ENTRETENIMENTO
13/08/2020 03:00 -03

'Música para Morrer de Amor' é o filme certo para este momento, diz diretor

Em papo exclusivo com o HuffPost, Rafael Gomes fala sobre seu segundo longa, que estreia em cinemas drive-in a partir desta quinta (13).

Um filme feito para corações sentimentais de todas as idades. É assim que o diretor Rafael Gomes descreve Música Para Morrer de Amor, filme que após ser exibido em importantes festivais como o NEW FEST - Festival de Cinema LGBTQ+ de Nova York, o 52º Festival de Brasília e o 27º Festival Mix Brasil, estreia no circuito brasileiro a partir desta quinta (13), em drive-ins de São Paulo, Rio de Janeiro, Maceió e Goiânia.

“No começo foi um processo lidar com a frustração de não ver o seu filme estreando nas salas de cinema, mas depois entendemos que há poucos filmes brasileiros sendo lançados no momento. Ainda mais o filme ser sobre o que é. Porque eu acho que ele pode funcionar como um alento a essa enorme carência que nós estamos tendo das relações, do contato social. Nós achamos que o tema do filme viria a calhar para ser uma companhia acolhedora para as pessoas”, diz o cineasta e autor da peça que originou o filme, Música Para Cortar os Pulsos, que está completando dez anos em 2020 e recebeu o prêmio APCA de Melhor Peça Jovem. 

Da mesma produtora de Hoje eu Quero Voltar SozinhoMúsica Para Morrer de Amor é sobre três jovens de vinte e poucos anos provando que na vida, assim como nas canções de amor, só os clichês são verdade. Isabela (Mayara Constantino) sofre de um coração partido por Gabriel (Ícaro Silva), Felipe (Caio Horowicz) quer desesperadamente se apaixonar, e Ricardo (Victor Mendes), um colega de trabalho que se torna um grande amigo, está apaixonado por ele.

Com participação especial de músicos como Fafá de Belém, Milton Nascimento, Maria Gadu, Tim Bernardes, Clarice Falcão, Cesar Lacerda e Maurício Pereira, o filme conta uma história urbana, intensa e sentimental recheada de músicas “para cortar os pulsos” que vão - como diz o diretor - de“ópera do século 19 a Leandro & Leonardo”.

Por conta da estreia, o HuffPost bateu um papo exclusivo com Rafael Gomes. Ele falou sobre representatividade, plataformas de streaming, música e até sobre o futuro das relações em tempos de pandemia.

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O cineasta Rafael Gomes.

HuffPost Brasil: Não faz muito tempo, você participou de um episódio de uma série nossa de podcasts especiais em parceria com o 27º Festival Mix Brasil e falou, entre outros assuntos, sobre representatividade. De lá para cá, além do mundo ter virado de ponta cabeça, duas novas séries brasileiras que se destacaram nesse quesito estrearam, Todxs Nós, da HBO, e Boca a Boca, da Netflix. Você acha que estamos avançando mesmo com relação a isso?

Rafael Gomes: Parece que foi em outra era geológica, né? E foi em novembro! É muito louco, porque naquela conversa falei algo sobre o conservadorismo do governo atual querendo sufocar a representatividade e que a iniciativa privada “iria nos salvar”. Eu nem tenho esse pensamento liberal sobre a economia. Essa frase pode ter soado esquisita, mas de alguma maneira isso é verdade. Você vê que foi exatamente o que aconteceu.

Não que alguém tenha sido “salvo”, longe disso, mas, de fato, é uma tendência que os produtos audiovisuais reflitam a vida real. Não é nenhum favor que eles estão fazendo para a sociedade. Eles não estão produzindo para agradar uma “minoria”, como gostam de dizer. A questão da representatividade de sexualidade e gênero está crescendo. Ainda são passos pequenos, mas está acontecendo. E é uma tendência mundial. Se você olhar a própria Netflix americana, vai ver que isso é muito facilmente constatável. E que bom que, não apenas a Netflix, mas outras plataformas tenham espaço para colocar personagens LGBT no centro das tramas.

E é claro que essas empresas não estão fazendo caridade ou levantam uma bandeira apenas por ideologia, não é?

É tudo sobre dinheiro, claro. Mas isso mostra como esse crescimento da representatividade é um reflexo da sociedade. Eles estão fazendo isso porque há quem queira ver a representatividade real e honesta que está aí, acontecendo em nossa sociedade. Essas plataformas abriram um caminho. Se não tiver o caminho, não passa. É como quem reclama da construção de ciclovias porque ninguém anda de bicicleta na cidade. Se não existir a ciclovia, ninguém anda mesmo, né.

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Victor Mendes como Ricardo, o romântico "apaixonado pela ideia de se apaixonar".

Foi sofrido para você ver seu filme estreando em drive-ins e não nas salas de cinema?

Já foi mais sofrido para mim. Quando cancelamos o lançamento do filme, que aconteceria em junho. Foi um processo lidar com essa frustração em todos os sentidos. No sentido da acessibilidade, por exemplo, já que para ir a um drive-in você precisa de um carro, e no sentido da experiência estética mesmo, que é outra, embora o drive-in mantenha ainda a ritualização. Você tem que ter um tempo à disposição, uma iniciativa, um esforço. Você faz aquilo porque você quer devotar mesmo um momento para aquela experiência. Isso eu acho ainda muito válido. E os drive-ins estão enchendo. Mas, realmente, foi difícil. Foi um baque lidar com a frustração porque, não tem jeito, a gente quer ver o filme passando no cinema.

O filme já tinha passado em festivais mesmo, como o Mix Brasil e outros, e nós não sabemos até quando isso vai durar. A gente não tem a menor ideia de quando essas salas vão abrir e em que condições, a fila de lançamentos que vai se formar, e lançamentos muito maiores que a gente. Estou falando de filmes da Disney, da Marvel... Então, talvez fosse até pior esperar o lançamento nas salas esperando que ele fosse mais acessível. Essa concorrência com os grandes lançamentos pode deixar filmes como o meu menos acessíveis, porque o espaço dado a eles nos cinemas seria menor do que no “velho normal”. Isso pesou muito.

Além do fato de que há poucos filmes brasileiros sendo lançados no momento. Acho que Macabro foi o primeiro e agora é a nossa vez. A gente achou que seria bom ocupar esse vácuo de lançamentos nacionais e ter a atenção das pessoas, que é sempre tão disputada. Ainda mais o filme ser sobre o que é. Porque eu acho que ele pode funcionar como um alento a essa enorme carência que nós estamos tendo das relações, do contato social, da vida social. E o filme é muito sobre isso. Não só, mas é muito sobre isso também. E nós achamos que o tema do filme viria a calhar para ser uma companhia acolhedora para as pessoas.

Você acha que a representação do amor e dos relacionamentos vai mudar por conta desse período da pandemia ou mesmo pelo fato de que podemos enfrentar outras pandemias com uma frequência maior?

Para te dar uma resposta muito sincera, eu não tenho a menor ideia. Por um lado, penso que não. A gente não pode tratar uma realidade circunstancial como isso que estão chamando de “novo normal”. Estou falando da realidade dos afetos, não só os protocolos de higiene, claro. Mas, ao mesmo tempo, eu penso sobre no quão circunstancial é isso. Quanto tempo isso vai demorar? A vacina vai funcionar? Segunda onda, terceira onda... Por quanto tempo a gente vai conviver com isso? Esse horizonte muito tumultuado de respostas me deixa meio Glória Pires, não sou capaz de opinar [risos]. O meu desejo instintivo é de que não. A gente não tem o que mudar nessa representação porque eu espero que a gente não tenha que mudar a maneira de se relacionar mesmo. A gente vai continuar dando beijo na boca e encontrando as pessoas, dando abraço e dando beijo na bochecha. Isso vai mudar? Bom, no momento mudou, mas vai até quando? Vai mudar para sempre? Não sei.

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O ainda indeciso Felipe (Caio Horowicz) e Isabela (Mayara Constantino), que sofre com um coração partido, unidos pela paixão por músicas para morrer de amor.

Foi difícil desapegar do formato da peça para transportá-la para o cinema? Como foi esse processo?

Foi bem difícil porque a peça fez sucesso. Foi um resultado muito surpreendente para o tamanho que ela nasceu. Ficou muito tempo em cartaz, viajou por muitas cidades, muita gente viu, foi publicada no formato de livro... Enfim, o meu primeiro impulso como criador é tentar oferecer a essa plateia do cinema aquele texto que deu certo. As pessoas gostam dessas frases, desses pensamentos. Então foi um processo de desapego grande. E mesmo assim não foi 100% concluído, porque muita coisa que tinha na peça está no filme. Mas eu espero que esteja em uma medida que não prejudique a linguagem cinematográfica.

Foram muitas versões de roteiro. Mesmo! O principal desafio era tirar todas as características de uma peça. Quanto menos teatro, melhor. Principalmente em nível de elaboração de pensamento, porque no teatro, como eram monólogos, os personagens falavam sobre ações que já aconteceram e a elaboração sobre a narrativa a posteriori é outra. É bem diferente do que se está vivendo no momento. Não dá para o personagem refletir sobre algo ou mesmo falar sobre aquilo no momento da ação. Esse é um dos exemplos dos desafios que tive de confrontar ao transportar a história para o cinema.

O outro é a expansão do universo mesmo, de antes ter apenas três personagens falando sozinhos. As tramas deles se convergem, mas seguimos três protagonistas e tudo que os cercam. E a exposição ao contraditório desses protagonistas. Na peça eles estão em um monólogo, eles nunca são confrontados. Fugir dessa tendência de transformar os protagonistas em “heróis”. Eles têm que ter falhas, alguém que vai dizer para eles: ‘cara, você é um escroto’ [risos]. Isso para mim é muito importante que acontecesse no filme.

A música tem um papel central na trama. Como foi o processo de escolher as canções e os artistas que fazem participações especiais?

Existe uma figura muito central nessa organização de ideias e de execução prática que é o nosso diretor musical, o Marcos Preto. Na verdade, a ideia de que o filme incorporasse as músicas não só como trilha sonora, mas como a presença física dos músicos veio dele. O Marcos me deu essa ideia, e eu a comprei com muito entusiasmo. Aí entramos na segunda etapa que era: ‘bom, agora temos que chamar esses artistas’, e o Marcos tem uma rede de contatos muito grande no mundo da música. Fizemos os convites e as pessoas muito gentilmente toparam. São participações afetivas muito importantes para o filme. Isso contou até mesmo para organizarmos uma invasão de palco no Coala Festival. O Marcos é um dos curadores do festival.

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Felipe (Caio Horowicz) e Ricardo (Victor Mendes): Mais que amigos?

O Milton [Nascimento, que aparece em uma cena do filme em que Gabriel (Ícaro Silva) invade o palco em um show dele] sabia? 

O Milton sabia. Na verdade, todo mundo sabia, mas esqueceram de avisar o técnico de palco que aparece ali tentando tirar o Ícaro. Ele não está atuando. Ele realmente achou que o Ícaro era um cara invadindo o palco. Tanto é que dá para ver o Milton segurando o braço dele falando: ‘deixa, deixa’, porque o Milton, os músicos, todo mundo sabia, menos o técnico de palco [risos] e a plateia. A plateia não sabia. Então, até nisso o Marcos fez essa ponte.

Em relação às músicas que tocam na trilha... São 35 ou 36 músicas. É um labirinto burocrático para se liberar essas músicas que é uma doideira. Esse processo durou o dobro de tempo de editar o filme. E o vaivém que isso causa, né. Tipo ’essa música aqui não vai dar’, então tenta outro, mais uma, mais outra... Mesmo assim, as opções sempre estiveram dentro de um repertório que eu quis que fosse muito eclético. Queria ir de ópera do século 19 a Leandro e Leonardo. Passando pelo tango, pop/rock brasileiro dos anos 80, contemporâneo... Não queria que fosse um filme delimitado em um tecido sonoro como muitos são.

Nenhum problema nisso, mas eu não queria que o filme fosse reconhecido por sua trilha indie rock ou folk ou pop. Não queria que fosse assim e acho que a gente conseguiu fazer algo muito colorido nesse sentido. Ficou do jeito que a gente queria, mas foi um longo caminho.

Veja aqui as datas e locais de estreia de Músicas Para Morrer de Amor:

13/08 – 20h30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
13/08 – 20h25 - CineSystem Uptown Barra (Rio de Janeiro)
14/08 – 20:30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
15/08 – 20:30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
15/08 – 20h25 - CineSystem Uptown Barra (Rio de Janeiro)
15/08 – 20h30 - Projeto Paradiso (São Paulo)
16/08 – 20:30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
16/08 – 23h00 - Projeto Paradiso (São Paulo) – Sessão extra
16/08 – 20h25 - CineSystem Uptown Barra (Rio de Janeiro)
16/08 – 22h40 - Lumiere Drive-Estação (Goiânia)
18/08 – 20:30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
18/08 – 20h25 - CineSystem Uptown Barra (Rio de Janeiro)
19/08 – 20:30 - Cine Arte Pajuçara (Maceió)
19/08 – 20h25 - CineSystem Uptown Barra (Rio de Janeiro)
19/08 – 20h30 - Drive Gyn Serra Dourada (Goiânia)

*O filme estará disponível nas plataformas Now, Vivo Play e Oi Play a partir de 20 de agosto.