MULHERES
03/05/2020 14:00 -03 | Atualizado 04/05/2020 17:26 -03

Após o 2º filho, encarei o chamado do coração e pedi demissão depois de 14 anos de empresa

O 3º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é de Nathália Duarte, jornalista que virou doula para apoiar outras mulheres nesse processo de descobertas.

Divulgação/Gabriela Valença
Nathália ouviu o chamado do coração após segunda gravidez de Rico, recém-nascido na imagem.

Não voltei a mesma do nascimento do Leo. Há 4 anos eu paria meu primeiro filho, em um parto natural intenso e transformador, e mergulhava de cabeça, sem equipamentos de proteção, no universo da maternidade. Foi uma longa aventura até me reencontrar como mulher, mãe recém-nascida, humana. E entre tantos papéis, a Nathália profissional foi muito questionada.

Trabalhava havia 10 anos como jornalista na mesma empresa, e o primeiro resgate que Leo me trouxe foi o gosto pela escrita. Não só a escrita crua, com lead, dados e fontes... Mas a escrita leve, em toda a sua poesia, com valsa e cores. Reli versos que escrevi ainda adolescente, chorei por ter abandonado aquela menina na correria de tantos dias – que viraram tantos anos. E ali vi nascer o blog Cartas ao Leo, em que eu, mãe e jornalista, conto em cartas ao meu filho (hoje meus filhos) os bastidores da nossa jornada juntos.

Com o tempo, de volta da licença-maternidade, a escrita tão cheia de coração voltou a perder espaço. O noticiário – outra de minhas grandes paixões – ocupou tudo. Foram tempos de outros aprendizados, outros prazeres. Um tempo também bom demais.

E então engravidei de Enrico. Costumo dizer que Leo é o abraço acolhedor para a revolução que acontece dentro de mim, todos os dias, depois da maternidade. Enrico é potência. Deu a coragem pra mudar de vez.

A minha primeira maternidade abalou todas as minhas estruturas e renovou quem eu era. Transformou por dentro, mas ainda não havia ali espaço para mover o entorno. A segunda gravidez relembrou sentimentos que conheci quando me tornei mãe do Leo, mas que por medo e comodismo tinha deixado adormecer. Aquela conhecida inquietação voltava a florir, e Enrico me deu então novo ânimo e coragem pra buscar minha missão neste mundo.

Desde a gravidez, graças a uma diabetes gestacional, ele me levou a cuidar de mim. Me levou a meditar, a desacelerar. E me lembra, todo dia, com seu choro forte e olhar profundo, que não há espera possível para o que é urgente.

Ele é a parte de mim que não aceita adiamentos para o que nunca deveria ter sido adiado. E mesmo com um corpo tão pequeno, me encorajou como um gigante: na volta da segunda licença-maternidade, decidi encarar o chamado do coração.

Aí teve choro, teve medo, teve preparação, veio a certeza e com ela a entrega. A certeza de estar agora fazendo aquilo que nasci pra fazer. Ser apoio, informação e colo a outras mulheres em seus renascimentos.
Divulgação/Gabriela Valença
Nathália Duarte com o primogênito, Leo.

Pedi demissão, depois de quase 14 anos de empresa, para me tornar doula. O desejo de acompanhar outras mulheres em suas jornadas de transformação na maternidade veio devagar, foi aos poucos aprofundando raiz, ganhando contorno. Teve impulso de gente importante, gente querida, que junto comigo acredita que para mudar o mundo é preciso mudar o jeito de nascer. 

Aí teve choro, teve medo, teve preparação, veio a certeza e com ela a entrega. A certeza de estar agora fazendo aquilo que nasci pra fazer. Ser apoio, informação e colo a outras mulheres em seus renascimentos.

Foi dos meus meninos que nasceu o meu lado mais feminino. Serei sempre grata pela gentileza com que me levaram a recalcular a rota e seguir novo rumo.

Nathália Duarte é dona do 3º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela tem 31 anos, é doula, jornalista e autora do Blog Cartas ao Leo e ao Rico