POLÍTICA
09/05/2019 07:45 -03

Mutirão on e offline: A saga de Bolsonaro para aprovar a reforma da Previdência

Aliados do presidente iniciam campanha nas redes sociais enquanto ala política batalha para formar base no Congresso.

ASSOCIATED PRESS
Nesta quarta-feira (8), tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, fizeram esforços em favor da reforma.

Depois de pressão da ala econômica e de políticos simpáticos à reforma da Previdência, a equipe do presidente Jair Bolsonaro resolveu arregaçar as mangas para aprovar o projeto. O governo tem trabalhado em duas frentes: uma de convencimento à população e outra de persuasão dos parlamentares.

Recriação de ministérios e campanha online de veículos alinhados ao Planalto são alguns dos principais pontos da estratégia que saíram do papel esta semana.

Nas redes sociais, perfis como o de Allan Santos, do Terça Livre, começaram a propagandear a reforma, considerando-a “extremamente necessária”. No Instagram, ele afirmou que, diferentemente de outros presidentes, Bolsonaro decidiu “cortar na carne”.

“Vocês têm ideia do que é um presidente que não quer imprimir nota?  (…) Desde de Sarney até aqui nenhum presidente deixou de imprimir nota, por isso a inflação está tão alta. (…) Bolsonaro com 4 meses de governo não quer fazer isso.”

Filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez publicações nos 2 primeiros dias desta semana em defesa das mudanças na aposentadoria.

O parlamentar, que é policial federal e pode optar pelo regime de Previdência do serviço público e não contribui para o INSS, segundo dados da Câmara dos Deputados, tem adotado o tom de corte de privilégio.

O próprio presidente iniciou um périplo em busca de apoio popular ao projeto. Nos últimos dias, ele esteve nos programas do Sílvio Santos, do SBT, e da Luciana Gimenez, da RedeTV!, para falar sobre as regras da aposentadoria.

“Essa reforma é para ajudar os pobres, é exatamente o contrário do que os políticos de esquerda vêm dizendo”, disse Bolsonaro a Silvio Santos. Ir aos palcos do SBT também foi uma estratégia adotada pelo ex-presidente Michel Temer com o mesmo propósito.

A Gimenez, Bolsonaro foi otimista e disse já ter votos para garantir a reforma. Ela e o apresentador Ratinho, do SBT, segundo Lauro Jardim, serão pagos pelo governo para defender o projeto. 

Dois coelhos

Ao falar para o público das TVs, Bolsonaro tenta minimizar a impopularidade da proposta. Assim, ele conquista também a confiança de parlamentares. Líderes de partidos que têm afinidade com o governo, mas se negam a se considerar base aliada, reclamam que o texto causa desgaste nas bases eleitorais.

Nenhum parlamentar quer colada em si a imagem de quem está retirando direitos. Havia a reclamação de que o presidente queria aprovar o texto, mas ele próprio tentava se manter longe das polêmicas, como o enrijecimento nas regras dos professores, do benefício de prestação continuada (BPC) e na aposentadoria dos trabalhadores rurais. 

“Entra no Twitter dele [Bolsonaro], no Instagram e vê quantas publicações tem sobre a reforma. Não tem”, reclamou ao HuffPost um deputado de um partido do centrão antes da movimentação do presidente. Havia também a reclamação de que Bolsonaro desqualificava os parlamentares ao evitar interlocução e falar em nova política.

Pesquisa da CNI, divulgada nesta quarta-feira (8), mostra que 51% dos brasileiros são contra a proposta. Maioria da população (59%), entretanto, concorda que a reforma é necessária. Apenas 36% afirmam conhecer a reforma ou os principais pontos.

Guinada política

Em sinalização de mudança nos rumos da articulação política, o presidente cedeu às pressões e decidiu recriar 2 ministérios nesta semana: o das Cidades e da Integração Nacional, com o desmembramento do Ministério do Desenvolvimento Regional. A expectativa é que ao menos uma das pastas seja comandada por político.

Nesta quarta-feira, em um café da manhã, Bolsonaro pediu a governadores apoio à reforma e disse que está aberto ao diálogo. Também estavam presentes os presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

À tarde, foi a vez do ministro da Economia, Paulo Guedes, ir ao Congresso tirar dúvida de parlamentares sobre a reforma.

Adriano Machado / Reuters
Ministro Paulo Guedes participou de sessão no Congresso nesta semana.

Puxão de orelha

As campanhas só iniciaram após o presidente destravar a relação com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ambos trocaram farpas nos últimos 2 meses, mas decidiram colocar um fim nos desentendimentos.

Alvo de perseguição de apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, Maia chegou a dizer que perdeu as condições de ser articulador político da reforma. “Parecia que eu estava tentando me aproveitar de uma articulação”, disse à época.

Bolsonaro havia afirmado que “alguns [parlamentares] não querem largar a velha política”.