02/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 02/02/2019 00:00 -02

Natalie Unterstell, a única brasileira na maior expedição feminina pela Antártida

Ambientalista acumula mais de 15 anos de experiência em políticas públicas e meio ambiente.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Natalie Unterstell é a 332ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quando Natalie Unterstell, 35, saiu de Curitiba (PR), ainda aos 17 anos para cursar Administração em São Paulo, não esperava que seu caminho profissional tomaria rumos tão distantes do esperado. Filha de uma executiva, imaginava-se que ela seguiria os mesmos rumos de sua mãe. Mas a morte do pai, logo após o início da graduação, mudou de vez os sonhos de Natalie. Certo dia, ao ouvir duas desconhecidas conversando sobe uma viagem que fariam para a Amazônia, a trabalho, a estudante abordou a dupla e se ofereceu para ir junto. Elas aceitaram. A partir dali, começaria a trajetória de mais de 15 anos de Natalie no campo das políticas públicas, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas. Hoje, ela é referência no assunto e recentemente, se tornou pioneira: foi a única brasileira entre 90 mulheres que passaram três semanas numa expedição na Antártida.

O que eu tenho de melhor para dividir é isso: eu sabia meu propósito, inconscientemente, e não desisti dele.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Todos os passos de Natalie tinham um objetivo, e o que ela destaca como fundamental na caminhada é nunca ter desistido.

A primeira experiência da ambientalista foi exatamente na Amazônia, mais especificamente no Amapá. Quando conheceu cerca de 20 projetos de boa gestão pública, em um Brasil que vivia o auge do desenvolvimento sustentável, descobriu que aquele era seu rumo na vida. Voltou da viagem, um mês depois, apaixonada pela floresta e com o entendimento de que poderia, sim, ser uma mulher de negócios, mas que tivessem um impacto na vida das pessoas.

De volta a São Paulo, trabalhou como estagiária em uma ONG, que a convidou para trabalhar na Amazônia novamente, agora numa área de fronteira com Colômbia e Venezuela. “Minha mãe ficou desesperada, disse que tinha investido e que eu iria morar no meio do nada, mas não teve jeito”, relembra Natalie, que passou três anos naquele lugar. Era 2005, e na época seu namorado, que hoje é marido, largou o emprego em um banco e foi morar com a amada em outro país.

Por três anos, Natalie foi requisitada para auxiliar indígenas empreendedores da região, e não tinha hora: às vezes, eles chegavam à casa dela ao amanhecer de um domingo, depois de viajarem cinco dias de barco. Ela define a experiência como maravilhosa, mas cansativa. Mais tarde, ela conseguiu uma chance de trabalho em Oslo, na Noruega e passou dos 40°C da Amazônia para os - 20°C de Oslo. Lá, Natalie continuou a perseguir seus objetivos de melhorar a relação do ser humano com o ambiente.

Depois de participar ativamente de uma negociação de parceria para destinar milhões para a Amazônia, a ambientalista voltou ao Brasil, e mais um passo fundamental foi dado: parcerias globais e políticas públicas entraram em seus planos. Trabalhou então um ano em Brasília, depois coordenou uma agência de mudança do clima no governo do Amazonas: “Eu tinha 26 anos, não sei como as pessoas acreditavam, acho que eu era muito boa vendendo o peixe. Mas eu fui, foi super legal e fizemos um trabalho bacana”, relembra. Saindo do Norte, voltou à capital, para trabalhar no Ministério do Meio Ambiente.

Todos os passos de Natalie tinham um objetivo, e o que ela destaca como fundamental na caminhada é nunca ter desistido. “O que eu, principalmente, posso dizer é que eu sempre fiz o que queria. Mesmo minha mãe tendo ficado desesperada, eu fui para a Amazônia. O que eu tenho de melhor para dividir é isso: eu sabia meu propósito, inconscientemente, e não desisti dele.”

Se você não tiver um propósito claro, que no meu caso era tornar o pleito mais competitivo, você cai.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Natalie foi candidata a deputada federal pelo Paraná em 2018, mas não se elegeu.

Em 2015, Natalie saiu do Brasil novamente, mas para cursar o mestrado em Administração Pública em Harvard. Enquanto estudava, via uma presidente sofrer impeachment e ouvia amigos recomendando que ela não voltasse ao país. Em vão.

“Eu acho uma covardia ficar fora bem na hora que estava ruim, se eu estava aqui quando estava bom. Voltei e me chamaram para trabalhar no governo de novo, mas eu não acreditava mais nisso. Naquela época eu já pensava que tínhamos que criar uma outra parada”, explica. E foi neste momento que os caminhos da política partidária e de Natalie se cruzaram mais diretamente.

“Ajudei a fundar alguns movimentos cívicos, tipo o Agora, que no ano passado estava muito sob a pressão de saber se íamos ou não disputar poder político. Ficamos meio ofendidos e algumas pessoas resolveram cair na piscina gelada, e eu fui uma delas”, conta.

Estamos em um período que a agenda feminina virou palavrão.

Neste processo, Natalie foi candidata a deputada federal pelo Paraná em 2018, mas não se elegeu. Da experiência, ela relembra principalmente de como o machismo era evidente. “Criou-se uma redoma na política para a gente achar que é sujo, que é feio e não é para mulher”, lembra Natalie, que logo retoma: “Ok, eu fui ameaçada”.

Ela conta com detalhes ao HuffPost Brasil episódios em que recebia fotos de homens nus, como forma de intimidar a candidata e sua equipe, além do momento em que um outro candidato a ameaçou: “Ele comentou como as estradas são perigosas”, relembra. E completa: “Cada um te fala uma coisa. Se você não tiver um propósito claro, que no meu caso era tornar o pleito mais competitivo, você cai”.

Foi logo depois do resultado das eleições que Natalie soube que havia sido selecionada para participar da expedição do Homeward Bound, um projeto de liderança feminina criado pela australiana Fabian Dattner. Em dezembro de 2018, Natalie e mais 90 mulheres passaram três semanas juntas, no mar de gelo, sem possibilidade de fugir caso se estranhassem.

“As ferramentas [de formação] a que tivemos acesso giravam em torno disso, em como ser mais construtiva, menos fechadas. O programa é criado para dar visibilidade à voz das mulheres naqueles problemas mais intratáveis”, explica.

Eu não fui fazer turismo, foi uma experiência para provar que é possível um grande grupo de mulheres conviver.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Acho que temos que trazer o debate da corrupção para a política pública, em vez do moralismo."

Natalie temeu a convivência por tanto tempo, mas ficou extremamente feliz conforme os dias iam passando: “O que foi lindo é que era um esforço ativo, a gente sabia que tinha que sobreviver a 21 dias no meio do nada. Eu não fui fazer turismo, foi uma experiência para provar que é possível um grande grupo de mulheres conviver, num esforço presente de fazer a coisa rolar junto e colaborar para coisas maiores”, afirma. Ela conta, também, que a ideia do programa é ter 1.000 mulheres embaixadoras ao redor do globo num prazo de 10 anos.

Para 2019, os planos são mais autocuidado e ajudar outras mulheres a ter maior poder de decisão, numa lógica propositiva e construtiva. “Estamos em um período que a agenda feminina virou palavrão, que significa pertencer a uma determinada corrente política. O que eu quero, ainda não sei especificamente como, é criar alguma coisa em cima de humanizar novamente a pauta feminina. É uma guerra de linguagem, hoje nada em relação ao feminino pode, então quero agir nessa área”, revela.

Por mais difícil que seja, somos a geração que tem tudo na mão.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Natalie quer voltar a atuar com a área pública, especialmente no que tange à área ambiental.

Paralelamente ao desenrolar das pautas com mulheres, Natalie quer voltar a atuar com a área pública, especialmente no que tange à área ambiental e parte climática, mas também no combate à corrupção.

“Acho que temos que trazer o debate da corrupção para a política pública, em vez do moralismo. Por mais difícil que seja, somos a geração que tem tudo na mão: recursos, ciência e muitas pessoas a par dos problemas. Temos que juntar as pautas, como nunca antes. Em vez de pessimismo, temos que ter teimosia.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.