OPINIÃO
25/05/2019 13:38 -03 | Atualizado 25/05/2019 13:38 -03

Na corrida pela Palma de Ouro, filme francês "Sibyl" traz efeito espelho na relação erótica de seus personagens

“Temos todos esses filmes nos quais o feminino é colocado em evidência”.

Sibyl. Divulgação 2019
Os atores Gaspard Ulliel, Adèle Exarchopolous e Sandra Hüller

Sibyl, filme francês na corrida pela Palma de Ouro deste sábado (25) talvez não ganhe nenhum dos prêmios principais, mas é uma obra original, com personagens femininas muito fortes e um aceno para o cinema de Bergman (Persona), Godard (O Desprezo) e Mankiewicz (A Malvada). Tem também algumas das cenas mais eróticas de Cannes, permitindo entrar na intimidade das duas protagonistas.

A psicanalista Sibyl (a francesa Virginie Efira) decide interromper o tratamento de alguns pacientes para focar em seu novo livro. Então aparece Margot, uma jovem atriz interpretada por Adèle Exarchopolous, prêmio de Melhor Atriz em Cannes por Azul é a Cor Mais Quente. Margot está grávida às vésperas de começar a rodar seu primeiro filme. Para piorar, o pai é o co-ator e amante (Gaspard Ulliel) que conseguiu o papel para ela e vive com a diretora, interpretada por Sandra Hüller. Temos um triângulo amoroso. Ou melhor, um quadrado. Pois o filme vai focar na relação entre os quatro, e como se conectam às histórias do passado de Sibyl.

Como o ator Gaspard Ulliel disse em entrevista, Sibyl presta homenagem aos duplos femininos do cinema. “A diretora Justine Triet fez um retrato de mulheres bastante múltiplo, explorando a sua complexidade real. Em comparação, os dois personagens masculinos parecem ser uma declinação da mesma pessoa”. Gaspard lembrou também referências como Persona, O Desprezo e A Malvada, que também exploram a realidade de fazer cinema. “Temos todos esses filmes nos quais o feminino é colocado em evidência”.

A diretora Justine Triet e os atores Virginie Efira, Adèle Exarchopolous e Gaspard Ulliel conversaram com a imprensa no rooftop do Marriott logo antes da première do filme no tapete vermelho do Grand Théàtre Lumière. Confira abaixo alguns destaques das entrevistas.

A cena do barco

Uma das principais cenas eróticas é a cena dentro da cena, no barco. A diretora Mike filma Margot e Igor, co-atores e ex-amantes que, após uma briga, começam a se tocar no chão do barco. Há, claro, várias camadas emocionais. Eles não querem ser dirigidos por Mika, namorada de Igor, e acabam sendo dirigidos por Sibyl, que encontra naquele momento um paralelo com a intensidade de seu relacionamento antigo.

“Normalmente, com cenas eróticas, eu escrevo simplesmente: ‘eles se beijaram e fizeram amor’. Depois vejo até onde os atores ficam confortáveis. Neste caso, eu escrevi o que iríamos filmar, fazendo ajustes depois”, disse Justine. Os dois atores envolvidos na cena disseram que cenas de sexo acabam sendo bastante divertidas. “Neste caso, toda essa cena em Stromboli foi meio surreal. A equipe estava quase toda doente e vomitando. Justine fez quase tudo que a personagem Mika, exceto, talvez, pular do barco”, disse Gaspard.

“Acho que as cenas de sexo têm muito mais a ver com a sexualidade do diretor do que com a dos atores”, disse Adèle que, anos antes, tinham falado sobre a forma controversa de filmar erotismo do diretor Abdellatif Kechiche. Por coincidência, ele também está em Cannes, com o mais do que controverso Mektoub, My Love. Três horas e meia num nightclub, com pornografia explícita. “Quer dizer, cenas de sexo são divertidas se o diretor não é Kechiche”, Gaspard entoou.

Efeito espelho

A projeção entre as relações Margot-Igor e Sibyl e o ex-amante Gabriel são bastante exploradas. “Quando filmamos a minha cena de sexo com Sibyl, eu não sabia como ficaria na montagem. Na edição, Justine fez um corte para a cena entre Sibyl e Gabriel, o que também acontece no barco”, disse Gaspard.

A protagonista Virginie também concorda. “Tem um efeito espelho onde as coisas se misturam. Sempre que vivemos uma história, há uma mistura das histórias que vivemos antes”.

O filme ainda não tem data de estreia no Brasil.

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