ENTRETENIMENTO
18/10/2019 03:00 -03

Quando a Netflix é motivo de ansiedade

Assistir TV agora parece lição de casa.

Netflix
Natasha Lyonne estressada em Russian Doll.

Criei um ritual pré-streaming estressante, que dura vários minutos e envolve fazer várias coisas de um jeito muito particular. Os passos incluem, mas não se limitam a, limpar meus óculos com um lencinho de microfibra, posicionar uma almofada no sofá para ficar na posição mais confortável possível e tentar lembrar de respirar fundo.

Depois de concluído esse procedimento, finalmente procuro o app correto, cruzo os dedos para não ter de fazer o login de novo e vou para o campo de busca, para digitar letra por letra a série que quero assistir. Aí, começo a assistir o próximo episódio desde o primeiro minuto, porque começar do meio é coisa de gente louca.

Mas antigamente não era assim. Nos velhos tempos, você podia ligar a TV e pegar uma sitcom no meio do episódio, porque a trama mal tinha importância. Nos dias de hoje, sei que todo detalhe e todas as frases podem ser – e provavelmente são – importantes.

As séries de prestígio, elogiadas e premiadas oferecem uma experiência rica em detalhes – como Succession, Fleabag e Boneca Russa. Não tenho como notar cada detalhe da decoração do set ou cada sacada que aparece como pano de fundo, a menos que fique voltando o tempo todo.

E, é claro, não tem jeito de passar horas e mais horas na frente da TV para absorver e entender essas séries. Netflix, Amazon, HBO e Hulu estão lançando uma série melhor que a outra faz anos. Até o fim do ano, Disney e Apple vão lançar seus serviços de streaming.

Cada segundo assistindo uma determinada série significa um segundo deixando de assistir outras recomendadas pelos seus amigos – com a implicação de que, se você não acompanhá-las, corre o risco de perder a amizade. E é claro que os críticos estão falando de uma outra lista de séries “imperdíveis”. Que legal, o fim de semana é realmente a hora de relaxar.

Cada vez mais sinto que, se não estiver me dedicando ao streaming como um atleta, não estou fazendo justiça a essas séries. Se der menos que 110% da minha atenção, estou fazendo algo errado. Assistir TV virou lição de casa.  

Peter Kramer/HBO
Legal, tenho de reparar nas nuances da expressão de Sarah Snook, Matthew Mcfadyen, Hiam Abbas, Alan Ruck e J. Smith-Cameron reagindo a uma boa notícia em Succession.

O The Washington Post recentemente publicou um artigo engraçado, “The Ways We Watch” (como assistimos), descrevendo 11 tipos de telespectadores acompanhados por ilustrações hilárias. O primeiro é um homem de joelhos, com a cara grudada na TV e apertando o botão de voltar no controle. Ele está tão hipnotizado pela tela que não percebe que sua camisa subiu e ele está quase mostrando o cofrinho. Ele pode ter o controle remoto na mão, mas está sendo controlado pela TV.

Abaixo da ilustração, o artigo descreve esse tipo de comportamento: “Você tem de pegar cada mínimo detalhe na tela, e vai voltar, voltar e voltar até absorvê-los todos”.

Sim, este sou eu. O texto continua:

Aí você foi além do diálogo e agora se concentra em todo o resto. Será que alguma coisa se mexeu lá no fundo? Voltar! Pera, o personagem principal estava lendo um jornal enquanto tomava café da manhã, mas você não conseguiu ler a manchete falsa? Voltar! Não pegou o placar do jogo de futebol que eles estavam assistindo na série? Bom, deve ser um detalhe crucial, então, voltar!

A descrição é uma caricatura, mas me identifico. Em várias séries, se você se distrair por alguns segundos pode perder detalhes essenciais.

Amar essas séries de prestígio não é mais uma relação casual: é um amor que exige devoção incondicional.

Peter Kramer/HBO
Se você não assistiu a primeira temporada de “Succession”, poderia achar que o personagem da esquerda quase matou alguém bem antes deste momento, porque ele está com uma cara tão séria... Relaxa, personagem da esquerda.

Em sua newsletter Kyle Chayka Industries, Chaika escreve que pulou a primeira temporada inteira de Succession, da HBO, uma das séries de prestígio do momento. Ele diz que gosta de avançar e voltar aleatoriamente, para destruir a história e criar uma “abstração bagunçada”, que é menos estressante.

Comecei a conversar com amigos sobre minha nova obsessão com “Succession, admitindo que não vi a primeira temporada. “Mas Kyle!”, eles responderam, agoniados. “Como você vai saber que XYZ era um sinal / um evento decisivo / aquela frase incrível?” A resposta é: não sei e não estou nem aí. Trama e suspense me estressam e tenho de evitá-los a qualquer custo. Tramas fazem eu me contorcer até mesmo assistindo “Big Little Lies”, uma série que, para outras pessoas, pode parecer sem rumo. Essa apatia em relação à trama é o que me faz amar “Terrace House”, um reality show japonês sobre quase nada.

Para mim, isso é quase blasfêmia, mas talvez seja uma blasfêmia necessária. É um lembrete de que não temos de ser telespectadores nota 10 – talvez, TALVEZ, a gente curta mais a vida se tirar uma nota boa o suficiente para passar de ano.

Steve Schofield/Amazon Prime
Não olha para mim, Fleabag.

Mas sei que vou continuar assistindo essas séries e fazendo meu ritual pré-streaming. Para mim, seria muito pior assistir uma série incrível como Tuca & Bertie com as lentes dos óculos sujas do que tentar pegar todas as piadas visuais que parecem surgir a cada segundo. A solução é largar as séries mais ou menos e usar o tempo para ver de novo as séries muito boas.

As boas mesmo deste ano, pelo menos para mim, são as seguintes: Fleabag (Amazon); Boneca Russa (Netflix); Succession (HBO); Tuca & Bertie (Netflix); The Other Two (Comedy Central); Barry (HBO); I Think You Should Leave with Tim Robinson (Netflix); Veep (HBO);  Documentary Now (IFC); e Los Espookys (HBO).

Pare de ver coisas novas. Assista e reassista essas séries até pegar todos os detalhes. Enquanto isso, fico aqui respirando fundo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.