08/03/2019 00:00 -03 | Atualizado 08/03/2019 00:00 -03

O amor pelo esporte e pelo Capão Redondo: A vida corrida de Neide Santos

“Se não fosse esse esporte (que eu acredito que muda vidas) talvez eu não estivesse aqui."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Neide Santos, idealizadora do "Vida Corrida" é a última entrevistada do "Todo Dia Delas", projeto do HuffPost Brasil que celebrou 365 mulheres.

É pura energia. Daquelas que não tem como não sentir e não contagiar, pelo menos um pouco. Neide Santos, 58 anos, vai até o portão quase dando leves pulinhos, coisa de quem caminha meio saltitante, com vontade, firmeza e alegria. Coisa de quem levantou feliz da cama pela manhã. Abre o portão com um largo sorriso, dando boas vindas à sua casa e a do Projeto Vida Corrida, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, bairro em que faz questão de morar. É a sua comunidade há mais de 40 anos. Com os cabelos mais curtos do que de costume, conta o motivo. “Hoje estou sem cabelo porque meu neto está com leucemia e nós todos cortamos careca. Ele foi doar sangue e descobriu, mas está firme e forte na luta. Cabelo cresce e amor não tem vaidade”.

Isso é Neide. E é com esse jeito de olhar para a vida que há 20 anos ela ajuda a transformar o cotidiano das pessoas que moram no Capão. Não faz sozinha, ela deixa claro. Nem teria como e nem quer. Mas foi ela que começou um despretensioso projeto de corrida para estimular mulheres a praticar esporte. Duas décadas depois, atende mais de 400 pessoas – entre adultos e crianças – com o objetivo de promover a inclusão social e a qualidade de vida dos moradores. Assim, para resumir.  Porque o projeto faz muito mais do que isso.

As mulheres começaram a ver nós duas e pensaram que se a gente corria elas também podiam e foram juntando mulheres.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Sobre treinar – e incentivar, Neide sempre entendeu muito bem.

Justa como é, Neide gosta de dar os créditos devidos. Diz que tudo começou por causa de uma mulher, é verdade. Mas que não foi por causa dela. “Tinha uma mulher, Maria Gonçalves. Ela viu uma reportagem na TV sobre a São Silvestre em que eu aparecia e ela quis correr comigo e falaram que ela não podia porque ela tinha mais de 60 anos. E eu disse que ela podia correr sim. E Maria Gonçalves começou a treinar comigo. Hoje ela tem 82 anos. As mulheres começaram a ver nós duas e pensaram que se a gente corria elas também podiam e foram juntando mulheres. Pouco tempo depois éramos mais de 30 mulheres treinando. Falo que quem incentivou as mulheres foi Maria Gonçalves”. E sobre treinar – e incentivar, Neide sempre entendeu muito bem.   

Lembra com clareza da cena e exatamente do que sentiu. Tinha 14 anos e jogava handball. Porém, no dia da competição escolar, uma das meninas do revezamento 4X100 havia faltado e o professor, que sabia bem da agilidade dela em quadra, sugeriu que fosse substituir a colega. Ela não sabia nada de corrida. Ouviu uma explicação de como deveria se posicionar para pegar o bastão e depois era só correr, já que seria a última da equipe. “Era só pegar e sair correndo e peguei aquele bastão e eu corri o mais rápido que eu podia e quando terminou a corrida ele falou que o melhor tempo tinha sido o meu”. Naquele dia, ela ganhou uma medalha. “Eu nunca tinha ganhado nada na vida que fosse novo. Tudo que eu já tinha usado, tudo que era meu tinha sido de alguém. E naquele dia eu ganhei uma medalha e ainda não tinha esse termo, mas aquela medalha me empoderou, me fez acreditar que um dia eu seria feliz”.

Mal podia imaginar. Nessa época, Neide já havia passado por muitas dificuldades e desafios em sua vida. Nascida na Bahia, chegou a São Paulo ainda criança e não foi de uma maneira boa. “Eu fui entregue para adoção quando eu tinha 6 anos de idade. Eu sofri a primeira violência em uma viagem de mais de 30 horas para São Paulo, fui violentada em um ônibus. Vivi em uma oficina de costura dos 6 aos 11 anos, [com uma rotina] de trabalho escravo. Só me colocaram em uma escola porque outra família me tirou dessa que me fazia trabalhar”. Foi então que se mudou para o Capão Redondo. E ficou. Apesar de amar o bairro, nem tudo foi só alegria nessas ruas. “Casei, meu marido foi assassinado, tive filhos e perdi um filho para essa violência, mas nunca me vitimizei. Eu tinha toda a desculpa para dar errado e puxar um gatilho, mas eu escolhi ficar com o amor”. Isso está claro.

Meu filho saiu de casa e não voltou e eu enterrei meu filho. Foi muito difícil. Você se questiona, briga com Deus.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E muitas mulheres e crianças correram nesse tempo guiadas pelo coração de Neide.

Seu filho morreu quando tinha 21 anos. Um pouco antes, ele começou a pedir para que a mãe incluísse no projeto também as crianças do bairro e não somente as mulheres, como já fazia. “A gente não tinha creche [nessa época], não tinha CEU, não tinha infra estrutura as crianças ficavam aí se cuidando e ele falou que elas estavam se perdendo, dizia que era um passo para começarem a usar droga e eu falei que não tinha tempo. Eu trabalhava, eu tinha que sustentar a casa, eu era viúva e não fiz a vontade dele”. No ano seguinte, a vida de Neide mudou completamente. “Meu filho saiu de casa e não voltou e eu enterrei meu filho. Foi muito difícil. Você se questiona, briga com deus, se pergunta por que e quando eu estava indo embora do cemitério, dentro de mim, não sabia de que forma, prometi que tinha que reescrever minha história”.

Foi então que, mais uma vez impulsionada por outra mulher, Rosália, que até hoje está no projeto, o pedido de seu filho veio à tona novamente. “Ela falou para, já que eu não tinha forças para trabalhar e dar treino, para eu começar a atender as crianças da comunidade, fazer a vontade do meu filho, que isso podia me ajudar. E tomei a decisão de começar a treinar inicialmente as meninas porque os meninos iam para o campinho, e elas tinham que ficar em casa, mais presas. Comecei a atender só aos sábados, porque eu não tinha tempo”. Logo, os meninos começaram a aparecer também e Neide tomou uma decisão para conseguir dar conta de tudo. Reduziu seu tempo de trabalho – e seu salário. “Foi a primeira vez que tomei uma decisão sem pensar, sem fazer contas. Reduzi em 30% o que eu ganhava, mas foi a decisão mais acertada da minha vida. Eu comecei a entrar 11h e atendia as crianças três vezes por semana”.

Fazia tudo, sem patrocínio nenhum. Comprava equipamentos, fazia bingo, rifas e o que podia para arrecadar fundos para o projeto e assim as coisas funcionaram por dez anos. E muitas mulheres e crianças correram nesse tempo guiadas pelo coração de Neide. “Eu vivo para motivar pessoas à prática esportiva porque se você quiser ter o prazer de envelhecer você tem que cuidar da saúde com prática esportiva, senão vai viver de remédio, cuidando de plástica, preocupada com corpo perfeito. Corpo bonito é aquele que tem uma mulher feliz dentro, não tem corpo perfeito”. Ensinou muita gente.  

Corro há 44 anos. Correr é como uma necessidade. Eu preciso me exercitar e gosto das provas mais longas porque sou eu e a corrida, a liberdade de viajar nos meus pensamentos, ter as ideias mais mirabolantes.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O patrocínio e parceria com a Nike, que fornece todo o equipamento de corrida para os participantes, entre outras coisas, continua até hoje.

E, há exatamente dez anos, em 8 de março de 2009, as coisas mudaram de novo. Recebeu um convite para participar de um evento de corrida. Pela primeira vez na vida, foi a uma palestra. Lá, descobriu muitas outras coisas e diversas iniciativas em outras partes do mundo que usavam o esporte como transformador social. Além disso, havia um prêmio da Nike justamente para o melhor projeto liderado por mulher voltado a área esportiva. “Eu não tinha dimensão de que o que eu fazia era importante. Não imaginava que outras mulheres no mundo faziam isso e no final da palestra perguntaram se conheciam alguém que fazia. E aquele dia foi meu filho que levantou minha mão, eu nunca tinha falado em público e levantei a mão e falei que, sem pretensão nenhuma, eu fazia”.

Depois, foi convidada a inscrever o projeto no prêmio. Inscreveu. “E aí aparece quem estava concorrendo. Só mulheres que eu sou fã, medalhistas, celebridades e eu fiquei pensando: quem ia votar em Neide do Capão Redondo? Deixei para lá. Isso foi em março, no dia 8 de março”.

Alguns meses depois, o projeto foi contemplado. Recebeu um valor em dinheiro, a visita de muita gente da Nike e um apoio de mais seis meses. E assim seguiu. O patrocínio e parceria com a Nike, que fornece todo o equipamento de corrida para os participantes, entre outras coisas, continua até hoje.

Corpo bonito é aquele que tem uma mulher feliz dentro, não tem corpo perfeito.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Neste ano de 2019, ela se prepara para entrar na faculdade. Quer estudar políticas públicas

Daí em diante, foi só crescimento. “Vieram prêmios nacionais, internacionais, reconhecimento, viagens e o mundo acabou ficando pequeno para a gente. Daqui, 8 mulheres foram para fora, mulheres simples, mulheres que limpavam privadas, mulheres diaristas, faxineiras, que cruzaram um oceano e foram correr em outros países”. Fora as diversas crianças que hoje seguem o caminho do esporte profissional e, como diz Neide, aprenderam a brincar de correr no projeto. Fala de cada uma com orgulho de mãe, mesmo. Uma delicadeza e carinho na voz que não é possível reproduzir. “Meu simples trabalho impacta na vida das crianças, leva os jovens para universidade, para ser atletas porque não tiramos crianças das drogas. Trabalhamos para que a criança não se envolva, não vá até ela”. 

Sabe que ajudou muita gente. E realizou algumas de suas vontades também. Quando descobriu o amor pela corrida, tinha o sonho de ser uma atleta olímpica. Não aconteceu exatamente assim, mas conduziu a tocha olímpica em 2016. E trabalha para que crianças possam chegar lá e, assim, realizar parte desse sonho junto com elas também. Neste ano se prepara para entrar na faculdade. Quer estudar políticas públicas. “Eu ajudei a mim mesma, se não fosse esse esporte que eu acredito que muda vidas, talvez eu não estivesse aqui”. Fora isso, ainda quer construir uma sede para o projeto e sonha em criar uma escola para ensinar corte e costura, a profissão que deu muito a ela. “Ainda tenho esse sonho e quero construir uma cooperativa para essas mulheres fazerem roupa e venderem e se sustentarem. Estou muito jovem, tenho 58 anos, e sei que vou fazer muita coisa ainda. Deus será generoso comigo. E eu acredito muito em sonhos, muito, muito”.

Tem todos os motivos para acreditar. Sonha muito, enquanto dorme, com todas as crianças que passam pelo projeto, com as vontades de cada uma. Dá força, acredita. E sonha também acordada, todos os dias quando calça seu tênis. “Corro há 44 anos. Correr é como uma necessidade. Eu preciso me exercitar e gosto das provas mais longas porque sou eu e a corrida, a liberdade de viajar nos meus pensamentos, ter as ideias mais mirabolantes”.

O Vida Corrida é longo, só tem início. As pessoas ficam o tempo que quiserem e eu sempre falei que era infinito, e outras pessoas vão continuar com o projeto.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Neide deixou o seu legado com um projeto. E gosta de chamá-lo assim, com essa palavra que escolheu.

Ali, todos os dias nas ruas da comunidade que a escolheu – e que ela abraçou, com vontade. “Foi o bairro que me acolheu, que eu casei, que tive filhos, que levou minha família. A mesma comunidade que tirou minha família me deu centenas de filhos, hoje eu tenho uma família gigantesca e aqui sou uma pessoa importante. E daqui só parto para a colina onde está meu filho. E se eu partir amanhã, tenha certeza de que partiu a mulher mais feliz do mundo porque eu cumpri meu papel”.  

Deixou o seu legado com um projeto. E gosta de chamá-lo assim, com essa palavra que escolheu. Lembra que foi uma polêmica no início porque falavam que projeto tinha que ter início, meio e fim. “O Vida Corrida é longo, só tem início. As pessoas ficam o tempo que quiserem e eu sempre falei que era infinito, outras pessoas vão continuar com o projeto”.

Certamente. Porque mais do que ensinar a correr, Neide ensina que é possível sonhar. Ela sabe que até a linha de chegada, tudo pode acontecer.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Verizon Media Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.