OPINIÃO
10/04/2020 11:00 -03 | Atualizado 14/04/2020 19:13 -03

Pandemia do coronavírus evidencia que arquitetura do mundo é interdependente

Falhamos, em nível global, quanto à preparação para lidar com cenários como o que o mundo vive hoje.

Manuel Silvestri / Reuters
Funeral em Veneza; Itália foi um dos epicentros da covid-19 no mundo e é o país com mais mortes - mais de 18 mil.

Por Vinicius Mariano de Carvalho*

Muita coisa já foi dita, em um curto período, sobre a covid-19 em todas as suas dimensões, sejam técnico-científicas, sejam psicossociais, sejam político-estratégicas. E aqui vamos a mais um texto sobre o tal vírus e a pandemia que este provocou.

Pois bem, ainda durante o Carnaval, tudo isso parecia uma coisa da China, um problema sobre o qual se ouviria falar, mas que não afetaria diretamente o Brasil. Um pouco como as epidemias de ebola na África. Mas o imprevisto aconteceu, a covid-19 se tornou uma pandemia e, subitamente, todo o mundo entrou em uma situação de stand-by que não se via há um século.

Se a pandemia era algo previsível ou não, inevitável ou não, já não são mais as questões a serem discutidas. Aqui está ela, no meio de nós, indiscriminada e inclemente. 

A questão que se deve colocar, a meu ver, é o planejamento baseado nessa realidade que nos foi imposta, uma vez que já é claro que falhamos, em nível global, quanto a projetar estrategicamente a previsão de uma crise de tamanha dimensão e espectro e quanto à preparação para lidar com cenários como o que o mundo vive hoje. 

Um pensamento estratégico deve imaginar o máximo de realidades possíveis, mesmo que improváveis. Deve ler sinais presentes, com as luzes de experiências passadas, para prever ações futuras. Isso não significa que seja possível controlar o futuro, mas ao imaginarmos esses cenários possíveis, conseguimos antever crises e, quando inevitáveis, nos preparar e nos prevenir para que estas não se tornem agudas, incontroláveis ou ingovernáveis. 

Pensamentos estratégicos, ao mesmo tempo, norteiam decisões políticas e são resultados de orientações políticas. Dos governantes, espera-se a capacidade de tomar decisões que garantam a liberdade e a segurança de seus governados – aqui é bom lembrar uma famosa assertiva de Thomas Hobbes: “a obrigação dos súditos de obedecer ao soberano permanece enquanto este for capaz de oferecer proteção”.

Uma vez tomadas essas decisões, elas devem ser também comunicadas estrategicamente, de modo que cada ator social compreenda seu papel, seu horizonte de atuação e suas capacidades e limitações na operacionalização de medidas alinhadas ao que norteou a linha de ação adotada à luz desse pensamento estratégico.

Ainda que se associe diretamente estratégia a guerras, estratégias muitas vezes existem para evitar guerras. Portanto, pensamento estratégico é uma ferramenta política. Um dos grandes mestres do pensamento estratégico contemporâneo, Colin S. Gray adverte, em seu último livro, Theory of Strategy (Oxford Univ. Press, 2018): “a falta de transparência do futuro não pode eliminar toda a responsabilidade dos líderes políticos pelo esforço disciplinado de tentar enxergar o mistério frustrante”.

Sim, o futuro é imprevisível, misterioso e opaco – e, portanto, frustrante. Nessa opacidade, porém, decisões políticas disciplinadas são a garantia de que se pode jogar alguma luz nesse futuro, ainda que sempre incerto.

Pensamento estratégico garante que países atravessem crises com resiliência, porque exige que estes procedam em constante análise e avaliação das situações presentes, iluminados por experiências passadas, com vistas a definir ações que terão como consequência o cenário mais próximo do desejado. 

As metáforas de guerra têm sido muito usadas como referência à maneira de se responder e confrontar a pandemia. De um ponto de vista de comunicação estratégica, no entanto, não me parece a mais adequada maneira de se narrar e entender a situação. Nem tudo o que demanda esforço coletivo, sacrifício, concentração de reforços e recursos e ação coordenada é guerra. O uso dessa terminologia, na verdade, funciona como uma desculpa para a falta de pensamento estratégico. Outra vez, reitero: pensamento estratégico é ferramenta política. 

Ainda que muitas ações, operações e táticas para o controle da disseminação do vírus, para o tratamento dos infectados, para o digno sepultamento das vítimas, demandem um tipo de organização que instituições militares mormente são capazes de executar em curta fração de tempo e de maneira organizada e sistêmica, é importante lembrar que isso não faz de uma pandemia uma guerra contra o vírus. Ou que o vírus esteja em guerra contra os humanos em geral. 

Um vírus é uma realidade natural, não uma ação política. Um vírus não declara guerra deliberadamente contra uma nação ou grupo. Ele simplesmente existe, e o que causa nos humanos não depende de uma decisão intencionada. Já é bem conhecida a citação de Clausewitz de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Vírus não faz política, portanto, não faz guerra. Não estamos em guerra contra a covid-19. Ademais, em guerras, mortes são justificáveis; em uma pandemia, não.

A crise causada pelo novo coronavírus simplesmente evidenciou os óbices de um pensamento estratégico – e, outra vez, citando Gray: “estratégia é sobre consequências”. 

Riscos de pandemias não fazem (tampouco fizeram) parte de uma ficção científica; são realidades possíveis, portanto, imagináveis como cenário futuro e, consequentemente, devem ser consideradas na elaboração de um pensamento estratégico.

A consequência das epidemias, quando estas são negligenciadas por um pensamento estratégico, são previsíveis. Em outras palavras, podemos ignorar a possibilidade de que ocorrerá uma epidemia, porque imprevista, mas não podemos pensar que são improváveis, porque a História já nos mostrou o contrário. E o presente nos confirma isso.

Pois bem, não pretendo discutir as lacunas de pensamento estratégico que nos levaram ao que estamos vivendo hoje, mas refletir sobre como queremos o futuro. Da situação em que estamos e com base nas experiências do passado e na análise realista dos recursos que temos, quais cenários podemos prever para o País e para o mundo ao fim deste ano? Ao fim de 5 anos? Ao fim de 10?

Para esse exercício, é preciso focalizar uma arquitetura complexa de pensamentos e comportamentos, contraditórios por vezes, mas relevantes. Porque, da mesma forma que o coronavírus é pandêmico, esse pensamento estratégico deve ser também pandimensional e global. 

Joseph S. Nye Jr., ao responder à pergunta da revista Foreign Policy (“Como o mundo vai se parecer depois da pandemia do coronavírus?”), foi incisivo na resposta: “Em 2017, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma nova estratégia de segurança nacional que se concentra na competição de grandes potências. A covid-19 mostra que essa estratégia é inadequada. Mesmo se os Estados Unidos prevalecerem como uma grande potência, não poderão proteger sua segurança agindo sozinhos”.

O que Nye deixa muito claro é que qualquer pensamento estratégico elaborado nacionalmente neste momento deve entender que um mundo pós-coronavírus (e pré-coronavírus) só será bem-sucedido se considerar o escopo multilateral das relações entre os Estados, sejam elas políticas, sejam econômicas. Não há respostas individuais – ou puramente nacionais – para a pandemia, e um pensamento estratégico para o que queremos de um futuro de curto, médio e longo prazos passa necessariamente por um diálogo global amplo e uma coesão entre ações de diversos países e blocos.

Ainda que haja uma tentação ao fechamento de fronteiras, à limitação da circulação livre de pessoas e bens, ao recurso dos nacionalismos toscos e obsoletos, não serão essas as medidas e atitudes que nos darão alguma resposta consistente e referencial para as reconstruções social, política, econômica e psicológica que necessitaremos ao fim desta crise.

Tais reconstruções devem iniciar agora, com um exercício de pensamento estratégico denso e profundo, crítico e realista, pluralista e global. Não há saídas mágicas para a crise – essas, sim, só ocorrem em ficção científica. 

Os esforços estratégicos, desde já, devem focalizar um sólido exercício diplomático global que ajude a compreender que não haverá vencedores nem perdedores ao fim da pandemia. Ou seremos todos perdedores, ou todos vencedores. 

O surto da covid-19 deixou muito claro que a arquitetura do mundo é interdependente, muito mais hoje do que na gripe espanhola, em 1918. Não existe consequência para um país, portanto, que não se aplique a outro, de forma mais ou menos agravada. 

É essa mesma arquitetura interdependente que reclama por uma busca por soluções e ações também interdependentes, quando se pensa no que e como queremos ser como país e como mundo após essa crise. 

Isso pode soar demasiado idealista. E o é. Talvez seja necessário buscarmos, então, por um posicionamento mais realista ou mais pragmático nesse caso e voltar às perguntas já expostas acima: como estará o Brasil no fim de 2020? Como queremos ver o Brasil em 5 anos? E em 10?

As respostas a essas perguntas virão do exercício de pensamento estratégico, urgente agora. São respostas que demandam uma coordenação de fatores diversos em suas formulações: fatores econômicos, políticos, diplomáticos, militares, científicos, educacionais, trabalhistas e sociais. São respostas que só serão encontradas em um exercício amplo de debate estratégico, e não em suposições oportunistas e pseudodemocráticas. 

Em meio à crise, por mais que pareça difícil iniciar o pensamento sobre o que virá depois ou sobre como queremos que seja esse “depois”, é preciso, mais do que nunca, de um debate democrático e denso, substanciado em dados precisos e cientificamente elaborados.

Um bom ponto de partida é o documento produzido pelo Centro de Estudos Estratégicos do Exército, publicado no dia 2 de abril, com o título “Crise covid-19 – estratégias de transição para a normalidade”.

O estudo é meticuloso e faz um diagnóstico bem preciso da situação atual e dos cenários possíveis, considerando-se medidas já tomadas ou a serem tomadas em meio à pandemia, tanto nacional quanto internacionalmente. Um dos vários aspectos importantes do estudo é a ênfase dada ao papel das lideranças políticas. Diz o texto, literalmente:

“A responsabilidade das lideranças políticas frente às inúmeras adversidades que ainda se apresentarão é demasiada. Diante do tamanho do desafio, ainda não totalmente mensurado, parece clara a necessidade de coesão nacional e de definição de estratégias eficazes e claras.”

Este me parece o ponto mais relevante a ser ressaltado no momento: a necessidade de coesão. Outra vez, citando Colin S. Gray: “A estratégia deveria ser uma iniciativa única, unida, coerente, realmente unificadora”. 

A tarefa de formar uma coesão não é simples, mas possível, especialmente quando se entende que coesão não é o mesmo que pensamento uníssono.

Uma estratégia, da maneira como a define Gray, única, unida, coerente, unificadora, só é construída com a multiplicação de vozes e percepções. É polifônica. Às vezes, dissonante. Deve, porém, ser sempre focada nas consequências que terá.

A crise que estamos passando, dada a sua dimensão, exige esse exercício de pensamento estratégico complexo e pluralista, que oriente políticas e políticos na tomada de decisões e na implementação de ações e planos.

Políticos, mais que nunca, necessitam ouvir essa orquestração de vozes diversas e distintas, cada qual expressando percepções múltiplas da situação e dos possíveis cenários. Uma última advertência de Gray: “Pode haver um problema com os comandantes que se comportem mal por ignorância, ou cujos egos os induzam a acreditar que estão além da necessidade de autodisciplina ou orientação de uma fonte externa”.

De fundamental importância será também uma comunicação estratégica que dê conta de conjugar isto que estou chamando de “pluralidade de vozes”, de polifonia, em uma única partitura, como um arranjador – usando aqui uma metáfora musical.

Essa partitura será a estratégia. Ela será música, de fato, somente se executada em uma orquestra, por diversos músicos, com diversos instrumentos. Mas uma partitura. Ao regente, caberá fazer funcionar a orquestra, mas não ditar a partitura.

O que é importante é que não deixemos que essa opacidade do presente justifique qualquer inação no futuro. 

*Vinicius Mariano de Carvalho é professor de Estudos Brasileiros no Brazil Institute e no departamento de Estudos de Guerra do King’s College London

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.