"Meu mentor na igreja não queria que eu lesse nada que não girasse em torno do cristianismo."
Rhiannon Adam for HuffPost
"Meu mentor na igreja não queria que eu lesse nada que não girasse em torno do cristianismo."
LGBT
16/06/2019 02:00 -03

O que faz Nakhane viver

O cantor sul-africano já renegou sua sexualidade e enfrentou ameaças. 2019 pode ser o melhor ano de sua vida até agora.

No ano passado, quando NakhaneTouré lançou seu álbum You Will Not Die (Você não vai morrer, em tradução livre), o mundo conheceu um artista que só aparece uma ou duas vezes em uma década. Com voz gigante, confortável, a música de Nakhane é ao mesmo intimista, de conexão, mas é grandiosa.

Assim que eles aparecem, temos a tendência de rotular esses artistas raros imediatamente. A imprensa se apressa a falar dessas pessoas como se elas tivessem passado direto dos céus para dentro de nosso mundo. E, se a pessoa é um tipo ainda mais raro, como um artista LGBT que provocou reações do público, como Nakhane, reportagens a colocam como alguém misterioso, frágil ou até “selvagem”, como já foi dito a respeito dele.

É uma pena, porque faz o cantor, ator e autor sul-africano, de 31 anos, parecer sombrio e sem nenhum senso de humor ― coisa que ele não é. Pelo telefone, ele na realidade é divertido e alegre, com uma risada fácil. “Passei por tantas voltas e reviravoltas na minha fase de formação. É meio divertido ler estes artigos”, diz, soltando uma gargalhada, em conversa com o HuffPost UK. “Mas tudo bem, as reportagens captaram a ideia geral corretamente.”

A história de Nakhane é interessante: ele nasceu em Alice (uma cidade pequena na província do Cabo Oriental, na África do Sul), filho de uma família grande, conservadora e religiosa. Aos 8 anos de idade deixou sua mãe biológica para viver com sua tia em Port Elizabeth, adotando o sobrenome dela, Touré. Quando perguntamos sobre isso, Nakhane diz que não está preparado para falar sobre sua mãe, dizendo apenas que havia “problemas” entre eles.

Quando ele tinha 15 anos, sua nova família foi viver em Johannesburgo, onde sua tia, que era professora de música, o incentivou a cantar e deu a Nakhane uma formação musical erudita, misturada com muita música soul. Aos 19 anos ele já tinha afirmado sua homossexualidade perante seus amigos e sua família. Um ano depois ele entrou para a Igreja Batista e renunciou à sua sexualidade.

Ao mesmo tempo, Nakhane começou a cantar e tocar violão em bares pela cidade, compondo canções que acabariam formando seu primeiro álbum, Brave Confusion. Em 2013, ele desistiu de rejeitar sua homossexualidade e abandonou a igreja. Em 2015, lançou o romance Piggy Boy’s Blues ― sem tradução para o português.

As coisas foram se sucedendo rapidamente a partir disso. Em 2017, Nakhane atuou no filme premiado Inxeba (A Ferida, em tradução livre), sobre o relacionamento secreto entre dois homens da etnia xhosa no Cabo Oriental que ficam juntos durante a cerimônia anual do Ulwaluko ― um ritual de iniciação com circuncisão. Por retratar o amor entre dois homens na comunidade, além do fato de expor a cerimônia, o filme foi criticado, e as sessões no Cabo Oriental foram canceladas. O elenco e a equipe técnica, incluindo Nakhane, receberam ameaças de morte.

Mas Nakhane continou a escrever canções durante todo esse período. Seu empresário o colocou em contato com o cantor, compositor e produtor Ben Christophers, que produziu, em 2016, álbum da banda britânica Bat for Lashes. “Meu empresário percebeu que ele combinaria bem com o que eu estava fazendo. E depois de uma conversa com ele ao telefone, eu também percebi.”

Em 2018, Nakhane se mudou para Londres. Seu álbum foi lançado e aclamado em outros países. Madonna declarou que ele é um de seus artistas favoritos, e ele lançou uma canção com Anohni (ex-vocalista da Antony and the Johnsons). E agora Nakhane faz o tipo de artista procurado e com agenda lotada.

Quando mencionei que ouvi dizer que ele viria a Nova York em maio para se apresentar, Nakhane deu risada. “Ah-hã. Certo. Acho que sim? Nunca sei o que estou fazendo nem onde estou. Basicamente, só preciso saber que tenho que estar no ônibus em um horário e que horas preciso subir ao palco para cantar.”

A seguir, leia os principais trechos da conversa com o HuffPost UK:

Parece que sua tia foi uma influência importante em sua vida...

Ela me deu meu nome. Ela dizia brincando que minha mãe tinha sido uma barriga de aluguel para eu nascer (risos). Disse que sempre foi minha mãe. Muitas vezes era ela quem me buscava da escola. Quando as coisas deram meio errado e ela resolveu me adotar, eu já tinha passado tanto tempo com ela e o marido que eles facilmente viraram meus pais.

Parece que ela te deu uma educação musical fantástica.

Minha família é muito musical. Quando éramos menores – no Natal, no Ano Novo, quando a família estava toda reunida ―, ficávamos sentados falando de quem tinha talento. E um ou dois primos que não tinham eram atormentados. A gente dizia: “Vocês são bons no que, esportes?” O esporte era um prêmio de consolação. Deus não te deu um dom de verdade, ele te deu – esportes!

Faz sentido para mim, porque sua voz é tão treinada. Mostra que desde pequeno você foi incentivado...

Minha tia era professora de música. Minha mãe e minhas tias todas cantavam em corais, cantavam Handel, Mozart. Quando cantei meu primeiro solo, minha tia disse: “Eu te ensinei bem. Sabe que você soa bem por minha causa”. O talento que eu tinha foi fomentado e incentivado desde pequeno.

Para ela, ou você era um cantor de formação clássica, que fazia recitais, ou você era um cantor de soul, tipo Marvin Gaye, The Manhattans, The O’Jays. Qualquer outra coisa não era considerado “musical”. Mas quando eu era adolescente, conheci bandas e artistas novos graças ao Myspace. Artistas como Tom Waits e Bob Dylan me atraíam, porque minha voz tinha mudado. Os únicos dois músicos que minha mãe gostava e que eu também gostava eram Radiohead e Rufus Wainwright. Todos os outros ela considerava descartáveis.

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"Os únicos dois músicos que minha mãe gostava e que eu também gostava eram Radiohead e Rufus Wainwright. Todos os outros ela considerava descartáveis."

Sei que você sempre gostou de ler. Ouvi falar que James Baldwin entrou em sua vida quando você tinha uns 18 anos...

Just Above My Head (Logo acima da minha cabeça, em tradução livre) foi o primeiro livro dele que descobri. É tão desorganizado – a impressão é que ele está simplesmente escrevendo e mandando ver, sem estar realmente preocupado em saber se vai ficar perfeito, simplesmente tendo prazer no processo de escrever. E é claro que quando você lê um livro de um autor você sente vontade de ler todos, então eu li Go Tell It on the Mountain (Vá contar na montanha, em tradução livre), Terra Estranha, O Quarto de Giovanni. Você olha para as datas de publicação desses livros e pensa: “1957? Como é que pode? Se alguém conseguiu fazer aquilo naquela época, que desculpa eu tenho?”

James Baldwin te influenciou, te animou a “sair a do armário”?

Fiz uma festa na minha casa, saí do armário e continuei com a festa. Me assumir diante da minha família foi um pouco mais complicado.

Então quando você entrou para a igreja e voltou para dentro do armário, o que você fez com James Baldwin? Você teve que fechar algumas portas?

De certa forma sim, e de certa forma não. Continuei a ler Baldwin, Michael Cunningham e outros autores. Tive que suspender a reflexão política e o trabalho pessoal. Eu me esforcei tremendamente para não me deixar comover pelo trabalho nesse sentido, tentando aprender com o artista mas não tentando ser o artista, e isso foi realmente difícil para mim na época. Meu mentor na igreja não queria que eu lesse nada que não girasse em torno do cristianismo.

Eu pensei que enquanto você estava renunciando à sua sexualidade, também não estaria levando adiante sua vida como artista. Mas estava.

Estava, completamente. Mesmo assim, a verdade é sempre a verdade. Eu estava tentando me livrar de meu lado gay, mas meu mundo artístico sempre exigiu honestidade. Meu mundo artístico era um lugar onde eu me sentia em segurança.

É interessante. É como se, por mais que aquela fase tenha sido dolorosa e cheia de ódio por você mesmo, ela ensinou você a falar através de metáforas.

Completamente. Você aprende a falar em código, de um jeito bizarro. Meus amigos cristãos adoram as canções do primeiro álbum porque eram expressas em metáforas, numa linguagem codificada.

Mas com You Will Not Die eu pude falar mais clareza. Na sala onde eu estava escrevendo o álbum, em Johannesburgo, eu tinha frases escritas e colocadas pela sala. Uma delas era “a clareza em primeiro lugar, acima de tudo”. Aquele tempo de ofuscar as coisas, que deixar tudo difuso, ficou para trás.

Parece que quando Brave Confusion foi lançado, foi incluído no meio da tendência folk da época, apesar de não soar nem um pouco folk...

Sim, aquela foi a época do Fleet Foxes, do Bon Iver, que acabou levando a versões mais diluídas, Mumford & Son, etc. Tecnicamente falando era a música que eu estava escrevendo, porque eu só tinha um violão. Eu sempre quis fazer uma música maior e mais redonda, mas não tinha as ferramentas para isso, então trabalhei com o que eu tinha. Comecei ouvindo Leonard Cohen, mas também estava interessado em Björk e David Bowie. Aquele primeiro álbum não foi muito ouvido.

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“1957? Como é que pode? Se alguém conseguiu fazer aquilo naquela época, que desculpa eu tenho?”

Depois disso você publicou um romance e então atuou em “Inxeba”, que suscitou uma reação enorme. E você recebeu ameaças, principalmente pelas redes sociais?

Sim, pelo Twitter, o Facebook, o Instagram... Todas.

Então você se mudou para Londres ―

Não! Eu não fugi. Não foi assim que aconteceu. Enquanto tudo isso estava acontecendo, o álbum estava sendo mixado e masterizado. Eu sabia que teria que fazer muita divulgação na Europa. Então fez sentido, em termos práticos, eu me mudar para lá.

Além disso, eu estava precisando de uma mudança na vida. Estava com 30 anos de idade. Foi apenas coincidência que isso aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas estavam sendo lunáticas.

Mas você levou as ameaças a sério?

Levei, sim. Muito a sério. Cheguei a cancelar uma viagem que faria ao Cabo Oriental. Levei as ameaças a sério, mas não foi por causa delas que saí do meu país.

Em “Inxeba”, seu personagem vira mentor de uma pessoa mais jovem que é considerada “efeminada”. Eu queria saber se o mesmo rótulo foi aplicado a você quando você era mais jovem.

É claro. Só dá para fingir até certo ponto. Em algum momento as pessoas começam a desconfiar dos seus desejos, do seu jeito de falar. Me lembro de quando fui a um ritual de iniciação para me tornar “homem” e pensei “Oh, quero ser homem”, e outros iniciados ficavam me perguntando o tempo todo se eu era gay. E eu pensei “Jesus, será que não estou representando direito?”

Fui vítima de bullying desde criança. Eu me interessava por teatro musical, por orquestra. Gostava mais de passar tempo com minha mãe e minhas tias que com meus tios e pais. Mas hoje, em algum nível, acho que aquilo me deu coragem. Minha mãe nunca me fez mudar meu comportamento, ela nunca me obrigou a dar ouvidos ao que diziam os homens da família.

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"Minha mãe nunca me fez mudar meu comportamento, ela nunca me obrigou a dar ouvidos ao que diziam os homens da família."

Antes da estreia de “Inxeba”, em 2017, você fez as pazes com sua mãe biológica...

Sim. Foi muito bom mesmo. Minha mãe me telefonou e batemos um papo muito longo. Tiramos algumas coisas a limpo. Sobre algumas coisas, concordamos que continuaríamos a discordar, mas tudo bem. Mas a coisa mais importante é o amor, que supera quase tudo. O mais importante é que ela quer estar na minha vida, eu quero estar na vida dela, e queremos nos amar. Se uma pessoa é magoada por outra, tem que dizer, tem que enxergar e resolver. Eu sou um dos poucos garotos negros que conseguem dizer: “Mãe, não gosto do jeito como você fala comigo!”.

Há alguma coisa em You Will Not Die que parece perdão, ou pelo menos uma espécie de reconciliação com a igreja. Parece um hino.

Quando meu trigésimo aniversário estava chegando perto, eu não queria ser uma pessoa amarga, com raiva de todo o mundo que eu amei um dia. Então comecei a fazer as pazes com meus ex-namorados, com amigos e com pessoas da igreja com quem tinha tido um desentendimento enorme. Comecei a pedir desculpas.

“Espero que se não formos amigos daqui para frente, que pelo menos você não me deseje mal quando ouvir meu nome.” Eu estava realmente querendo dar um “reset” – escrever sobre religião e espiritualidade sem raiva, sem amargura, sem mesquinharia. Porque, por mais que a religião não se aplique a mim, ela significa muito para muitas pessoas, incluindo as pessoas que eu amo.

A canção Star Red é uma de minhas favoritas. Gosto da música tradicional que vem no final, como uma memória.

Sim, a música polirrítmica tradicional. Essa canção fala de minha avó, por isso tive que levar de volta àquela música. Ela não foi assim sempre. Na realidade, foi um erro cometido no estúdio. Era um sample de tambores, e estávamos no estúdio vendo outros tipos de samples. É quase como se a canção tivesse pedido para ir para lá. Uma parte disso foi decisão minha, uma parte foi por causa de algo muito maior. Tudo pode ser uma fonte. Você não pode ser egoísta em relação a onde uma canção quer ir. Você tem uma ideia e aí precisa se abrir. É meio assustador.

Qual foi a canção mais assustadora de escrever?

You Will Not Die. Por uma série de razões. Essa e Star Red são as músicas nas quais preciso me vigiar quando canto. Não posso fingir quando elas arrancam a verdade de mim, quer eu goste disso, quer não.

Especialmente a primeira. Ela é muito, muito pessoal. É sobre meus pais biológicos, quando me mandaram embora. Essa canção foi fácil de escrever. Eu a escrevi em muito pouco tempo. Não dá para passar muito tempo em cima de uma canção como essa. É uma daquelas canções do tipo “a primeira ideia que vem à cabeça é a melhor”. Elas podem acontecer rapidamente, mas o que produzem pode ser muito comovente.

Às vezes quando canto essa música ao vivo, preciso de meio minuto depois para me recompor. Maldita canção. Ela realmente me deixa mal. Quando a compus, liguei para minha melhor amiga e falei para ela: “Estou escrevendo sobre aquilo”, e ela disse: “Tem certeza [que é uma boa ideia]? Você sabe que vai viajar em turnê e vai ter que cantar a música todos os dias.” E eu pensei “Bom, depois da 15ª apresentação, não terá sobrado emoção destrutiva nestas canções”. Mas, não sei por que, quando me sento ao piano e toco essa música, ela ainda me deixa abalado.

Mas ela é esperançosa...

É esperançosa. Você vai acordar de manhã; você não vai estar morto. Vou para a cama, acordo, e não estarei morto. Mas há uma raiva contida na canção. Há um verso que diz “e vou viver só para ver você morrer”. Me lembro que quando gravei isso, minha amiga falou “Jesus Cristo!”. Acho que a canção fala de vingança. Embora o álbum não fale disso. É um pequeno “vá se foder”. Por favor me permita um pequeno “vá se foder!”.

Quais são seus próximos planos?

Pensei em ter um ano de 2019 realmente tranquilo. Isso está indo muito bem. Estou trabalhando um pouco como ator, daqui a pouco farei outro filme. Estou escrevendo alguns textos para revista Another Man, para a revista Lotion, escrevendo um pouco de ficção. Arando a terra. Quando nos abrimos para viver experiências, é uma coisa assustadora. Ficar parado é mais fácil, mas alguma coisa me impele a viver. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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