MULHERES
30/03/2019 01:00 -03 | Atualizado 30/03/2019 11:03 -03

'Crimes em Déli', da Netflix, é visão enviesada de caso de estupro coletivo de 2012 na Índia

Tudo bem elogiar a polícia por um trabalho bem feito, mas “Delhi Crime” é quase uma carta de amor a ela.

"O que a polícia de Déli fez de fato: um trabalho que ela é paga para fazer."

Segundos depois de clicar sobre o link para Crimes em Déli, da Netflix – uma série de sete episódios baseada no caso do estupro coletivo da jovem Jyoti Singh, que morreu em Déli em dezembro de 2012 ―, fechei a janela de novo.

Não tive certeza se conseguiria assistir a uma reconstrução dramática dos fatos que ocorreram em 16 de dezembro de 2012, algo do qual eu me esforço para conservar uma distância objetiva. Minha reação a “reconstruções” de incidentes de violência sexual ocorridos na vida real geralmente começa com uma sensação incômoda de peso e pavor no meu peito que rapidamente se converte em raiva, medo e mais raiva.

Minhas reservas em relação a reconstruções ou referências cinematográficas a incidentes reais de violência sexual se deve à indiferença e insensibilidade absoluta com que muitos cineastas tratam esse tema.

Um exemplo disso pode ser visto no superlucrativo Simmba, de Rohit Shetty, em que o estupro foi usado como acessório à proposta de prestar homenagem ao suposto “heroísmo” de um homem. O filme chega a fazer referências horrorosamente melodramáticas e nada sutis aos ferimentos sofridos pela vítima de 16 de dezembro. Aquilo me deu vontade de vomitar.

Tive que esperar dois dias antes de conseguir voltar a assistir à série da Netflix, e avancei com relutância. Nos créditos iniciais, os criadores afirmam que a série foi “inspirada” por “arquivos de casos”, mas fica claro que foram tomadas várias liberdades fictícias - presume-se que para deixar a história mais “emocionante”.

No coração de Crimes em Déli está uma narrativa já familiar em que a polícia prende os bandidos, relatada à moda de um “suspense policial” bem editado. Mesmo que eu coloque de lado minha aversão instintiva a tais dramatizações, Crimes em Déli é um esforço tão elaborado para valorizar a polícia de Déli que na realidade parece profundamente insensível.

As únicas pessoas que a série humaniza são os policiais.

As únicas pessoas que a série humaniza são os policiais. Todos os outros personagens – manifestantes, familiares dos criminosos, a família da vítima, a imprensa, os políticos e a sociedade civil – repetem falas sintéticas que os ajudam a enquadrar-se perfeitamente na narrativa de como a polícia de Déli travou uma batalha corajosa para prender os culpados e recebeu poucos elogios por isso.

O que a polícia de Déli fez de fato: um trabalho que ela é paga para fazer.

Isto dito, todo o mundo curte uma boa história policial. O problema é apenas que, no caso de Crimes em Déli, a quantidade de empatia manifestada pela polícia é totalmente desproporcional à que é dada a qualquer personagem que não seja policial. Em alguns momentos a série se mostra tão louca para retratar a polícia sob a melhor ótica possível que a protagonista, a DCP (vice-comissária de polícia) Vartika Srivastav, papel encarnado por Shefali Shah, é vista dizendo bruscamente ao rapaz sobrevivente que a demora da polícia em chegar até eles e, portanto, o tempo que levaram para receber socorro médico, é compreensível, já que não há banheiro na van da polícia (o sobrevivente alegou que a polícia demorou para chegar à cena do crime e então perdeu tempo precioso discutindo sobre a jurisdição do crime).

O fato de a polícia não ter funcionários suficientes e de os policiais receberem salários baixos, de ela ser muito mal equipada em comparação com países como os EUA, tudo isso é repisado inúmeras vezes.

Essas são preocupações válidas, e já se escreveu muito sobre elas. Mas justapor essas questões com um estupro coletivo faz as preocupações relativas à polícia parecerem desculpas.

Em dado momento na série, o comissário de polícia de Déli, representado por Adil Hussein, acusa a Alta Corte de Déli de praticar “ativismo judicial”. Na realidade, a corte tomara conhecimento do caso e havia instruído a polícia a registrar um boletim de ocorrência detalhado e uma explicação do porquê de veículos com vidros escurecidos ainda estarem circulando pela cidade, apesar de serem proibidos. O estupro ocorreu dentro de um ônibus com vidros escurecidos enquanto ele percorria as ruas da cidade.

 

Nós versus eles

Todos os personagens da série são apresentados como adversários da polícia, que é mostrada tratando a todos com dignidade e com burocracia mínima enquanto investiga o crime. Nesse processo, a série acaba minimizando a importância dos protestos enormes que ocuparam as ruas de Déli, mostrando-os mais como um empecilho desnecessário que complica a investigação.

A única “manifestante” com quem o roteiro se envolve é a filha de Srivastav, personagem tão desnecessariamente grosseira, violenta e ilógica que o espectador poderia ser perdoado por confundir os protestos com um caso de adolescentes ricos se revoltando contra seus pais. Nada poderia estar mais longe da verdade em relação aos protestos e seus participantes.

Na realidade, esses protestos e a troca de ideias que impulsionaram transformaram a discussão sobre o gênero em muitas esferas da sociedade indiana. Mas a narrativa de Crimes em Déli apresenta os protestos como simples inconveniências irritantes com que os pobres policiais são obrigados a lidar.

Esses protestos espontâneos e a troca de ideias que impulsionaram transformaram a discussão sobre o gênero em muitas esferas da sociedade indiana.

A caracterização é injusta também porque os protestos foram tanto contra o governo de Déli quanto contra a polícia. Alguns diriam até que eles custaram a Sheila Dikshit uma nova chance de ocupar o cargo de ministra-chefe de Déli.

O Judiciário tampouco é poupado de fazer o papel de vilão. Recriando uma sequência da vida real em que o a Alta Corte convocou a polícia, a série mostra uma juíza atacando Srivastav pessoalmente.

“A senhora parece alguém que só se hospeda em hotéis cinco estrelas. Alguma vez já foi pessoalmente a uma cena de crime?”, pergunta a juíza, reforçando a narrativa de Crimes em Déli sobre o número enorme de obstáculos que a polícia encara.

Depois disso é a vez da mídia, é claro. Embora os excessos de um setor da mídia nacional sejam de fato imperdoáveis, a série sugere que todas as perguntas feitas por jornalistas são motivadas pelo desejo de mostrar a polícia sob ótica negativa. Em uma cena um jornalista confessa à polícia: “Sei que vocês estão fazendo um trabalho fantástico, mas o editor nos mandou acabar com a imagem da polícia”.

Polícia: 3. Todos os outros: zero.

Já os policiais são retratados como dotados de empatia, gentis, esforçados e profundamente perseverantes. Há um policial que deixa de comprar remédios para sua esposa doente até que os estupradores sejam presos.

Há uma vice-comissária de polícia que passa dias sem tempo de trocar de calça ou ver sua filha, além de um policial da força-tarefa especial que sofre dores de costas mas ainda assim passa suas noites na delegacia. Um delegado se desloca por toda a cidade com uma infecção no pé e um estagiário da polícia se alterna entre o trabalho nos protestos e no hospital sem tirar um intervalo no meio.

A série chega a sugerir que a adoção de leis mais duras para punir estupradores foi algo sugerido pela própria polícia para acalmar os manifestantes.

A estereotipagem dos outros personagens, contrastada com a humanização da polícia, cria uma narrativa incômoda do tipo 'nós versus eles', que, no contexto do estupro coletivo, é tanto desnecessária quanto insensível.

A estereotipagem dos outros personagens, contrastada com a humanização da polícia, cria uma narrativa incômoda do tipo “nós versus eles”, que, no contexto do estupro coletivo, é tanto desnecessária quanto insensível.

A indignação pública com o estupro não foi um evento esportivo competitivo em que quisemos marcar um tento contra a polícia. Embora parte dos protestos possam ter sido organizados por entidades políticas, milhares de homens e mulheres saíram às ruas simplesmente porque a violência extrema do que ocorrera os apavorou e enfureceu. Eles queriam que a polícia e o governo simplesmente cumprissem seu papel e reprimissem esses incidentes. Para as mulheres, condicionadas a encarar a violência sexual como algo que faz parte da normalidade, o estupro serviu para lhes lembrar mais uma vez que sua vida e seu corpo são reféns de forças que elas desconhecem.

De vez em quando vemos Srivastav criticando seus subordinados, mas nunca pelos problemas dos quais eles são acusados na vida real: insensibilidade, discriminação e até tolerância em relação a crimes.

O policiamento moral mostrado em uma cena muito confusa também é difícil de engolir. Um policial é mostrado ficando indignado pelo fato de o companheiro da vítima ter tido intimidade física com ela no ônibus (é possível que esse seja um detalhe introduzido pelos criadores da série).

Em uma fala raivosa, ele diz que é isso que teria desencadeado o ataque à vítima. Nesse momento pavoroso e confuso, a narrativa rouba a vítima completamente de sua autonomia e sugere que a manifestação pública de afeto pode ter sido um “gatilho” ou até justificativa do estupro. Fiquei esperando a personagem da vice-comissária de polícia, uma mulher, apresentar um argumento contrário, mas ela se afasta estoicamente sem repreender o policial por suas ideias totalmente equivocadas.

 

Governo central versus governo estadual

A série identifica o ex-comissário de polícia de Déli Neeraj Kumar, que comandou a investigação, como “consultor narrativo” de Crimes em Déli. Um representante da Netflix disse ao HuffPost Índia que Kumar ajudou o diretor Richie Mehta a redigir o roteiro de Crimes em Déli. Ficam claras as razões por que a história é relatada como é.

O roteiro alude sem sutileza ao fato de o governo de Déli querer exercer controle sobre a polícia de Déli (que está sob o controle do governo central). O governo de Arvind Kejriwal (ministro-chefe de Déli) trava uma batalha acirrada com o governo de Narendra Modi sobre essa questão.

Nos últimos anos a polícia de Déli também vem sendo acusada de seguir a linha do BJP (o partido governista), prendendo manifestantes universitários e estudantes que divulgam slogans antigoverno. Assim, o timing do lançamento de Crimes em Déli, com a “faxina” consequente efetuada na imagem da polícia de Déli, é um pouco estranho, considerando que faltam apenas semanas para o país ir às urnas.

Mais ainda porque a disputa entre o governo central e o estadual em torno da polícia não foi uma questão política candente no regime de Dikshit, já que, na época os dois governos, central e estadual, eram liderados pelo Partido do Congresso (hoje a oposição).

De fato, o diretor se esforça para fazer essa parte da “história” ser relevante às outras partes da trama. A série também mostra o governo central como sendo favorável à polícia e o governo estadual como uma força perversa que atrapalha o funcionamento desta. Esse conflito pouco convincente é imposto à narrativa como uma espécie de mensagem política que pega carona em um incidente real de assassinato e estupro coletivo. É mais um fator que prejudica a qualidade e o valor de Crimes em Déli.

Como se a intensidade da adoração da polícia já não fosse suficiente, os criadores de Crimes em Déli ainda introduzem uma sequência em que a mulher, enquanto luta por sua vida no hospital, diz aos policiais que está feliz porque estão investigando seu caso. É uma daquelas coisas que eu queria muito não ter visto. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.

Também no HuffPost Brasil:
Galeria de Fotos 10 séries que vão terminar em 2019 Veja Fotos