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06/05/2020 20:41 -03 | Atualizado 08/05/2020 01:31 -03

Ministério da Saúde promete testar 1 em cada 5 brasileiros para o novo coronavírus

Até agora, apenas 6,6% do total de testes 'padrão ouro' que haviam sido previstos foram distribuídos.

Dezenove dias após Nelson Teich assumir o comando do Ministério da Saúde, integrantes da pasta explicaram alguns pontos da mudança na testagem para o novo coronavírus anunciada pelo oncologista assim que ele passou a integrar o governo. A estratégia nacional é dividida em 5 fases, sendo uma delas com duas partes: “Confirma covid”, com o teste molecular e “Testa Brasil”, com o teste sorológico. O modelo também foi apresentado a secretários de saúde estaduais.

A previsão é que sejam aplicados 46 milhões de testes (incluindo os já distribuídos), em 5 fases operacionais, o que irá contemplar 22% da população brasileira, de acordo com a pasta. 

Pessoas doentes com quadros leves, moderados ou graves serão testadas por meio do diagnóstico molecular, chamado RT-PCR. Chamados “padrão ouro”, esses são os mais precisos. Eles são feitos a partir da coleta de secreções nasais ou orais e detectam a presença do vírus no organismo.

Já o método sorológico será aplicado para pessoas assintomáticas e algumas sintomáticas, segundo o ministério. Ele pode ser feito por meio de uma gota de sangue (imunocromatográfico) ou soro (imunoenzimática). 

Inicialmente previstos apenas para profissionais de saúde e segurança, os testes rápidos sorológicos verificam a resposta do sistema imunológico ao vírus e possuem maior sensibilidade após o 7º dia de início dos sintomas.

Estratégia de testagem

Para a primeira fase de testagem, feita entre janeiro e março, foram previstos 47.768 testes RT-PCR e 500.000 sorológicos. A segunda, entre abril e maio, teve previsão de 7 milhões testes RT-PCR e 9,5 milhões de sorológicos. 

A terceira fase, que inicia em junho e vai até agosto, é a que inclui as ações “Confirma covid” e “Testa Brasil”. Para esta etapa, são esperados 13 milhões testes RT-PCR 8 milhões de sorológicos.

A quarta fase, que deverá ocorrer entre setembro e outubro, prevê uma avaliação do perfil de ocorrência do vírus no período de sazonalidade de vírus respiratórios, com 3 milhões testes RT-PCR 82 milhões de sorológicos. A quinta fase, em novembro e dezembro, por sua vez, prevê 1 milhão de testes RT-PCR e 2 milhões de sorológicos. 

Os testes moleculares serão usados para identificar pessoas contaminadas, mantê-las em isolamento social, entender o perfil de doentes e “apoiar os gestores na aplicação das medidas não farmacológicas como distanciamento social e retorno das atividades laborais”, de acordo com o ministério.

Eles serão aplicados em unidades de coleta em cidades com mais de 500 mil habitantes e o resultado estará disponível no celular da pessoa e no prontuário do médico quando o teste for feito pelo SUS (sistema único de saúde). O resultado ficará disponível em até 96 horas.

Inquérito sorológico

Já os testes sorológicos serão usados para obter dados sobre contágio, sintomas da covid-19, dados socioeconômicos e de mercado de trabalho. Em parceria com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), será feita uma PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua) com foco no monitoramento da doença, com resultados semanais para Brasil e macrorregiões e mensais para unidades da Federação.

Serão coletados dados por telefone. Os mesmos domicílios entrevistados serão visitados uma vez por mês durante 3 meses. Não foram esclarecidos detalhes sobre a pesquisa.

Luis Alvarenga via Getty Images
Secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, prometeu que a fila de testes pendentes de resultado nos laboratórios será zerada na próxima semana.

Quantos testes foram feitos?

Em 20 de abril, Teich anunciou que o total de testes a serem distribuídos na pandemia subiria dos 24 milhões prometidos pela gestão anterior para 46 milhões, sendo 24 milhões do tipo RT-PCR, que são os mais precisos, e outros 22 milhões rápidos (sorológicos).

De acordo com o ministério, até o momento foram distribuídos 1.638.816 testes RT-PCR. O número equivale a 6,6% das 24 milhões prometidos dessa categoria.

Outros 3.478.560 de testes rápidos foram entregues, o equivalente a 15,8% dos 22 milhões prometidos desse grupo. Cerca de 10% da população brasileira poderá ser testada nessa modalidade até o fim da crise sanitária.

Outras unidades de ambos os testes já haviam sido distribuídas anteriormente. Até 17 de abril, mais de 2 milhões de testes rápidos haviam sido distribuídas, segundo a pasta, além de 524.296 mil unidades do tipo RT-PCR.

A entrega dos testes, contudo, é só o primeiro passo. Desse mais de 500 mil distribuídos, apenas 224.196 haviam sido processados por laboratórios públicos, segundo boletim epidemiológico de divulgado em 27 de abril com dados até o dia anterior.

Zerar a fila de testes

Nesta quarta, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, prometeu que a fila de testes pendentes de resultado nos laboratórios será zerada na próxima semana. “Nós vamos zerar a fila de testes. Isso fará com que o número de casos também aumente, porque tem muitos resultados aguardando para serem inseridos no sistema”, disse. 

De acordo com o secretário, 93 mil testes aguardavam análise nos laboratórios públicos estaduais até segunda-feira (4) e as grandes redes privadas têm mais de 100 mil exames que ainda não foram incluídos no sistema do ministério. 

Esse cenário leva a uma subnotificação e impede uma visão mais precisa do real cenário da pandemia. Segundo balanço divulgado pelo ministério às 19h desta quarta, os diagnósticos confirmados somam 125.218 e as mortes, 8.536.

A expectativa é que o número atual de óbitos seja maior devido à demora no resultado dos exames. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no resultado de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais.

Essa demora também se reflete no número de contaminações no País. Há uma subnotificação de casos confirmados ainda maior devido à limitação de testes de diagnóstico. O exame tem sido direcionado apenas aos casos graves. Desde o início da pandemia no País, a orientação tem sido para que apenas pacientes com sintomas severos procurem o sistema de saúde.

Testes rápidos e o ‘passaporte para imunidade’

Em boletim epidemiológico divulgado em 19 de abril, dois dias após a posse de Teich, o ministério sinalizou que pretendia aplicar testes rápidos para a população economicamente ativa, pessoas acima de 60 anos e portadores de doenças crônicas que apresentarem sintomas de covid-19.

A nova política de testagem “permitirá a identificação dos casos confirmados de covid-19 com aquisição de imunidade, permitindo o estabelecimento do isolamento com maior precisão, bem como o retorno as atividades com maior segurança”, segundo o documento.

A ideia do “passaporte para imunidade” também já foi defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, mas especialistas apontam falhas nesse tipo de medida. Isso porque ainda há dúvidas na comunidade científica sobre como funciona a imunidade para o vírus e também devido ao fato de os testes rápidos terem um resultado limitado.

Em 20 de abril, quando anunciou a ampliação do total de testes para 46 milhões, Teich afirmou que a medida era “muito importante para o nosso processo que está sendo desenhado para melhor entender a doença, a evolução e fazer um planejamento, um projeto, que já está sendo feito para revisão do distanciamento social”. A frase foi dita em um vídeo enviado pela assessoria de imprensa do ministério a jornalistas. No dia, não houve coletiva de imprensa.

Quatro dias depois, o oncologista voltou a fazer referência a uma mudança na testagem, pelo Twitter. 

No dia, a assessoria de imprensa da pasta afirmou, em nota ao HuffPost Brasil, que “a estratégia de como será utilizada a testagem está sendo definida”. Nesta quarta, a pasta não respondeu a questionamentos enviados sobre o “passaporte para imunidade”.