Sensação de não suportar mais cozinhar é comum durante a pandemia

Você anda passando mais tempo na cozinha neste isolamento, mas tendo menos prazer nisso? Um psicólogo explica como redescobrir a alegria de cozinhar.

Quando entrar na minha cozinha um dia desencadeou uma reação física que me levou a engasgar, percebi que algo não estava certo. A bancada de cozinha escolhida pelo proprietário do apartamento era repulsiva, mas minha reação tinha mais a ver com um pavor existencial de cozinhar do que com um design de interiores dos anos 1980.

Evidentemente, eu já imaginava que meu apartamento de 84 metros quadrados acabaria parecendo apertado, depois de meses e mais meses encerrada entre suas paredes cheias de amianto durante a pandemia de Covid-19. Mas me surpreendi ao verificar que entrar na cozinha era a última coisa que eu queria fazer. Desde anotar o que estava faltando na despensa até pilotar o fogão (algo que eu antes gostava demais de fazer), de repente eu me senti farta de tudo.

A síndrome de burnout não é novidade para mim. Já trabalhei nas indústrias do entretenimento e de publicação digital, onde o burnout é uma ocorrência comum. Mas o que estava sentindo agora era frustrante. Levar o lixo para fora ou tirar o carro do lugar para que a rua possa ser varrida são tarefas irritantes, mas que eu realizo de bom grado, porque preciso.

Cozinhar é algo que eu antes fazia com prazer, pesquisava e curtia. Agora virou meu pior inimigo. Simplesmente pensar em comida já era demais. Acabei dando dinheiro a restaurantes locais, vendo minha conta de banco encolher mais e mais com cada refeição.

Quando conversei com amigos e familiares, eles me disseram que sentiam a mesma coisa. O tópico “comida” era exaustivo. Pensar no que comer, de onde viria a comida e quando viria, tudo isso era frustrante. Somada à ansiedade gerada por ter que higienizar cada embalagem de plástico ou caixinha de leite do supermercado, aquela tarefa necessária, que antes era tão apreciada, acabou virando uma chatice fenomenal.

Desde alimentar famílias grandes até discutir o que dar de comer a familiares doentes, cada faceta do tópico “comida” passou a ser cercado de ansiedade. E a minha sensação era que comida, cozinhar e comer eram as traições definitivas durante a pandemia global.

Você se identifica com este pânico de cozinha e comida?
Você se identifica com este pânico de cozinha e comida?

Procurei ajuda profissional. Cary Cherniss é psicólogo organizacional e comunitário, professor emérito de psicologia aplicada na Universidade Rutgers e autor publicado. Seu livro mais recente, Leading with Feeling: Nine Strategies of Emotionally Intelligent Leadership (Liderar com sentimento: nove estratégias da liderança emocionalmente inteligente, em tradução livre), foi lançado em julho. Veja como ele disse que podemos lidar com isso.

Para começar, saiba como é a síndrome do burnout

“O burnout é uma sensação de exaustão física e/ou emocional forte, resultando de estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado”, disse Cherniss.

O burnout geralmente é associado ao trabalho, mas viver sob quarentena pode levar à mesma sensação – ou algo ainda pior. Antes da pandemia, o burnout diário gerado pelo trabalho talvez se dissipasse às 18h, quando você saía do escritório. Mas quando você está trabalhando em casa em tempo integral, a sensação de burnout completo e abrangente é avassaladora.

“Além do esgotamento, começamos a ter sentimentos negativos em relação a atividades que antes nos davam prazer”, disse Cherniss ao HuffPost. “Outra coisa que ocorre é que nos distanciamos emocionalmente do trabalho. Perdemos interesse em fazer nosso trabalho e temos dificuldade crescente em nos sentir motivados. Quando se trata de preparar a comida, cozinhar mesmo um pouco nos deixa exaustos, e passamos a rejeitar a atividade cada vez mais. Evitamos ao máximo cozinhar, e, quando precisamos fazê-lo, investimos um mínimo de esforço e ficamos com raiva por termos que fazê-lo.”

Se você ainda não entendeu como algo que adorava fazer virou um fardo, considere suas opções culinárias antes da pandemia e compare-as com as atuais. Antes da quarentena era fácil tomar um café e um bagel na rua, almoçar na cantina do escritório e quem sabe jantar num restaurante. Todas essas opções foram eliminadas ou tremendamente reduzidas durante a pandemia. Ir para a cozinha várias vezes por dia tornou-se imprescindível.

“Para muitas pessoas, cozinhar é uma atividade gratificante. Mas ela pode virar mais uma fonte de estresse e esgotamento, especialmente no ambiente criado pela pandemia atual”, disse Cherniss. “Quando as pessoas são obrigadas a cozinhar as mesmas coisas todos os dias, a falta de variedade e de liberdade de escolha pode levar ao estresse e esgotamento. Quando as pessoas sentem que cozinhar não é algo que faz sentido e é intrinsecamente prazeroso, preparar as refeições vira apenas mais uma tarefa cansativa da qual você não pode fugir.”

E a escassez de muitos ingredientes que virou frequente no início do lockdown apenas intensificou a pressão.

“Obstáculos e limitações também contribuem para o burnout”, explicou Cherniss. “Por exemplo, se você não consegue ter acesso a muitos dos ingredientes necessários para o tipo de culinária que gostaria de fazer, cozinhar pode se tornar fonte de frustração e esgotamento.”

Cozinhar na pandemia vira necessidade — e incômodo pra muita gente.
Cozinhar na pandemia vira necessidade — e incômodo pra muita gente.

Há também a pressão de cozinhar para as pessoas que você ama. “Diante da necessidade de dividir nossa atenção entre outros compromissos urgentes, como cuidar de pessoas doentes, supervisionar os estudos de seus filhos ou cuidar de nós mesmos quando estamos doentes, pode ficar mais difícil investir o tempo e esforço necessários para tornar o preparo das refeições uma atividade agradável”, explicou Cherniss. “Com isso, cozinhar passa a ser apenas mais uma necessidade que consome nosso tempo.”

Junte todos esses elementos, e não surpreende que você odeie cozinhar. É muita ansiedade fervendo em uma panela de pressão muito pequena.

Como lidar com tudo isso? É fundamental para nossa sobrevivência que o preparo da comida nos tranquilize e dê prazer. Cherniss recomenda alguns mecanismos para lidar com o problema.

“Para evitar o burnout, uma coisa muito útil é reservar tempo todos os dias para atividades significativas e gratificantes”, ele aconselhou. “Não precisa ser muito tempo. Às vezes alguns minutos já bastam para recarregar nossas baterias. Para ser significativa, uma atividade precisa envolver tarefas que sejam desafiadoras em grau ideal – não difíceis demais, mas o bastante para que tenhamos uma sensação de realização quando completamos a tarefa.”

Mas também é preciso haver diversidade, destacou Cherniss.

“Por exemplo, em vez de cozinhar as mesmas coisas dia após dia, experimente fazer pratos novos. Autonomia e controle também são importantes: a atividade deve ser algo que você mesmo escolhe e que você pode realizar sem muita interferência ou restrições impostas por outros. Trabalhar com uma outra pessoa também pode deixar uma atividade mais gratificante e significativa. Experimente cozinhar com outra pessoa de vez em quando. Mas não esqueça que trabalhar com outras pessoas também pode ser fonte de conflito e frustração, de modo que às vezes é melhor fazer uma atividade que você realmente goste de fazer sozinho.”

Pode parecer ridículo queixar-se de uma tarefa que é necessária para sua sobrevivência, mas o burnout, em todas suas diversas formas, é uma possibilidade real. Cedo ou tarde é provável que você reencontre a alegria ao cozinhar.

Enquanto isso não acontece, relaxe.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.