O Natal deste ano foi cancelado? Especialistas em coronavírus traçam previsões

Parece improvável que este ano tenhamos missas e celebrações em igrejas, compras de Natal e grandes encontros familiares.

O coronavírus será o Grinch que vai nos roubar o Natal? Essa é uma das muitas perguntas que todos se fazem desde que foram anunciadas as novas restrições por conta da covid-19.

O governo britânico anunciou que a partir da segunda-feira, 14 de setembro, encontros com mais de seis pessoas seriam ilegais na Inglaterra. Há algumas poucas exceções à regra, como eventos de trabalho ou educativos, alguns eventos esportivos, e casamentos e funerais, em que o número de convidados será limitado.

No briefing à imprensa que fez no dia 9 de setembro, Boris Johnson foi perguntado diretamente se essas restrições significam que o Natal foi cancelado. “Como eu já disse em outra ocasião, ainda tenho esperança de que possamos ter alguns aspectos de nossas vidas de volta à normalidade até o Natal”, ele respondeu.

Mas o representante médico principal do governo, professor Chris Whitty, disse que as novas restrições vão vigorar por um bom tempo. “As pessoas devem pensar que as novas medidas serão aplicadas pelo próximo bloco de tempo”, ele disse. “Pode ser que não durem muitos meses, mas é extremamente improvável que só precisem continuar em vigor por duas ou três semanas.” Pessoas a par do que é discutido no governo disseram ao HuffPost Reino Unido que as restrições podem continuar valendo até a primavera de 2021.

Whitty fez seus comentários depois de uma entrevista dada por Matt Hancock, o secretário da Saúde, ao programa Newsbeat da BBC Radio1. Perguntado por quanto tempo a nova lei vai vigorar, Hancock respondeu: “Pelo futuro previsível”, acrescentando que isso pode significar até depois do Natal.

“É claro que eu gostaria de poder relaxar as restrições antes do Natal”, disse Hancock. Porém, quando lhe pediram para esclarecer se as famílias poderão passar o Natal juntas, ele disse: “Não necessariamente”.

Em julho, famílias muçulmanas do noroeste da Inglaterra foram avisadas com apenas algumas horas de antecedência, quando foram impostas novas regras de lockdown, que teriam que modificar ou cancelar os longamente aguardados festejos do Eid.

De olho no Natal deste ano, o HuffPost Reino Unido pediu a três especialistas que expusessem o que preveem que vai acontecer por lá. E que podem inspirar o que acontecerá no Brasil. Embora todos tenham dito que ainda é cedo para saber ao certo, também falaram que as perspectivas não são boas.

“O Natal não será a mesma coisa este ano, disso eu tenho certeza absoluta”, aventou Sally Bloomfield, professora honorária na London School of Hygiene and Tropical Medicine. “Até que ponto o Natal pode ser cancelado é algo que depende de nós neste momento.”

Em vista do aumento atual no número de casos de covid no Reino Unido, os três especialistas consultados acham que a regra dos seis (que limita ao máximo de seis o número de pessoas que podem se reunir em qualquer momento) vai continuar vigente por algum tempo, com a possibilidade de as restrições serem ampliadas.

“A reabertura das escolas e a propagação maior do vírus na população entre agora e o Natal vai elevar a probabilidade de surtos de covid-19 pipocarem em vários lugares”, disse o Dr. Julian Tang, virologista e professor honorário da Universidade de Leicester.

Tang explicou que o dia do Natal, propriamente dito, e o período de lazer que o segue, não representam um problema grave por si sós. O problema é a fase que antecede o Natal.

“Diferentemente da Ásia, onde tudo acontece ao ar livre e as pessoas saem de casa a toda hora, no Reino Unido o Natal geralmente é uma coisa que ocorre em casa e envolve apenas a família. É quase como um lockdown voluntário e auto-imposto por alguns dias”, ele disse. “O maior risco provavelmente serão os dias passados fazendo compras antes do Natal e o espírito festivo dessa época.”

A preocupação de Tang é que, se formos a shoppings lotados e tomarmos vinho quente em pubs apinhados, vamos começar a relaxar o distanciamento social.

“Fazer compras de Natal online é mais seguro, mas é muito menos festivo e não envolve tanto clima de Natal, razão porque pode ser rejeitado”, ele disse.

Algumas universidades já avisaram que suas aulas vão ocorrer apenas online até 2021, mas Bloomfield se preocupa com o impacto que será sentido quando muitos estudantes voltarem dos campi para suas casas.

“Eles farão festas de Natal, voltarão para casa, depois se espalharão pelo país e propagarão o vírus em outros lugares”, ela disse. “É altamente preocupante.”

Paul Hunter, professor de medicina na University of East Anglia e especialista em doenças infectocontagiosas, é um pouco mais otimista.

Ele destaca que o Natal é uma festa religiosa e nunca será “cancelado” formalmente, mas que este ano talvez precisemos festejá-lo de modo mais íntimo. Segundo ele, a julgar pela trajetória atual, o próximo pico de infecções pode ocorrer em dezembro e janeiro.

“As grandes festas de Natal de colegas de trabalho e outros eventos desse tipo quase certamente não vão acontecer este ano. Algumas pessoas podem dar um suspiro de alívio”, ele comenta.

No briefing que fez à imprensa no dia 9, Boris Johnson confirmou que locais que podem ser frequentados com segurança, como igrejas e templos, serão isentos da regra de seis pessoas.

Mesmo que as missas de Natal aconteçam como de costume este ano, “o grande problema das igrejas é a distribuição etária dos fiéis”, disse o professor Hunter.

“A maioria das pessoas que vai às missas e aos cultos é mais velha. É bem possível que o governo volte a recomendar o isolamento completo das pessoas em situação de risco maior, e imagino que isso não demore muito”, ele acrescentou. “Mesmo que as igrejas sejam autorizadas a promover as missas e cultos, pode ser que três quarto das congregações não possam comparecer porque estarão em isolamento.”

As escolas ainda podem estar abertas, acrescenta Hunter, “mas as apresentações de Natal típicas dessa época do ano nas escolas, em que as crianças representam a história do nascimento de Jesus, provavelmente não vão acontecer”.

“As escolas não vão convidar multidões de pais para lotar o auditório da escola para ver seus filhos fantasiados de pastores de ovelhas.”

Se a regra dos seis ainda estiver em vigor, não haverá ceias ou almoços de Natal com muitas pessoas. Mesmo que as restrições sejam afrouxadas, é possível que a vovó tenha que ficar em casa.

“A covid-19 afeta os idosos mais grevemente”, diz Tang. “Por isso, infelizmente, os encontros familiares com pessoas de várias gerações podem encerrar mais riscos e talvez devam ser evitados.”

Bloomfield destaca que é possível que até o Natal já haja uma vacina disponível. Mas as chances de ela ser oferecida em nível nacional até dezembro são pequenas.

“Vai levar muitos meses para ser produzida vacina em quantidade suficiente para gerar a chamada ‘imunidade de massa’”, ela explicou. “Talvez haja vacina suficiente para os grupos de risco maior – profissionais de saúde e pessoas de grupos muito vulneráveis. Mas produzir imunidade de massa na população até este Natal não será possível, pelo que estou sabendo.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.