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28/08/2019 02:00 -03

Novo tenta minimizar divergências com Ricardo Salles, ministro filiado ao partido

"O Salles não é um ministro do Novo. É um filiado ao Novo que é ministro", diz deputado Paulo Ganime.

YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
"O Salles não é um ministro do Novo. É um filiado ao Novo que é ministro", diz deputado Paulo Ganime.

Após membros do partido Novo pedirem a suspensão partidária do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, filiados da legenda tentam minimizar as divergências e evitar impactos políticos em meio à crise ambiental. O integrante do primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro, por sua vez, tem adotado um tom menos combativo.

Criticado por ambientalistas, que alegam de desmonte de políticas públicas nos últimos meses, Salles é alvo de um pedido de suspensão apresentado no último sábado à Comissão de Ética da sigla. O documento é assinado pelo deputado estadual Chicão Bulhões (Novo-RJ), por Marcelo Trindade, candidato a governador do Rio em 2018, e por Ricardo Rangel, que concorreu a deputado federal nas eleições do ano passado.

Entre integrantes da bancada da Câmara, a percepção é de que o incômodo é minoritário. “Tem gente incomodada? Tem, tanto que entraram na Comissão de Ética. Se representa a maioria? Acredito que não”, disse ao HuffPost Brasil o deputado Paulo Ganime (Novo-RJ). “Não é porque você discorda de alguém que vai pedir para ele ser desfiliado do partido”, completou.

De acordo com Ganime, Salles tem enfrentando resistência porque vai na contramão de gestões anteriores. ”É normal quando você está enfrentando algo que está exercendo um status, que enfrente barreiras e questionamentos. Se quer mudar, é normal que sofra represália e ele está sofrendo”, disse. 

Apesar de ter críticas pontuais ao ministro, o deputado defende sua atuação. “Na minha opinião, os maiores erros dele são na comunicação. Acho que ele alimenta a polarização. Fora isso, acho que ele está fazendo um trabalho correto.”

Novo nega indicação de Salles

Em nota divulgada na última quinta-feira (22), a legenda afirma que não faz parte do governo. “Esclarecemos, mais uma vez, que o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles não foi uma indicação do Novo e, portanto, não representa a instituição. O ministro foi escolhido e responde ao presidente Jair Bolsonaro”, diz o texto. De acordo com o partido, “não há qualquer interferência” na gestão do ministério. 

Presidente da legenda e candidato ao Palácio do Planalto em 2018, João Amoêdo também tentou tirar a questão do foco. “Utilizar a pauta para o embate ideológico e político que nada produzirá de bom para o País, apenas o aumento da polarização e de polêmicas que alimentam o ódio, provocam grande engajamento nas mídias sociais, mas nenhum efeito concreto para o cidadão”, escreveu em seu perfil no Twitter na última sexta-feira (23).

O discurso é repetido por parlamentares. “O Salles não é um ministro do Novo. É um filiado ao Novo que é ministro”, disse Ganime.

De acordo com o deputado Tiago Mitraud (Novo-MG), não há uma tentativa de isolamento e sim de esclarecer a situação. “Como muita gente tem confundido a presença de um filiado no ministério com um ministério partidário, já que historicamente no Brasil tinha essa prática de o Executivo lotear ministérios, cabe essa explicação. Mas não acho que é evitar uma contaminação, até porque tem gente que gosta da postura do ministro”, disse à reportagem.

O parlamentar fez críticas públicas a Salles ao publicar, no Twitter, que ele “investe muito do seu tempo às guerras ideológicas e incitação ao confronto”.

Mitraud disse que a publicação foi motivada por um incômodo com “essa postura encabeçada, infelizmente, pelo presidente de inflamar guerras ideológicas, dar declarações infundadas e contra dados”. “Sou bastante crítico à essa postura. O ministro Salles muitas vezes acabou entrando nessa onda do presidente”, disse.

Na visão do parlamentar, contudo, Salles tem adotado uma postura mais comedida nos últimos dias. “Ele foi contrário à essa postura agressiva do presidente, foi bastante técnico. Me parece que mudou o tom, o que e positivo”, disse sobre a participação do ministro no programa Roda Viva, na noite desta segunda-feira (26).

Salles é deputado suplente do Novo

Ao ser questionado sobre sua situação partidária, o ministro disse que “há um grande grupo no Novo” que o apoia e reforçou que a escolha de Bolsonaro foi pessoal. “Fui convidado para ser ministro do Meio Ambiente em razão de questões pessoais. O Novo fez uma declaração nesse sentido, dizendo que eu não estava lá por indicação do partido, mas por uma escolha pessoal do presidente da República e isso é verdade”, disse.

Salles disse também que é suplente de deputado federal. Na disputa de 2018, obteve 36.603 votos, o que não garantiu uma vaga de titular. No material de campanha do ano passado, o então candidato defendia o uso de armas de fogo contra javalis, “a esquerda e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)”, roubos e a “bandidagem no campo”.

Reprodução
No material de campanha do ano passado, Salles defendia o uso de armas de fogo contra javalis, “a esquerda e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)”, roubos e a “bandidagem no campo”.

O integrante do governo Bolsonaro foi diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira e um dos fundadores do Movimento Endireita Brasil (MEB), em 2006, também atuou como secretário particular do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin de 2013 a 2014 e foi secretário do Meio Ambiente do governo tucano de 2016 a 2017.

A atuação no governo paulista levou Salles a ser condenado por improbidade administrativa em primeira instância, em dezembro. De acordo com a acusação do Ministério Público, houve irregularidades na elaboração do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, em 2016, envolvendo intimidação de funcionários e modificação de documentos.

Em 17 de agosto, o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para apurar suspeita de enriquecimento ilícito de Salles entre 2012 e 2017.

Pedido de suspensão de Salles

No documento enviado à Comissão de Ética do Novo por Chico Bulhões, os signatários pedem que a filiação do ministro seja suspensa enquanto a sigla julga a possibilidade de expulsão definitiva. 

De acordo com o deputado, os motivos para o afastamento seriam a “postura inadequada e o histórico de constrangimentos” causados pelo ministro, que “têm gerado dano à imagem e à reputação do Novo”. 

O parlamentar entende que Salles tem atuado em divergência ao programa do Novo, “demitindo profissionais qualificados, desdenhando de dados científicos e revogando políticas públicas sem qualquer debate prévio, aprofundado e responsável, reduzindo a capacidade de interlocução do País com seus pares internacionais e atuando com absoluta irresponsabilidade”.

O estatuto do partido determina que “não será admitido como filiado” pessoa condena por órgão colegiado por violação “aos direitos e garantias constitucionais fundamentais, especialmente aos direitos humanos e ao meio ambiente”.

O documento apresentado por Bulhões também pede que resolução partidária assinada em maio seja aplicada ao ministro. O texto prevê que qualquer filiado que venha a participar em um “cargo público relevante em qualquer instância de governo, quando não for indicado pelo Novo, deverá solicitar a suspensão da sua filiação”.

Integrantes do Novo negam que a medida possa atingir o ministro. O partido também tem filiados nos Executivos locais, como Felipe Sabará, presidente do Fundo Social no governo de João Doria (PSDB), em São Paulo.

Em nota divulgada nesta segunda, o Novo afirmou que a Comissão de Ética fará uma análise prévia sobre as formalidade mínimas para iniciar um processo disciplinar. Caso seja admitida a admissibilidade do pedido, Salles terá 10 dias para defesa. No caso de condenação pelo colegiado, cabe recurso ao diretório nacional do partido.