ponto final.

Porém, há algo em comum entre seus dois filmes: a crítica ostensiva à América da era Trump. A América que renega sua herança de nação pluralista e que vê o “outro” apenas como ameaça. Algo que fica mais do que claro quando a personagem de Lupita Nyong’o, Adelaide, pergunta à sua Doppelgänger (“sósia”), Red, quem sãos esses seres estranhos tão parecidos fisicamente com os humanos normais. “Somos americanos”, responde sua versão “sombria”.

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Depois de uma pequena introdução na década de 1980 que mostra Adelaide encontrando uma menina fisicamente idêntica a ela em uma casa de espelhos de um parque de diversão à beira-mar, a trama de Nós salta para os dias atuais, quando ela, já adulta, faz uma viagem de férias junto com seu marido e dois filhos. A família acaba voltando à praia onde Adelaide encontrou sua dupla e ficou muito tempo traumatizada por isso. A partir daí seus medos tornam-se realidade quando eles se deparam com outras versões sombrias deles mesmos.

Peele sabe como poucos dosar momentos de humor e sarcasmo em uma trama de terror. Seu estilo é uma mistura de Sam Raimi com George Romero, onde o cômico convive em harmonia com o horror e, principalmente, a crítica social, dando seu recado sem abrir mão do entretenimento. Só para se ter uma pequena ideia da mordacidade do diretor/roteirista, a solução de Adelaide para o caos criado por seus duplos sombrios é fugir para o México!

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Talvez Nós não seja tão bem recebido pelo público em geral por não perder muito tempo em dar uma explicação mais detalhada sobre essas versões “más” de nós mesmos. Ele até faz isso, mas sem didatismos e com boa dose de sátira. Colocar o dedo na ferida de seu próprio público pode ser arriscado, mas Peele sabe, como indica no versículo de Jeremias, que Deus não está mais escutando.